O jornalismo na era da “democracia das paixões”

Ao olharmos para a lista das 10 publicações pagas com maior circulação em 2013, facilmente constatamos que o jornalismo que se convencionou chamar “de referência” tem poucos adeptos em Portugal. A preferência do público pela imprensa cor-de-rosa e sensacionalista é notória, com oito publicações incluídas nesta lista.

Mas o que motivará esta preferência? Mar de Fontcuberta refere-se ao conceito da “democracia das paixões” para explicar a motivação que determina a atitude geral do público face ao consumo da imprensa cor-de-rosa:

Hoje em dia, as notícias que despertam mais interesse são as que contam histórias sobre vidas, e não apenas sobre situações. As razões talvez sejam: a) a progressiva rotinização do quotidiano (“emagrecimento da vida”, como já se chamou); e b) as vidas alheias podem trazer explicações ou respostas a situações ou problemas que se verificam na vida do público. Por isso, as notícias sobre o espaço privado ocupam cada vez maior extensão nos meios de comunicação, pois: 1) interessam a todos, ao darem ressonância pública a vivências pessoais em que cada qual se pode ver representado; 2) o espaço privado transforma-se num lugar fundamentalmente igualitário, onde se exprime a “democracia das paixões”, isto é, onde os sentimentos mais primários (amor, ciúme, dor…) são suscetíveis de ser partilhados por todos os seres humanos, independentemente das posições sociais.[1]

Não se pense, porém, que este fenómeno diz apenas respeito à imprensa de cariz mais popular. Esta preferência das audiências por “histórias sobre vidas” é também já patente nas publicações de referência, que oferecem conteúdos cada vez mais cor-de-rosa. Paulo Faustino confirma esta tendência:

Embora se identifique a imprensa de referência com os jornais Expresso, Público e Diário de Notícias, as diferenças entre esta e a imprensa popular têm vindo a esbater-se, com uma adaptação para conteúdos mais próximos de revistas (que atraiam mais publicidade) e uma certa tendência para a tabloidização (privilégio da polémica, personalização, peso da imagem fotográfica).[2]

Com a crise atual do setor a tornar a imprensa cada vez mais vulnerável do ponto de vista financeiro e, como consequência, mais dependente do investimento publicitário, é expectável que esta tendência se acentue.


[1] Mar de Fontcuberta, A Notícia, p. 39.
[2] Paulo Faustino, Pluralismo, Concentração e Regulação dos Media, p. 256.

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