Jornalistas da Crimeia – uma voz forçada a favor da anexação

O novo poder da Crimeia, que se quer entregar à Rússia, silenciou as emissões televisivas dos órgão ucranianos, substituindo-os por canais 

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russos. Os jornalistas vêem-se, agora, obrigados a lerem notícias a favor da anexação e, quanto ao referendo, que se realiza no próximo Domingo, as autoridade já fizeram saber que os órgão de comunicação social estão proibidos de fazer a cobertura noticiosa. 

O jornal Público noticiou a situação, no passado dia 12 de Março, centrando-se no testemunho de Elvira Jallal e Natasha, ambas pivots em canais de televisão da Crimeia.

Elvira Jallal, 21 anos, é pivot dos noticiários da TV Mar Negro e repórter especializada em crimes e conflitos.

“Há duas semanas, maquilhou-se, sentou-se como habitualmente no estúdio do 3º andar para ler as notícias, quando reparou que no monitor onde deveria aparecer o genérico que precede a abertura do jornal havia uma imagem estranha.” Quando olhei, vi que no ecrã estava um programa do Rossyia 24. O novo governo da Crimeia cortou a nossa emissão, sem avisar. Simplesmente bloqueou o sinal da antena”, palavras de Elvira citadas pelo Público.

Apesar de não terem antena aberta, os jornalistas continuam a trabalhar, ainda que sob a pressão das autoridades que lhes nega a cobertura dos acontecimentos relevantes da península.

“As milícias russas são muito agressivas connosco”, diz Elvira. Há dias fui fazer uma reportagem à zona de entrada na península. Fomos barrados num checkpoint, e quando viram quem éramos, fizeram-nos entrar num carro, com um homem armado, levaram-nos para um local onde nos fizeram esperar meia hora, até receberem ordens. Depois transportaram-nos para longe dali”.

A jovem jornalista considera ter praticado, até agora, um jornalismo livre, embora não totalmente, uma vez que a TV Mar Negro é propriedade de dois deputados do Pátria, partido sobre o qual não convinha fazer reportagens muito negativas, contudo, a pivot recusa-se a fazer jornalismo numa Crimeia sob o controlo de Moscovo. “O que tentamos fazer é dizer a verdade sobre o que se passa. Os canais russos mentem, manipulam, só fazem propaganda”

“Eu sou ucraniana. Não quero mudar”

Também Natasha, pivot do canal CrimTV vive um momento de indignação. Conforme se pode ler nas as declarações citadas no Público, a jornalista afirma: não concordo com nada do que leio. Mas não posso desobedecer, ou serei despedida. E eu não tenho outro emprego para onde ir. Sou obrigada a aceitar. Nenhum jornalista se demitiu”.

A pivot é obrigada a ler notícias nas quais o governo de Kiev é referido como “ fascista” e “nazi” e onde se afirma que os militares russos vieram para ajudar e que só o referendo que levará à anexação os pode salvar, que as condições económicas serão muito melhores depois da anexação. Sendo uma jornalista em quem o público confia, Natasha tem consciência da gravidade que as suas declarações, que considera mentira, podem assumir.  

“«Eu sou ucraniana. Não quero mudar. Não sei o que fazer. Não posso perder este emprego. Mas tenho vergonha. O que faria no meu lugar?» diz ela, num esforço por se justificar, perante jornalistas.”

Apesar de ambas as jornalistas defenderem que o jornalismo na Ucrânia nunca foi totalmente livre, a situação que vivem, actualmente, coloca-as perante interrogações e dúvidas. De um lado têm o dever de praticar um jornalismo ao serviço da verdade. Do outro têm a obrigação de obedecer a regras e ditaduras em virtude da vida e do emprego.

O relato destes testemunhos denota a resistência da força do poder sobre o exercício do jornalismo e sobre os jornalistas. A imparcialidade e o relato real dos factos são submersos em virtude de uma parcialidade que prima pela propaganda e a omissão de factos. Acresce ainda a submissão do jornalista que, tal como afirma Natasha, mente para salvaguardar a vida e o emprego. Aqui, em nada o propósito do jornalismo é cumprido,  pelo contrário, as televisões ucranianas  são obrigadas a assumirem-se como uma arma do conflito que se ergue não na elucidação do público, mas sim como uma voz parcial que forçadamente é contra e é dos que estão contra o povo ucraniano.

 

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