Redes Sociais e Jornalismo – Uma Relação Com Futuro?

A propósito das celebrações dos 40 anos do jornal Expresso, realizou-se no Porto, em Dezembro do ano passado, um ciclo de debates e conferências sobre o estado do jornalismo em Portugal. Segundo a notícia do jornal Público de 4 de Dezembro de 2013, que fala sobre os principais assuntos abordados no último dia das comemorações, foi dado um especial destaque às relações entre o jornalismo e as redes sociais.

Quando Azeredo Lopes, ex-presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social e professor de Direito na Universidade Católica do Porto, pergunta se “as redes sociais estão a matar o jornalismo”, traz para cima da mesa uma questão amplamente debatida na actualidade. Na verdade, com o florescimento das redes sociais e da blogosfera, a publicação de conteúdos, opinião incluída, está ao alcance de todos. Mas será legítimo dizer que é acessível a toda a gente tornar-se jornalista? No limite estaria, uma vez que, legalmente, não existe em Portugal um grau oficial que confira esse estatuto. Mas o que caracteriza um jornalista não é apenas a publicação de um conteúdo informativo. São os critérios aplicados na elaboração desse conteúdo. Existe uma série de requisitos técnicos e deontológicos por detrás de um texto (leia-se peça em qualquer dos media disponíveis) jornalístico.

Para reflectir sobre essa questão, recuemos umas décadas, até ao surgimento da televisão. Com o aparecimento deste meio de comunicação, o público da imprensa escrita terá certamente vindo a diminuir. Efectivamente, ver notícias em casa, de forma indirectamente gratuita e com menos exigências de empenho e concentração intelectual é tentador. A tecnologia evoluiu e o jornalismo sobreviveu. Cresceu exponencialmente mesmo. Muitas pessoas deixaram de comprar o jornal porque podiam aceder à informação a partir do seu televisor, mas muitas pessoas que não compravam antes o jornal, passaram a ver o telejornal, ganhando acesso à informação. O balanço é, então, positivo. E isso não excluiu que tivesse acontecido uma crise dentro do jornalismo. O debate também foi aceso na altura. Mas o que aconteceu, essencialmente, foi uma transformação de públicos à vista de uma nova realidade. Para além disso, para aqueles que continuaram a preferir a imprensa escrita, puderam continuar a usufruir dela. Mas o jornalismo deu um importante passo no caminho da democratização.

Um dos aspectos que também é importante salientar, e que nos vai trazer de volta à questão das redes sociais, é a qualidade. Efectivamente, com o surgimento da televisão, pode dizer-se que os conteúdos jornalísticos sofreram algum impacto qualitativo. Essa questão acentua-se com a ampliação de cadeias televisivas disponíveis e a necessidade de conquistar audiências. Ora, para o fazer, há que conquistar as massas e, para lhes chegar, tem que se usar uma linguagem e registo acessíveis. Também as temáticas têm que ser mais atraentes e chocantes, pelo que se começou a recorrer cada vez mais ao polémico, em detrimento do relevante.

Com as redes sociais e a possibilidade de qualquer pessoa poder publicar conteúdos, está a acontecer uma nova transformação de públicos. Mais uma vez, a informação está a chegar a pessoas a quem não chegava antes. Através do facebook, pode receber-se links de notícias partilhadas pelos amigos, levando-as ao conhecimento de pessoas que, eventualmente, nunca as saberiam. O principal problema que se coloca é, mais uma vez, o da qualidade. Com a facilidade de publicação que existe, é absolutamente fundamental saber seleccionar conteúdos jornalísticos de outros que não os são. Tem de saber-se seleccionar fontes seguras e credíveis e possuir-se uma integridade que nos permita analisar criticamente os conteúdos que lemos e, em particular, a opinião.

O surgimento de novos meios de comunicação geram sempre uma crise na “indústria” porque vêm ameaçar as entidades já estabelecidas no meio, mudando o terreno e as regras de onde o jogo era jogado. Claro que essas entidades não vêem favoravelmente essa mudança, uma vez que investiram tempo e recursos na construção do seu negócio e sabem que tal mudança o vai afectar negativamente. Contudo, a solução não deve passar pela luta, mas pela adaptação. A evolução tecnológica traz toda uma nova série de potencialidades para o florescimento e democratização do jornalismo. É preciso saber olhar para a evolução e perceber como se pode tirar proveito dela. Para além disso, existe ainda um factor de extrema importância, e que completa esta relação: a educação. Com a evolução tecnológica, haverá sempre uma transformação e adaptação de públicos. É inevitável. Mas o mais importante é garantir socialmente que esses públicos são formados para analisar, mas também publicar conteúdos informativos, cientes da responsabilidade social que representam.

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