Mês: Fevereiro 2014

The Places We Live – uma viagem multimédia

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http://www.theplaceswelive.com/

The Places We Live é um projecto multimédia que representa um jornalismo que muito me motiva e é um exemplo de um trabalho que considero muito interessante por diferentes motivos. O site representa uma fusão entre as vantagens do multimédia e a realidade documental, tratando-se de um retrato de quatro zonas do globo, Venezuela, Kenya, Índia e Indonésia, que cada utilizador pode conhecer não por uma ordem específica mas de acordo com o seu grau de curiosidade, enquanto traz para dentro de casa de cada um um retrato fiel de alguns caso de pobreza extrema pelo mundo.

O trabalho é de 2008 mas mantém-se actual, não só pelo tema que representa como pela tecnologia cada vez mais utilizada, e foi realizado por Jonas Bendiksen, que viajou entre 2005 e 2007 para contar a história de algumas famílias que, ao se mudarem para os meios urbanos, se vêm obrigadas a viver em favelas, ou bairros de lata, de dimensões avassaladoras, sem quaisquer condições humanas, saneamento básico ou electricidade.

Na página inicial deparamo-nos com um mapa onde podemos escolher o local que queremos visitar sendo imediatamente transportados, visual e auditivamente para o mesmo. Uma vez no bairro escolhido podemos ainda conhecer quatro famílias diferentes, entrando dentro das suas casas e ouvindo a sua história contada por um dos membros da família enquanto uma fotografia panorâmica a 360º nos permite conhecer a sua casa.

Penso que é um trabalho extremamente interessante que representa uma forma inovadora de cativar o utilizador a conhecer outras realidades que não a sua, principalmente se não for um interessado pelo meio documental, tanto por ser um site, que pode ser visitado a qualquer hora do dia, como por cada escolha sobre a viagem a fazer depender do utilizador em si.

Espanha: Jornais online são o meio mais credível e consultado na internet

De acordo com a notícia divulgada na Agência EFE, no passado dia 19 de Fevereiro,“sete em cada dez utilizadores da Internet dedicam mais de uma hora por dia aos meios de comunicação, sendo que os jornais online são os meios mais vistos com 44,8 por cento e que obtêm uma pontuação mais elevada em termos de confiança e credibilidade (6,78)”. Estas conclusões foram anunciadas pela Associação IAB Espanha, representante do domínio da publicidade, marketing e media digital em Espanha, que realizou inquéritos a 1003 utilizadores da Internet, com 18 ou mais anos ou mais, e que se conectam à Internet pelo menos quatro vezes por semana.

O estudo concluiu também que “a Internet, pela diferença de um ponto (7,68), é o meio mais credível para os internautas, seguindo–se os jornais tradicionais (6,52) e a rádio (6,44)”.

Destaque para a pontuação de 6 pontos conferida a todos os órgão de comunicação digitais, “sendo os jornais online os mais credíveis (6,78)”. Os números apresentados revelam uma mudança de atitude do público face à actividade jornalística no online, pelo menos em Espanha.

Habitualmente, a Internet tende a ser vista como inimiga do jornalismo. Questões como o rigor, a credibilidade e a verificação de fontes, imprescindíveis no exercício jornalístico, parecem ser ameaçadas tanto pela cultura “de ser o primeiro a noticiar”, tão sedimentada actualmente nos órgãos de comunicação com presença no meio online, como pela liberdade de expressão que a Internet possibilita. Hoje, todos temos a capacidade para partilhar conteúdos informativos, fala-se de um jornalismo “feito por todos” que, em parte, retira o poder ao jornalista, ele que tão bem conhece ou deveria conhecer os princípios pelos quais se rege a actividade. Uma breve pesquisa com as palavras-chave “jornalismo” e “Internet” revelam-nos que estes são os pontos mais focados nos estudos que reflectem sobre a migração do exercício jornalístico para o ciberespaço.

Contudo, as conclusões divulgadas pela Associação IAB Espanha dão-nos uma nova visão da Internet e atribuem aos jornais, neste caso espanhóis, um novo estatuto. A credibilidade do online tão questionada e debatida parece, agora, ser uma realidade que começa a ganhar visibilidade.

O jornalismo online

A versão online de um jornal surge devido à existência de um interesse público por notícias recentes. Além das características do jornalismo em geral, o jornalismo online apresenta grande interactividade, maior contextualização e velocidade, textos com links e recursos multimédia. Assim as suas características são: rapidez, leveza, exactidão, visibilidade, multiplicidade e consistência.

Permite a transmissão da informação no momento do acontecimento. Normalmente o texto tem uma navegação fluida e uma organização contextualizada com o auxílio de ícones, fotografias e animações. O conteúdo é apresentado de forma objectiva e concisa, em secções e com links, de modo a auxiliar a navegação e a compreensão da informação. O jornal oferece a possibilidade de relacionar as informações através de links, que remetem a notícias relacionadas.

É possível levar a mensagem até ao local onde se encontra o leitor através do envio por email ou da consulta na internet. Consegue-se chegar a um público de leitores diversificado, que participam e interagem como emissores de informação e comentários sobre os factos, nas secções destinadas à opinião e ao diálogo.

Hoje em dia, a maioria dos jornais já tem um site, pois já têm noção de que o online é o futuro do jornalismo. “Por meio das plataformas digitais, sabemos o que o usuário lê, temos o perfil do nosso público e conseguimos customizar o conteúdo e os anúncios. É uma mudança revolucionária”, afirmou Juan Luis Cebrián, presidente do El País, no seminário “Jornalismo: qual será o modelo sustentável para o futuro?”, realizado em Outubro de 2012.

Assistiu-se, recentemente, a uma reestruturação do diário espanhol justificada pela crise europeia, pela queda de publicidade e pela mudança do perfil do leitor. A primeira estratégia, colocada em prática em Março de 2009, foi colocar o conteúdo digital em primeiro lugar. Hoje em dia todos os redactores do jornal produzem textos para internet e suporte impresso.

 

http://moxphere.com/2012/12/despreparo-para-digitalizacao-tambem-atingiu-o-el-pais/

http://noticias.sapo.pt/internacional/artigo/el-pais-avanca-com-despedimento-_5217.html

 

The Guardian, n.º1 na liberdade de expressão VS Red Papper, ao serviço do governo

A Associação de Jornalistas de Valência decidiu galardoar o The Guardian com o prémio “Liberdade de Expressão”, pela capacidade de resistir às pressões do governo britânico após terem sido divulgadas no jornal notícias que relatavam situações de espionagem global nos Estados Unidos.

Em 2013, The Guardian foi pioneiro na divulgação de documentos secretos conseguidos por Edward Snowden, ex-analista de informação na Agência de Segurança Nacional dos EUA – “papeles de Snowden”- que revelavam a existência de programas de espionagem desenvolvidos pelos Estados Unidos com a colaboração do Reino Unido. Desde então, o jornal, que foi apelidado por “ traidor” do país, tem sido alvo de ataques, quer por parte de jornais concorrentes, quer por parte do governo britânico que chegou a obrigar a redacção a destruir os documentos que serviram para revelar as práticas de espionagem a chefes de Estado da União Europeia e a milhões de cidadãos do mundo.

Face à resistência do jornal britânico, a Associação de Jornalistas Valencianos reconhece no The Guardian “um exemplo de profissionalismo e defender a liberdade de expressão e o direito à informação”, que o torna merecedor do prémio “Liberdade de Expressão 2014”.

“con el que la Unió de Periodistes aprovecha para denunciar la actuación autoritaria y antidemocrática del Gobierno británico, actitud que está empezando a hacerse demasiado habitual cuando se trata de ocultar posturas totalitarias de estados democráticos con el único argumento de garantizar la seguridad.”

The_Guardian_front_page_10_June_2013

The Guardian vs Red Pepper

Contrariamente à atitude do The Guardian, um jornal do Uganda foi notícia em diversos órgãos de comunicação internacionais pela publicação de uma lista intitulada “o top 200 dos homossexuais do país”, com nomes, moradas (trabalho e residência) e algumas fotografias, um dia após o presidente ter assinado uma lei anti-gay. O tablóide Red Papper revela, assim, estar em consonância com a lei que a obriga à denúncia dos homossexuais, comportando-se como um autêntico órgão ao serviço do Estado, ao mesmo tempo que promulga a penalização e perseguição destes cidadãos.

red pepper

Assumindo-se como jornais “traidores”, que descortinam a verdade, ou “ ao serviço do Estado”, e que, por vezes, colocam em causa a estabilidade da cidadania, central é a certeza que os meios. Assumindo-se como jornais “traidores”, que descortinam a verdade, ou “ ao serviço do informativos continuam a ver a sua actividade agitada pelo poder político, numa era em que a liberdade de expressão deveria ser uma realidade consolidada.

 

Notícias analisadas:

http://expresso.sapo.pt/jornal-do-uganda-expoe-200-homossexuais=f857886

http://www.fape.es/the-guardian-premio-llibertad-d-expressio-de-la-unio-de-periodistes-valencians_fap-818848631460.htm

Detector de mentiras para redes sociais

NOTÍCIA DO DIÁRIO DIGITAL, 20 Fevereiro 2014

CIENTISTAS DESENVOLVEM «DETECTOR DE MENTIRAS» PARA REDES SOCIAIS

Um projecto que envolve várias universidades e empresas europeias está a desenvolver um detector de mentiras para verificar rumores que circulam em fóruns online e em redes sociais.

O sistema analisará em tempo real se uma publicação é verdadeira e identificará se uma conta ou perfil de uma rede social foi criada apenas para espalhar informações falsas.

Os dados analisados incluirão publicações no Twitter, comentários em fóruns sobre temas relacionados com questões de saúde e comentários públicos no Facebook.

O objectivo do sistema é ajudar organizações, inclusive governos e serviços de emergência, a responder de forma mais efectiva a novos acontecimentos.

O projecto surgiu a partir de uma pesquisa sobre o uso das redes sociais durante os conflitos de Londres em 2011.

Segundo os especialistas, os rumores online serão classificados em quatro tipos:

Especulação – como, por exemplo, se pode haver uma alta na taxa de juros 
Controvérsia – como a que ocorreu com a vacina tríplice viral, que foi acusada, em vários países, de provocar o autismo 

Má informação – se uma informação falsa é disseminada sem intenção 
Desinformação – se uma informação falsa é disseminada intencionalmente

«Depois dos conflitos de 2011, foi sugerido que as redes sociais fossem bloqueadas para impedir que os manifestantes se organizassem», disse Kalina Bontcheva, líder do projecto na Universidade de Sheffield.

«Mas as redes sociais também dão acesso a informações úteis. O problema é que tudo isso acontece muito rápido e não conseguimos diferenciar o que é verdade do que é mentira com a mesma velocidade. Isso torna difícil reagir a rumores, por exemplo, impedindo que serviços de emergência invalidem uma mentira para manter a tranquilidade numa dada situação.»

O sistema também categorizará as fontes das informações para avaliar a sua autoridade. Elas incluirão serviços de notícias, jornalistas, especialistas, testemunhas, cidadãos e bots – contas que publicam automaticamente em redes sociais. O sistema também examinará o histórico de uma conta para identificar se esta foi criada apenas para disseminar rumores falsos.

Conversas em redes sociais serão analisadas para ver como evoluem. Fontes serão verificadas numa tentativa de confirmar se a informação é verdadeira ou não. «Apenas o texto será analisado», disse Bontcheva. «Não analisaremos imagens, não temos como saber se uma foto foi alterada. Isso é muito difícil tecnicamente.»

Os resultados das buscas feitas pelo sistema serão exibidos num «painel visual» para que as pessoas possam verificar se um rumor se sustenta.

A primeira série de resultados deve ficar pronta em 18 meses e será testada principalmente com grupos de jornalistas e profissionais de saúde. «Temos que ver o que funciona ou não e ter certeza de que temos o equilíbrio correcto entre análises feitas por máquinas e por pessoas», disse Bontcheva.

Chamado de Pheme, nome da deusa grega conhecida por espalhar rumores, o projecto envolve cinco universidades – Sheffield, Warwick, King’s College London, Saarland, na Alemanha, e Modul, em Viena – e durará três anos. Quatro empresas – Atos, iHub, Ontotext e Swissinfo – também participam.

No final, espera-se que seja produzida uma ferramenta feita especialmente para jornalistas.

 

COMENTÁRIO

            Hoje em dia todas as pessoas acreditam que podem espalhar notícias. Com a tecnologia providenciada pelos smartphones qualquer pessoa que assista a um acontecimento importante pode partilhá-lo, na hora, na internet. Ou seja, quem estiver no lugar certo à hora certa, e tiver um telemóvel com acesso à internet, poderá publicar logo algo no seu facebook ou no twitter relatando o que acabou de ver ou assistir.

            Ora, o problema é que muitas vezes a informação que circula nas redes sociais é falsa ou está incorrecta, mas como se propaga rapidamente vai alcançar muita gente em pouquíssimo tempo, que provavelmente também irá partilhá-la. Assim, um dos problemas dos dias de hoje é este fenómeno de qualquer um achar que pode ser jornalista e da má informação que chega à internet se alastrar velozmente.

            No entanto, as redes sociais muitas vezes transmitem factos verdadeiros e tornam-se úteis para fazer circular informação importante, por isso o que é necessário é existir uma espécie de filtro, tendo sido criado o sistema “Pheme” precisamente para essa função. Este sistema irá ajuda na triagem desses factos. Um dos seus aspectos positivos é o facto de categorizar as fontes das informações (serviços de notícias, jornalistas, especialistas, testemunhas e cidadãos) para assim se avaliar a sua autoridade. Conseguirá ainda identificar se uma conta foi criada apenas para disseminar rumores falsos.

            Este é um sistema muito útil na actualidade, uma vez que todos nós utilizamos pelo menos alguma rede social e nos informamos sobre o que se passa, no mundo e no país, através da internet.

E quando os jornais metem em perigo de vida pessoas inocentes?

O tablóide Red Pepper mete em perigo 200 homossexuais no Uganda

Nos jornais do mundo ocidental é bastante comum a publicação de notícias a revelarem escândalos e abusos de poder de todo o tipo e mesmo a prisão de violadores, homicidas e ladrões. Apresentando, uns mais que outros, uma posição de contra as violações dos direitos humanos.

Durante esta semana saiu em muitos jornais de todo o mundo uma notícia sobre uma publicação feita por um jornal do Uganda. O tablóide Red Pepper publicou uma lista, com nomes, moradas de trabalho e casa e algumas fotografias, a que chamou “o top 200 dos homossexuais do país”, incluindo pessoas que não se tinham identificado como tal, um dia após o presidente ter assinado uma dura lei anti-gay.

A nova lei, que proíbe a promoção da homossexualidade e exige a denúncia dos gays e lésbicas, está a causar revolta em vários países, que pretendem retirar o seu apoio ao país. O Secretário de Estado dos Estados Unidos, Jonh Kerry, disse ao Mail Online, que esta lei marca “um dia trágico para o Uganda e para todos aqueles que se preocupam com os direitos humanos”, avisando que Washington pode cortar com as ajudas que presta ao país. Mas os EUA não são os únicos, também vários países europeus fizeram o mesmo aviso.

Contudo este corte não parece preocupar o Presidente Yoweri Museyeni uma vez que, segundo o Expresso, ele defende que a homossexualidade no país foi suscitada por “grupos ocidentais arrogantes e inconscientes”.

Segundo o Toronto Sun, a homossexualidade é um tabu na maior parte dos países africanos e ilegal em 37 incluindo o Uganda, fazendo com que sejam poucos os que se assumem com medo de perder os seus trabalhos, acabar na prisão ou mesmo perder a vida. No passado Dezembro, o Parlamento do Uganda, aprovou a lei que altera a prevista pena de morte para prisão perpétua em caso de crime de “homossexualidade agravada”.

Segundo o Mail Online, Jacquline Kasha, uma conhecida activista lésbica no Uganda, que está incluída na dita lista do Red Pepper, afirmou: “a caça às bruxas dos média está de volta” (the media witch hunt is back). Segundo fotografias publicadas pelo Mail Online não é a primeira vez que o ataque à homossexualidade acontece nos jornais deste país. Em 2010 o jornal Rolling Stone publico algo semelhante.

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Capa do Red Pepper no dia 25 de Fevereiro 

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Capa do Rolling Stone em 2010 

 

Ao que parece acontecer nestes jornais é um claro apoio ao regime, não olhando às consequências dos seus actos. Muitas pessoas que viram os seus nomes anunciados no jornal não saem de casa com medo de pôr as suas vidas em perigo. Parem além da lei punir a homossexualidade, pode ter como consequência directa na perseguição dos cidadãos que sejam homossexuais. Desde Dezembro que muitos homossexuais têm vindo a fugir do país e desde terça já foram alguns presos, uma vez que foram directamente expostos.

Comparando ao papel do jornal, no mundo ocidental, há em vez duma protecção do cidadão, uma clara e total exposição da vida privada, que neste caso mete minorias em perigo. Depois da publicação feita pelo Rolling Stone, David Kato, um importante activista gay, foi assassinado. O que mostra que a esta primeira exposição teve graves consequências para a comunidade gay e causou terror. Mas ao que parece nada disto pesou na decisão do Red Pepper, trazendo o medo de volta.

 

Enquanto no mundo ocidental existe uma preocupação cada vez maior para a protecção das minorias como os homossexuais, dando-lhes direitos iguais, parece haver noutros países uma crescente e acesa perseguição. Países como a Rússia e a Nigéria têm promulgado leis semelhantes. O que menos se entende (e aceita) é o facto de jornais e revistas aproveitarem a facilidade que possuem para aceder a dados e informações privilegiadas, exporem e porem em perigo a vida de minorias inocentes por questões políticas.

 

 

Notícias analisadas:

http://expresso.sapo.pt/jornal-do-uganda-expoe-200-homossexuais=f857886

http://www.dailymail.co.uk/news/article-2567320/Uganda-tabloid-prints-list-homosexuals.html

http://www.torontosun.com/2014/02/25/uganda-newspaper-threatens-to-expose-homosexuals

World Press photo – O jornalista como testemunha

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 “In that moment, my instincts as a photojournalist kicked in. I knew I had to stay with the story and document it in all of its ugly truth. If Maggie couldn’t leave, neither could I.” (Lewkowicz, 2013)

A fotografia de Sara Naomi Lewkowicz foi a vencedora na categoria de Histórias Contemporâneas do World Press Photo 2014. Sara estava a desenvolver um projecto fotográfico para a Universidade de Ohio onde acompanhava a vida de Shane, um homem de 31 anos que tinha acabado de sair da prisão, quando registou momentos de violência doméstica de Shane para com a namorada Maggie, de 19 anos.

A intenção da fotojornalista era de retratar os obstáculos e as dificuldades de um ex-recluso na sua vida quotidiana, mas o ambiente familiar que marcava inicialmente as fotografias acabou por tomar outro rumo. Na fotografia, a filha de Maggie, Memphis de 2 anos, corre ao socorro da mãe que está a ser agredida pelo namorado. Sara não largou a câmara. E por isso foi alvo de muitas críticas. Por não ter agarrado a criança ou desviado Shane de Maggie. Contudo, mantendo a sua postura de “observador”, Sara pediu a outro adulto que estava presente na sala para ligar para o 911, continuando a fotografar a agressão doméstica.

Ao ter registos daquele episódio, a fotojornalista pôde assim utiliza-los como alerta à sociedade que, apesar de tão familiarizada com imagens de pós-agressão, acaba por nunca sair imparcial às imagens do acto em si.

“We typically only see victims of abuse in the hours or days after having been abused. I have been able to spend time with Maggie and her children before, during, and after the assault… She has asked me to move forward with this project and to tell her story, because she feels that the photographs could potentially help someone escape from the same type of situation she was in” (Lewkowicz, 2013)

Sensacionalizar ou sensibilizar?

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 “Not only do we want to understand what we’re seeing, but we want to feel important things about what we’re seeing. We want to feel fear, anguish, compassion, sentimentality, all kinds of things that help drive the news for us and make it important” (Zelizer, 2012)

Em Dezembro de 2012, foi publicada na capa do “New York Post” uma fotografia de um homem que estava caído na linha do metro, sob o título “Pushed on the subway track, this man is about to die”. A fotografia gerou grande polémica, mais uma vez o fotógrafo não interveio e  ficou a olhar e a registar o momento. Contudo, enquanto que a capa do jornal procurou aumentar o número de vendas e chocar as pessoas, a fotografia de Sara foi muito além disso. Distanciando-se do sensacionalismo, a fotografia premiada do World Press Photo constitui o alerta do que se passa na vida de muitas mulheres. De acordo com a jornalista e investigadora Barbie Zelizer, são estas fotografias que tendem a criar empatia e a envolverem a sociedade no seu conteúdo, a solicitarem a sua intervenção social.

“Images of death and dying turn the depicted individuals into symbols of something greater than themselves. Often powerful and memorable visuals (…) they are used to support or undermine debates over nationalism, community building, recovery from trauma, catharsis from violence” (Zelizer, 2011).

A verdade é que grande parte da sociedade está habituada a ver o “pós” da agressão doméstica, imagens de mulheres com nódoas no rosto e feridas no corpo que já não geram grande espanto, a comparar com imagens da agressão, do próprio acto em si, que constitui uma prova. Até que ponto fotografar uma mulher a passar fome em África não é pior? Ambas as imagens têm impacto social. Ambas aludem à intervenção, mas não do fotógrafo, da sociedade. Para acabar com a pobreza, com a fome, com a violência. Ambas as imagens são “cancros” da sociedade. Mas será que com a sua divulgação é possível atenua-los?

Lewkowicz, Sara Naomi (2013) “Shane and Maggie: An Intimate Look at Domestic Violence”, disponível em: http://www.alexiafoundation.org/stories/SaraNaomiLewkowicz

 Zelizer, Barbie, em “Deadly Images – A Q&A with Barbie Zelizer, author of About To Die: How News Images Move the Public”, entrevista de Jack Shafer, 6 de Janeiro de 2011, disponível em: http://www.slate.com/articles/news_and_politics/press_box/2011/01/deadly_images.html

Zelizer, Barbie, em “Book TV: Barbie Zelizer, ‘About to Die: How News Images Move the Public'”, 12 de Abril de 2012 , disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GMuzJaNfGZU