A Internet e o engodo da informação livre

A ideia de que a informação quer ser livre/gratuita (information wants to be free) é normalmente atribuída a Stewart Brand, fundador e editor de um catálogo norte-americano de contracultura, Whole Earth Catalog, editado entre 1968 e 1972. A frase, que hoje se transformou no slogan dos ativistas tecnológicos defensores do acesso livre à informação, foi proferida na primeira conferência de hackers, realizada em 1984, que Brand ajudou a organizar.

Contudo, a frase tem sido, segundo o próprio, muitas vezes mal interpretada. Em primeiro lugar, há um equívoco quanto ao significado da palavra “free”, que em inglês pode ter pelo menos dois significados distintos: “gratuito” e “livre”. Colocando a frase no devido contexto, percebemos que a palavra “gratuito”, ou “grátis”, é a que melhor traduz a ideia que o escritor norte-americano quis transmitir. Brand disse que, por ser tão valiosa, a informação quer ser cara. A informação certa no lugar certo pode mudar as nossas vidas. Mas a informação também quer ser gratuita, porque os custos de produção e distribuição estão a diminuir consideravelmente. O que Brand queria dizer é que o desenvolvimento da tecnologia mantém a tensão viva entre o gratuito e o caro, e que essa tensão nunca estabilizará. Ele nunca disse que a informação tem de ser gratuita, como os ativistas da livre-informação tantas vezes sugerem.

A simplificação das palavras de Brand serviu para criar um slogan sedutor, que tem tanto de ingénuo como de traiçoeiro. Pese embora o facto de uma boa parte da informação que se encontra na Internet ser gratuita, sobretudo porque a proteção legal não funciona, ninguém tem acesso verdadeiramente gratuito ao ciberespaço. Os computadores, os dispositivos móveis e as mensalidades dos prestadores de serviços Web são, como sabemos, pagos a preço de ouro. E enquanto músicos, escritores, realizadores, fotógrafos, jornalistas e muitos outros trabalhadores são prejudicados pela epidemia da informação gratuita, as empresas online “que nos modelam, nos espiam e preveem as nossas ações, transformam as nossas atividades de vida nas maiores fortunas da história. Essas são fortunas concretas feitas de dinheiro”[1].

É aceitável que estas empresas enriqueçam e os criadores empobreçam, quando os conteúdos por eles criados desempenham um papel central no negócio dos motores de busca e das redes sociais? O que seria da Google e do Facebook sem música, vídeo, imagens ou notícias? Será esta uma repartição justa da riqueza criada online? Mesmo que a informação “quisesse” ser gratuita, “não podemos esperar que ela seja criada ou estimulada se reduzirmos a nada os incentivos para essas funções”[2]. A Lei de Metcalfe diz-nos que o valor de uma rede cresce exponencialmente com o número de utilizadores que agrega, mas a realidade demonstra que apenas um pequeno número de pessoas usufrui da riqueza gerada na Internet. Não será exagero dizer que os efeitos práticos da informação gratuita são a concentração da riqueza e a limitação do crescimento económico.

Podemos achar que indústrias como a música, o cinema, a literatura ou o jornalismo podem sobreviver com menos. E até podemos considerar que a sociedade pode prescindir dos trabalhadores desses setores – que a informação livre representa um valor relativo superior. Porém, num futuro próximo, a economia dependerá cada vez mais da informação. Com o avanço da tecnologia em domínios como a robótica, a inteligência artificial e a impressão 3D, grande parte da nossa economia será mediada por software, e setores como a fabricação, a energia, os transportes e a medicina serão cada vez mais automatizados e dependentes da Rede. Se esta lógica da informação livre se mantiver, “provavelmente vamos entrar num período de hiperdesemprego, com o consequente caos político e social. O resultado do caos é imprevisível, e não devemos contar com ele para projetar o nosso futuro”[3], avisa Jaron Lanier, um compositor, escritor e programador pioneiro no campo da realidade virtual.

Referências:

[1] Jaron Lanier, Who Owns the Future, p. 25.
[2] Tim Wu, The Master Switch – The Rise and Fall of Information Empires, p. 508.
[3] Jaron Lanier, Who Owns the Future, p. 32.

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