Mês: Março 2014

“A New American Picture” – Fotografia de rua através de um clique…no computador

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“A Internet impôs ao jornalismo mudanças na busca, no processamento e na difusão de informação.” Jorge Pedro Sousa sobre o jornalismo on-line 

Em 2009, o fotógrafo Doug Rickard percorreu as ruas do Google Street View e durante 2 anos recolheu cerca de 15,000 imagens das áreas mais pobres e negligenciadas da América, seleccionando 80 fotografias para a sua colecção “A New American Picture”.

Por não ter a possibilidade de viajar pelo país com uma mala às costas, Rickard optou pela câmara móvel e pelas ruas do Google Street view que, apesar de virtuais, constatam a realidade americana, integrando pessoas e espaços verdadeiros mas desconhecidos.

Segundo o fotógrafo, o “olhar de cima” para o acontecimento afecta a leitura das fotografias, alterando a sua compreensão emocional. O facto dos rostos das pessoas aparecerem desfocados transforma também os indivíduos em símbolos, representantes de raças e classes e não portadores de uma história pessoal emergente.

Foi através desta viagem virtual que Rickard compreendeu as condições sociais e financeiras em que grande parte da comunidade americana vive, explorando as zonas abandonadas e desfavorecidas de Atlanta, New Orleans, Jersey City, Durham, Houston e Camden, chegando a cidades mais pequenas como Lovington, Waco, Artesia, Dothan e Macon.

Através de uma longa pesquisa e de uma recolha exaustiva de imagens, Doug Rickard conseguiu chamar a atenção para o presente e fazer um estudo sobre as estatísticas demográficas e condições socioeconómicas de partes de uma América esquecida, propondo um novo método de captação do momento, rompendo com a fotografia tradicional e abrindo um leque de novas possibilidades, que vão surgindo cada vez mais rápido com a evolução da internet, um mundo online portador do mundo real.

“I wanted to represent the inverse of the American Dream, and yet the work is also very personal and subjective, colored by my choices and selection (…) The very definition of photography is expanding. Personally, I am ecstatic about it, and I see a massive frontier that is unfolding to feed and fuel my obsessions.” Doug Rickard in “The New Yorker”

A influência da informatização no jornalismo

O aparecimento das tecnologias digitais e da rede mundial de computadores têm originado modificações significativas no campo do jornalismo, esse é um facto que não se pode negar e que tem sido muito discutido nas nossas aulas. Estamos agora a viver uma época do jornalismo em que se assiste a inúmeras alterações, que têm de ser efectuadas a uma velocidade quase instantânea, para o jornalismo se conseguir adaptar.

A informatização trouxe o processo digital, de tempo real, de comunicações online, que estabelece novos parâmetros sociais. Com a internet tudo mudou, incluindo o jornalismo. Não se trata da existência de um novo suporte técnico apenas – o computador –, mas também de uma maneira diferente de produzir, difundir e receber a informação. Essa difusão pela rede mundial de computadores potencializou a interactividade, a instantaneidade e a multimédia, quebrando as fronteiras do tempo e espaço geográfico, criando um espaço público virtual.

Tudo se transformou: do papel passou-se para a tela do computador, a redacção passou por uma reconfiguração, as notícias têm de sair mais rápido e estarem a ser constantemente actualizadas e surgiram novos sistemas de comunicação electrónica que possibilitam novas formas de produção da informação. O surgimento das novas tecnologias alterou também a forma de pesquisa e produção da informação; agora, sem sair da redacção, o repórter pode apurar, pesquisar e obter informações. Além disso, o webjornalismo quebrou a periodicidade e incorporou a máxima do “tempo real”. Como se essas transformações todas não bastassem, o jornalista já não é o único responsável pela produção de notícias, deveria ser, mas agora os cidadãos partilham logo nas redes sociais algo que viram ou souberam.

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Estas novas tecnologias são capazes de proporcionar resultados e condições extraordinariamente melhores para a qualidade e potencial do trabalho jornalístico, mas é preciso encontrar a “fórmula” para o sucesso, pois neste momento está a assistir-se a uma crise no jornalismo. Os jornalistas mais velhos não acreditam que as novas tecnologias possam ajudar o jornalismo, pelo contrário, mas os novos jornalistas também ainda não têm a solução para se conseguir fazer o jornalismo sobreviver.

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Manobras Editoriais

Manobras Editoriais

Este texto do The Guardian, que pode ser lido se o leitor deste blogue clicar na foto, conta-nos a história dos nossos dias; conta a forma como a Espanha marca mais uns pontos para os jovens investidores de média. Pelos vistos, a migração de leitores que abandonaram a velha imprensa e abraçaram a causa online ajuda a explicar a crise que se instalou nos três mais importantes títulos na terra de nuestros hermanos.

De facto, tanto La Vanguardia, como El País, como El Mundo viram os seus editores mudar. Esta transformação é mais uma prova da falência dos média tradicionais, que já vem sendo notada em várias nações dos Estados Federados da Velha Europa.

Uma das razões apontadas para este efeito destrutivo/criador nos média vizinhos tem que ver com a juventude: os mais jovens criadores de oportunidades jornalísticas, que criam start-ups quase diariamente, estão prontos a fazer perguntas que a velha elite rejeita.

Outra prende-se com a questão do financiamento: os jornais tradicionais, tal como sucede em Portugal, estão nas mãos de poderosos grupos económicos. Estes contribuem para as suspeitas de leitores, apostados em ler e ouvir as opiniões de outras pessoas que (ainda) mantêm um idealismo livre de amarras empresariais.

Embora os jornais “antigos” ainda tenham uma audiência superior, isso pode estar a mudar. Os novos empreendimentos mediáticos apostam forte na publicidade, vendendo a ideia de que não são tão susceptíveis de serem corrompidos pelo poder. Por outro lado, como é habitual nesta nova vaga de rapazes interessados em publicar, também não têm as mesmas responsabilidades éticas de confirmação das histórias e das fontes – o que explica a lentidão dos média decanos em soltar um furo jornalístico.

Esperemos que nem o El País acabe, nem as start-ups se revelem herdeiras do Huffington Post. Pode ser uma esperança vã, mas também poderemos ser surpreendidos por uma Espanha que reconhece o valor dos jornais que “fizeram” a transição democrática e deram ao país o seu sangue e esforço na luta pela verdade.

Nota: De relevar que os repórteres do El País hesitaram em falar com Ashifa Kassam, jornalista do periódico inglês. Isto parece ter sido encomendado por Hallin e Mancini que, na sua obra crucial, avisaram que uma das grandes diferenças a separar os profissionais dos média do Sul da Europa aos do Norte era a liberdade que os últimos sentiam na sua rotina diária. Fica o texto. Fica o aviso. Fica a referência bibliográfica.

HALLIN, Daniel C.; MANCINI, Paolo. Comparing Media Systems, Cambridge University Press, 2004.

Much Too Much Coverage

Much Too Much Coverage

Uma das principais características de um jornalista é não se deixar vencer pela força das imagens; querer mostrar tudo, mesmo quando pode ferir susceptibilidades. Para isso, porém, existem chefes, editores e pessoas cuja responsabilidade é controlar o nervo insano que faz com que os profissionais queiram todas as imagens, todos os acontecimentos.

A questão é: qual é a barreira? Qual o limite que não deve ser ultrapassado? No tocante à fastidiosa cobertura do avião que nunca aterrou, Joanna Moorhead parece oferecer uma resposta.

De facto, a jornalista reconhece que a profissão privilegia a imagem acima de tudo, mas acha que o público não deveria ter tido acesso aos rostos de familiares que, pela primeira vez desde que tudo começou, tiveram a nefanda confirmação de que jamais voltarão a ver os seus entes queridos.

Moorhead aponto o dedo às autoridades chinesas, que não souberam controlar as objectivas que violaram uma regra fundamental da civilização: deixar os vivos sofrer a morte sem a importuna mão mediática a passar no cabelo.

O jornalismo deve primar por valores que, acima de tudo, protejam a informação e aqueles que dela necessitam. As pessoas, qualquer que seja a sua condição social, merecem pelo menos o direito à sua privacidade. Estou com a Miss Moorhead: estas imagens pertencem à imaginação, não ao domínio público.

Buzzfeed – Uma brincadeira muito séria

“The next big thing always starts out being dismissed as a “toy”

Clay Christensen in “The Innovator’s Dilemma”

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27 Jaw Dropping Works Of Street Art So Big They Will Never Fit In A Gallery

36 Painfully Adorable Pictures Of Puppies At Bathtime

11 Secrets Cats Don’t Want You To Know

O Buzzfeed começou assim: listas e imagens de gatinhos e outros animais. Uma colecção de histórias que informam e entretêm e que são altamente partilháveis.

Nem parece uma coisa a sério, pois não? Mas o imenso tráfego gerado pelas redes sociais e os 160 milhões de visitantes únicos não são uma brincadeira…

A somar a isto, está um modelo de publicidade inovador, baseado em conteúdo nativo de marca, que equilibra as contas.

Tudo pronto para crescer e para explorar novos terrenos: o jornalismo a sério.

Jonah Peretti, o fundador e CEO, decidiu o caminho e, há dois anos, iniciou a investida: contratou Ben Smith, um jornalista conceituado do site Politico, para director editorial; formou equipa (que neste momento já tem cerca de 150 elementos) e começou a fazer jornalismo sério.

Neste momento, no Buzzfeed há peças de longo formato, que rivalizam com o que de melhor se faz online, e há reportagem, através de repórteres e enviados especiais.

O formato é clássico? Não. Mas não tem de ser. Estamos a entrar na era da super-distribuição e das homepages que se estendem pelos feeds de facebook e de twitter dos utilizadores. As notícias, tal como as fotografias de gatinhos, vão ao encontro da audiência. O Buzzfeed entende este fenómeno melhor que ninguém e, portanto, constroi tudo de forma diferente.

“We have four types of content. We have news content created by our team of journalists and reporters. They really are not focused on aggregation; they are calling people, working sources, doing original stuff. We have entertainment, often characterized by our lists. And those lists are all original creations, although they often use material from, you know, AP and Reuters and Getty and image libraries and other sources. Then we have branded content, which is how we make our living, where our revenue comes from. Fifty of the top 100 brands used BuzzFeed’s platform to launch branded content. And we also have community content, which is where you can go to BuzzFeed, go to the community section, and create your own content and launch it. Four different types of content, all on top of the same technology platform that we developed.”

Jonah Peretti entrevista a Andy Serwer. Artigo “Inside the mind of Jonah Peretti” Fortune website

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Jonah Peretti vê o Buzzfeed como um empresa completa de media, à imagem de um meio generalista, como uma TV Broadcast, com lugar para o entretenimento e para a informação.

A tese, que ele descreve num memo para os colaboradores e que intitula “Is History Repeating Itself?”, é que o Buzzfeed, nesta época de disrupção, segue um percurso paralelo aos grandes títulos americanos clássicos, que desbravaram o negócio do mass media. Começaram por fazer agregação de conteúdos populares e pouco diferenciados e evoluíram para o jornalismo sério.

Foram pensamentos inspirados pelo livro “The Powers That Be” de David Halberstam, uma leitura muito recomendável.

Certo é que, com os seus seis anos de existência, o Buzzfeed está ainda no início do percurso. Descartar esta marca como sendo uma brincadeira pouco séria, sem sustentação, nem consistência jornalística, é uma atitude imprudente e perigosa. O Buzzfeed domina a super-distribuição por redes sociais, entende os novos media como ninguém e quer ser uma das marcas mais relevantes da nova ordem dos media. Com a evolução do seu avassalador crescimento para uma fase de amadurecimento, tudo se pode esperar…

Mais leitura:

Entrevista de Jonah Peretti para o RipTide, projecto do Nieman Lab

“The Innovator’s Dilemma”, Clay Christensen

“Blendle” – O iTunes do jornalismo

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“The Netherlands is now on the brink of starting another revolutionary journalistic experiment. What happens if all major publishers in a country join forces, bringing all articles written in a single country together and ensuring they are readily available in a single app, all payable from a single wallet? That’s Blendle.” Alexander Klöpping in Medium

Alexander Klöpping,co-fundador da start-up holandesa Blendle, pretende transformar a empresa, em Abril, numa plataforma género iTunes para jornais e revistas, onde cada pessoa paga pelo conteúdo que quer ler em vez de financiar uma assinatura por mês.

Deste modo, a Blendle acredita voltar a incentivar o consumidor a pagar por conteúdos online, não só pela facilidade de acesso e poder de selecção mas pela qualidade dos artigos. A empresa para além de disponibilizar histórias irá incidir sobre temas populares e relevantes e congregar artigos dos maiores jornais e revistas da Holanda.

Segundo Marten Blankesteijn, director e também co-fundador da Blendle, apesar de haver música disponível no youtube de graça, as pessoas ainda pagam pelo Spotify. Existem filmes disponíveis no Pirate Bay mas paga-se para ver no Netflix. Desse modo, o director acredita que irá sempre existir conteúdo jornalístico online gratuito mas, se os artigos forem realmente bons e diferentes, as pessoas irão pagar por eles.

A Blendle vai assim tentar atrair as pessoas a registarem-se na sua plataforma online, oferecendo a cada utilizador 2,50€ de saldo inicial para poder começar a ler artigos, com a hipótese de reembolso caso não tenha ficado satisfeito com o que leu. A questão é, será que o consumidor saberá escolher a informação que quer ler? Por vezes deparamo-nos com notícias ou reportagens que não fazíamos ideia que existiam nem de como lá chegámos. Irá a Blendle retirar esse factor surpresa, essa espontaneidade?

Contudo, ao permitir que o consumidor seleccione a sua informação e ao abranger conteúdos pertinentes e contemporâneos das melhores imprensas de comunicação holandesas, a Blendle ao tornar-se num “iTunes do jornalismo” acaba por ser uma concepção inovadora que procura o equilíbrio entre qualidade/custo e valoriza o jornalismo como práctica profissional.

“Every time we showed the beta to publishers, they realized that Blendle could make people pay for journalism who never paid for journalism before. We told them there are three groups of newspaper consumers: the group that is fan of a certain newspaper – they are happy, because they have a subscription. There is the group that wants to buy a newspaper every now and then – they’re happy too, they’ll go to a newsstand. And there is a group that just wants to read the best articles, regardless of which newspaper had published it. That group is not served right now, and we convinced publishers that they can make a lot of money from them. And we’ll help with that.” Marten Blankesteijn in World News Publishing Focus

“Adventures in Ultralight Journalism” – o iPhone como instrumento de reportagem

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“All of my formal journalism training, from graduate studies to professional work, has told me that a proper DSLR camera is essential to proper journalism work. Maybe that’s true. But I found using iPhone and Instagram photojournalism to be a more carefree and gonzo spirit of doing things, allowing me to connect more to my subjects and be more in the moment as a human being trying to understand the experience of other human beings” Mary Slosson in Adventures in Ultralight Journalism

Em Janeiro de 2014, Mary Slosson divulgou na plataforma digital Medium a sua experiência na Tanzania como novo membro da “International Reporting Project”, onde utilizou apenas um iPhone e as aplicações “Instagram” e “Afterlight” para publicação e edição de imagem respectivamente.

O projecto tinha como objectivo investigar e reportar de que maneira a instabilidade do clima afectava o desenvolvimento da agricultura, meio de sustento de uma população onde 75% dos habitantes são agricultores. Foi constatado que, devido à escassez da chuva, a população da pequena aldeia de Mlanda é obrigada a caminhar durante meia hora para conseguir água potável de uma aldeia vizinha, pois a sua bomba de água não funciona e o governo local não tem poder financeiro para a arranjar.

Durante 12 dias, Mary Slosson percorreu os terrenos empoeirados e quentes da Tanzania com a vantagem de poder fotografar, filmar e gravar áudio com apenas um pequeno objecto, o iPhone. A viagem tornou-se mais leve e de certo modo, mais produtiva. “I was satisfied with the resulting photo quality and found that most of my subjects found snapping photos with a cellphone much more natural — and less obtrusive — than using a larger and more intimidating DSLR”, afirmou a fotojornalista.

As câmaras DSLR, como a canon e a nikon, são instrumentos vitais de trabalho para realizadores e fotógrafos, contudo no que toca à “sensibilidade” no terreno, um iPhone passa muito mais despercebido e torna de certa forma o conteúdo mais real e próximo do espectador. Não existe a sensação de manipulação de imagem, as fotografias são naturais e fruto de um dispositivo que hoje em dia grande parte das pessoas tem acesso ou possui.

Isso acontece não só nos países em desenvolvimento ou desfavorecidos mas essencialmente na sociedade moderna. Ao apontarmos uma câmara a alguém, a atitude dessa pessoa já não é a mesma. Ela sente-se observada e todos os seus actos e palavras são repensados. Se andarmos com um iPhone na rua, ele é quase que invisível, de tão banal. E porque as pessoas esquecem-se de que, para além de servir como meio de comunicação, ele fotografa, filma e grava som.

Hoje em dia o jornalismo é cada vez mais pensado e desenvolvido com o iPhone e para o iPhone. Não só os jornais que evoluem do papel para o digital procuram estar disponíveis para a aplicação iOS, como a sociedade, a audiência se torna cada vez mais activa numa época em que tudo acontece e tudo é registado e divulgado ao segundo.