World Press photo – O jornalista como testemunha

Image

 “In that moment, my instincts as a photojournalist kicked in. I knew I had to stay with the story and document it in all of its ugly truth. If Maggie couldn’t leave, neither could I.” (Lewkowicz, 2013)

A fotografia de Sara Naomi Lewkowicz foi a vencedora na categoria de Histórias Contemporâneas do World Press Photo 2014. Sara estava a desenvolver um projecto fotográfico para a Universidade de Ohio onde acompanhava a vida de Shane, um homem de 31 anos que tinha acabado de sair da prisão, quando registou momentos de violência doméstica de Shane para com a namorada Maggie, de 19 anos.

A intenção da fotojornalista era de retratar os obstáculos e as dificuldades de um ex-recluso na sua vida quotidiana, mas o ambiente familiar que marcava inicialmente as fotografias acabou por tomar outro rumo. Na fotografia, a filha de Maggie, Memphis de 2 anos, corre ao socorro da mãe que está a ser agredida pelo namorado. Sara não largou a câmara. E por isso foi alvo de muitas críticas. Por não ter agarrado a criança ou desviado Shane de Maggie. Contudo, mantendo a sua postura de “observador”, Sara pediu a outro adulto que estava presente na sala para ligar para o 911, continuando a fotografar a agressão doméstica.

Ao ter registos daquele episódio, a fotojornalista pôde assim utiliza-los como alerta à sociedade que, apesar de tão familiarizada com imagens de pós-agressão, acaba por nunca sair imparcial às imagens do acto em si.

“We typically only see victims of abuse in the hours or days after having been abused. I have been able to spend time with Maggie and her children before, during, and after the assault… She has asked me to move forward with this project and to tell her story, because she feels that the photographs could potentially help someone escape from the same type of situation she was in” (Lewkowicz, 2013)

Sensacionalizar ou sensibilizar?

Image

 “Not only do we want to understand what we’re seeing, but we want to feel important things about what we’re seeing. We want to feel fear, anguish, compassion, sentimentality, all kinds of things that help drive the news for us and make it important” (Zelizer, 2012)

Em Dezembro de 2012, foi publicada na capa do “New York Post” uma fotografia de um homem que estava caído na linha do metro, sob o título “Pushed on the subway track, this man is about to die”. A fotografia gerou grande polémica, mais uma vez o fotógrafo não interveio e  ficou a olhar e a registar o momento. Contudo, enquanto que a capa do jornal procurou aumentar o número de vendas e chocar as pessoas, a fotografia de Sara foi muito além disso. Distanciando-se do sensacionalismo, a fotografia premiada do World Press Photo constitui o alerta do que se passa na vida de muitas mulheres. De acordo com a jornalista e investigadora Barbie Zelizer, são estas fotografias que tendem a criar empatia e a envolverem a sociedade no seu conteúdo, a solicitarem a sua intervenção social.

“Images of death and dying turn the depicted individuals into symbols of something greater than themselves. Often powerful and memorable visuals (…) they are used to support or undermine debates over nationalism, community building, recovery from trauma, catharsis from violence” (Zelizer, 2011).

A verdade é que grande parte da sociedade está habituada a ver o “pós” da agressão doméstica, imagens de mulheres com nódoas no rosto e feridas no corpo que já não geram grande espanto, a comparar com imagens da agressão, do próprio acto em si, que constitui uma prova. Até que ponto fotografar uma mulher a passar fome em África não é pior? Ambas as imagens têm impacto social. Ambas aludem à intervenção, mas não do fotógrafo, da sociedade. Para acabar com a pobreza, com a fome, com a violência. Ambas as imagens são “cancros” da sociedade. Mas será que com a sua divulgação é possível atenua-los?

Lewkowicz, Sara Naomi (2013) “Shane and Maggie: An Intimate Look at Domestic Violence”, disponível em: http://www.alexiafoundation.org/stories/SaraNaomiLewkowicz

 Zelizer, Barbie, em “Deadly Images – A Q&A with Barbie Zelizer, author of About To Die: How News Images Move the Public”, entrevista de Jack Shafer, 6 de Janeiro de 2011, disponível em: http://www.slate.com/articles/news_and_politics/press_box/2011/01/deadly_images.html

Zelizer, Barbie, em “Book TV: Barbie Zelizer, ‘About to Die: How News Images Move the Public'”, 12 de Abril de 2012 , disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GMuzJaNfGZU

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s