Julian Assange

Estarão os jornalistas a transformar-se nos justiceiros da nova era digital?

Sempre que alguém junta as palavras “Assange” e “jornalismo” na mesma frase, estremeço. A comparação, ainda que dissimulada, do jornalismo com as novas formas de ativismo político radical, que não olha a meios para atingir os fins, é preocupante. Os jornalistas, ao contrário de grupos como o WikiLeaks, não são – ou não devem ser – justiceiros; têm de obedecer a regras deontológicas que salvaguardam o respeito pela lei, pelas instituições democráticas e pelos cidadãos.

Os simpatizantes do WikiLeaks, cujo cofundador e embaixador mais destacado é o antigo hacker australiano Julian Assange, “defendem que uma maior transparência em todas as coisas levará a um mundo mais justo, mais seguro e mais livre”[1]. Dito por outras palavras, os partidários deste ativismo político acreditam que um dia deixará de haver segredos e barreiras no acesso à informação, que o mundo vai ser totalmente aberto e o planeta se vai transformar numa bola de cristal. A ideia pode ser encantadora, mas, para além de ingénua, é perigosa.

Por muito nobres que possam a ser as reivindicações, num Estado de Direito democrático a promoção do anonimato e de qualquer forma de “justiceirismo” é inaceitável. Um jornalista pode, na sua essência, ser um ativista da liberdade de expressão, mas, para que a sua autoridade moral esteja acima de qualquer suspeita, tem de respeitar as regras da democracia. Não é por acaso que, em Portugal, o Código Deontológico do Jornalista refere que “o jornalista deve utilizar meios legais para obter informações, imagens ou documentos”.

Assange é hoje visto e respeitado como jornalista, tendo sido galardoado com o Martha Gellhorn Prize for Journalism, em 2011, pela sua coragem, determinação e independência: “um verdadeiro agente das pessoas, não do poder”. Mas pergunto: que autoridade moral e legal tem Julian Assange para denunciar os atropelos à lei por parte de governos, quando é o primeiro a fazer tábua rasa da lei, ao divulgar, deliberada, reiteradamente e por grosso, informação secreta de Estados democráticos e da vida privada de cidadãos?

Para além do mais, ao contrário do poder político democrático, estas organizações ativistas não são mandatadas por ninguém. Sermos condescendentes com a atividade destes grupos seria como aceitarmos ter um grupo de vigilantes no mundo físico que, em nome da livre-informação, sabotasse, vandalizasse e assaltasse. Será este o futuro do jornalismo? Estarão os jornalistas a transformar-se nos justiceiros da nova era digital?


[1] Schmidt & Cohen, A Nova Era Digital, p. 54.
Fotografia: Constantine Report

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