Mês: Abril 2014

The UpShot, na década do jornalismo explicativo

O The New York Times lançou no mês de Abril um novo site designado por The Upshot. O projecto tem como objectivo aprofundar os conteúdos através da combinação de notícias e reportagens com gráfico e relatórios de dados.

A plataforma surgiu da consciência de que a maioria do público não entende o que lê. No entanto, o editor do site, David Leonhardt, de acordo com o post publicado no facebook, acredita que o jornalismo praticado no The Upshot, com uma linguagem simples e directa, “the same voice we might use when writing an email to a friends, permitirá aos leitores compreender em profundidade todos os conteúdos.

The Upshot vem, assim, juntar-se ao leque de sites que apostam no jornalismo explicativo através de gráficos e bases de dados e que têm vindo a aparecer nos últimos anos, como é o caso do FiveThirtyEight, Datablog do jornal britânico The Guardian e Vox.com do Washington Post. Todos eles surgiram com um propósito bem definido: ajudar o público a entender as notícias.

Deste modo é plausível afirmar que simplificar e combinar são cada vez mais as palavras de ordem no jornalismo. Entramos numa lógica de jornalismo explicativo que advém das possibilidades que a internet acarreta. A disseminação de dados digitais criou novas oportunidades para o jornalismo, se antigamente os relatórios de dados eram uma ferramenta utilizada habitualmente pelos jornalistas de investigação que passavam meses a realizar triagens e análises para conseguir uma história exclusiva, actualmente com a internet o acesso a dados e informações está ao alcance de todos e qualquer computador pode analisá-los

“But the world now produces so much data, and personal computers can analyze it so quickly, that data-based reporting deserves to be a big part of the daily news cycle”, David Leonhardt.

Por outro lado, é também cada vez mais usual o trabalho de equipa no jornalismo, no qual se juntam profissionais de diversas áreas, jornalistas, programadores, designers, entre outros, com o intuito de criarem novas formas de storytelling ou de usar dados e gráficos a favor de conteúdos jornalísticos acessíveis a todos os públicos, capazes de“fornecer informação às pessoas para que estas sejam livres e capazes de se autogovernar.” (http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2006/resumos/R0418-1.pdf)

Páginas consultadas:
http://www.theguardian.com/media/2014/apr/22/new-york-times-launches-data-journalism-site-the-upshot

http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2006/resumos/R0418-1.pdf

Mais majors em jornalismo

De acordo com dados do National Center for Education Statistics, entidade norte-americana, ao longo dos anos, os alunos do ensino superior, nos EUA, foram aumentando o seu interesse em majors de comunicação, jornalismo e cursos relacionados com esta área.

Os primeiros dados registados datam o ano lectivo de 1970/71 e, nesse ano, 1.2% dos alunos optaram por concluir o seu curso na área do jornalismo. Em 2011/12 esse valor cresceu para os 4.7%, dando-se uma subida de 3.5% durante este 40 anos. Isto significa que 1 em cada 20 estudantes fez obteve um major em comunicação ou jornalismo.

Estes dados mostram que os estudantes norte-americanos não têm medo de se especializar numa área cujos empregos se encontram por várias vezes nas listas dos “piores”. Segundo o “Careercast”, o jornalista de meios de comunicação impressos tem o pior emprego de 2013. Em 2014, esta profissão sobre para a segunda posição da lista das piores profissões, sendo apenas ultrapassada pelo lenhador.

Facebook, uma agência de notícias credível?!

Muitos já prevêem o fim da rede social que conquistou “1280 milhões de utilizadores”, mas as notícias divulgadas no passado dia 24 de Abril de 2014 em diversos órgãos de comunicação internacionais revelam uma nova fase para o Facebook. Aquela que surgiu como uma plataforma social de entretenimento, que fez sucesso com farm ville e que implementou a cultura dos “likes”, hoje parece andar de mãos dadas com o jornalismo e, agora, surge como uma agência de notícias.

A plataforma de Mark Zuckerberg anunciou o lançamento de NewsWire, uma página direcionada para jornalistas que lhes permitirá encontrar, criar e partilhar conteúdos “interessantes e credíveis”, segundo Andy Mitchell, diretor de notícias e parcerias globais de media no Facebook .

A nova página está a ser desenvolvida em parceria com o Storyful, cuja equipa de jornalistas é responsável pela selecção de notícias/assuntos com o maior números de partilhas e “likes”, bem como pela verificação dos conteúdos. Os utilizadores de NewsWire terão ao seu dispor uma lista de notícias previamente analisadas sobre desporto, entretenimento, política e tecnologia.
“FB Newswire aggregates newsworthy content shared publicly on Facebook by individuals and organisations across the world for journalists to use in their reporting.”

O jornalismo-cidadão será também tido em conta, no entanto, com a nova página todos os posts serão analisados e avaliados pelos jornalistas.”This will include original photos, videos and status updates posted by people on the front lines of major events like protests, elections and sporting events.”

Estaremos perante uma nova agência de notícias acessível a todos? Ou perante uma rede social que quer combater a manipulação de factos?

Apesar de ser direccionada para jornalistas, a página NewsWire poderá ser consultada por todo o público, bastando para isso fazer like em www.facebook.com/FBNewswire.

De acordo com Andy Mitchell, o facebook está confiante de que o NewsWire irá ajudar os jornalistas a utilizar e filtrar os conteúdos divulgados na rede social e a construir trabalhos credíveis.

Noticias Consultadas:economictimes.indiatimes.com

“O que ficou do que foi” – A emergência da arte no jornalismo

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“O Martim Moniz é a grande ferida aberta no tecido da cidade histórica. Resultado das demolições, iniciadas nos finais da década de 40 do século XX, de parte significativa da velha Mouraria, é um território que continua hoje por cicatrizar. Quase um monumento absurdo que faz reflectir sobre as consequências nefastas de opções urbanísticas que desrespeitam a memória dos lugares e das suas gentes.”  António Miranda, coordenador-geral do Museu da Cidade, folha de sala da exposição

Entre 8 de Março e 20 de Abril esteve patente a exposição “O que ficou do que foi – O álbum Martim Moniz” de Carla Cabanas, no Museu da Cidade em Lisboa. Nesta instalação, a artista retoma questões já desenvolvidas em trabalhos anteriores, referentes à identidade, espaço e memória. É através da pesquisa e apropriação de imagens de demolições que ocorreram na década de 50, do núcleo fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa, que Carla Cabanas revela a evolução urbana de uma cidade, neste caso, do Martim Moniz.

Não só recortou as fotografias para criar um jogo entre ausência/presença, como gravou depoimentos dos moradores mais antigos, que restauram a história do lugar com as suas recordações pessoais e vivências. Para além das imagens e do som, a artista recolheu também uma série de desenhos de mapas e plantas da cidade como era antigamente, aquilo que ficou na memória das pessoas.

Ao trabalhar sobre um espaço real e construir uma obra com imagens de arquivo e testemunhos de pessoas, Carla Cabanas quebra com a dualidade entre arte e jornalismo, no sentido em que, a instalação se torna numa peça jornalística. Informa uma audiência, um público, sobre um conteúdo social e cultural – os antigos edifícios do Martim Moniz e aquilo que ficou deles, no espaço e nas pessoas.

Cada vez mais as fronteiras do jornalismo são ultrapassadas. Ele já não existe apenas na televisão ou em jornais, mas em blogs, exposições, no cinema e na publicidade. As empresas utilizam algumas técnicas jornalísticas não só para vender um produto mas para inspirar e atrair os consumidores, e passar uma imagem de confiança, onde a ficção é possível. No cinema, o documentário é um género já muito trabalhado e continuamente explorado. Na arte, são vários os artistas que utilizam som, vídeo, fotografia para trabalharem sobre conteúdos do dia-a-dia, sobre histórias desconhecidas, sobre temas relevantes da sociedade.

Segundo Alfredo Cramerotti, curador e escritor italiano, artistas, jornalistas, escritores e músicos são um conjunto de “media workers”, com semelhante influência na opinião pública. A única questão que pode realmente separar as profissões é a interpretação, um jornalista por norma deve ser imparcial, contudo, são as histórias bem trabalhadas e que transmitem uma perspectiva pessoal que diferenciam as reportagens entre si.

Talvez, seria necessário que o jornalismo se inspirasse na arte, de modo a tornar conteúdos fastidiosos em histórias apelativas. Através de imagens, texto, sons, trabalhados segundo um fotógrafo, um escritor ou um músico. A arte possibilita a criação de outros mundos, mas também a descoberta do mundo real, inerente a um olhar humano, sensível e particular. Olhar esse que dá vida à obra e significado às pessoas, espaços e conteúdos que nela existem.

“By examining the intersection of art and journalism, Cramerotti retraces the very foundations of representation, reminding us that all productions, not just those defined as art, are aesthetic works that are partial and mediated. While the demise of objectivity is nothing new, the challenging part of Cramerotti’s text is his willingness to go beyond theory to boldly assert not only that art has become more like journalism, but that journalism should become more like art.”  Sharon Mizota

 

Poiares Maduro quer internacionalizar a comunicação social

Segundo uma notícia publicada no Diário de Notícias, do dia 2 de Abril, o ministro-adjunto e responsável pela comunicação do Governo, Miguel Poiares Maduro, quer a internacionalização de todos os órgãos de comunicação social portugueses. Poiares Maduro

Maduro defende que a língua portuguesa é um ativo e um potencial económico para o nosso país, afirmando que “na área do audiovisual temos um potencial de exportação muito grande”. A primeira coisa que me veio à cabeça quando li esta citação foi: “Ai queres?”. A segunda foi perceber que o ministro-adjunto responsável pela comunicação do Governo está a falar de um assunto que nada abrange as suas competências e por que razão está então ele a falar do que quer para Comunicação Social portuguesa.

Já para não falar que aborda as questões económicas e por aí é outra questão. Porque toda gente sabe que o grande problema do jornalismo é toda gente querer alguma coisa dele, ou seja, querer de uma maneira ou de outra, beneficiar através dele. Porque é certo e sabido que uma notícia positiva sobre uma empresa vai automaticamente valoriza-la e uma notícia negativa desvaloriza-la.

 

Maduro mistura ainda no mesmo bolo, políticos e jornalistas: “Os jornalistas são os editores da nossa democracia” e “todos os que intervêm no espaço público, como políticos e jornalistas, têm a responsabilidade muito grande de construir um espaço onde todas as ideias possam ser ouvidas, com tranquilidade e serenidade, e esgrimidos todos os argumentos e confrontadas as nossas próprias ideias”. Poiares Maduro salientou, ainda, os benefícios de o jornalismo “debater” os temas internos e informar sobre o que se passa internamente no país, mas “atendendo à necessidade de contextualizar a informação à luz do que se passa no mundo”.

Embora o intuito seja dar uma notícia positiva, onde se exalta o bom jornalismo que em Portugal se faz – daí o intuito de o exportar – eu não consigo ver nada de bom neste discurso! Porque primeiro trata da comunicação social portuguesa e, em especial o jornalismo, como um mero negócio que têm como tarefa divulgar notícias assim como talhante corta a carne. Tornando, assim, o jornalista um mero trabalhador cuja autonomia é nula.

A meu ver, este discurso, além de ofensivo para a própria classe, vem ilustrar a maneira como os políticos vêm o jornalismo em Portugal: um peão que utilizam para passar informações cá para fora.

 

 

Noticia na Integral:

– Diário de Notícias: Ministro quer internacionalização da comunicação social 

Meta Cortada

Meta Cortada

O site do jornal The Guardian conseguiu um feito histórico: passar os 100 milhões de visitas por mês. Isto significa que é o primeiro jornal inglês de qualidade a passar esta marca, pois somente o Daily Mail havia conquistado essa glória democrática (Agosto 2012).

Neste link – que está acessível a quem clicar na fotografia – podem consultar quais as 100 peças mais lidas, bem como as secções mais populares e outras curiosidades. No ranking dos mais lidos há um pouco de tudo: pode ver-se uma notícia sobre o caso Snowden, uma reportagem sobre a vida amorosa de cidadãos nipónicos, ou até uma lista dos melhores jogadores de futebol.

Para além desta excelente iniciativa – que nos permite dissecar o jornal mais famoso da Grã-Bretanha – também podemos ler um pequeno texto que explica a razão do sucesso. Ali, percebemos que o principal motivo desta glória prende-se com a pletora variada de artigos apresentados; com o facto de podermos ter um highlight político, económico, ou relativo à confecção de bolos; com a série de comentários e comentadores que, mesmo exprimindo visões opostas, alimentam o debate e a saudável contradição de conteúdos destinados a apelar a um público fiel mas politicamente heterogéneo.

Embora o The Guardian continue a posicionar-se como um órgão afecto a uma ideia de esquerda inglesa, o facto de ter uma audiência importante na América e Austrália também ajuda a esta capacidade de reinvenção, fidelização e criação de diversidade temática.

Ao não terem optado por criar um jornal hermético, apostado num estilo demasiado político e por isso limitativo, os editores do The Guardian ganham a aposta. Desta forma, provam que ainda é possível aliar qualidade e popularidade numa era de dispersão do utilizador.

Vitória Jornalística

Vitória Jornalística

O poder de agência dos média, há tanto tempo adormecidos com informações pífias e desnecessárias, ganhou uma batalha importante contra o cinismo dos tempos. Hoje temos conhecimento de que tanto o Washington Post como o The Guardian receberam o prémio Pulitzer para serviço público.

Todos podemos ter opiniões diversas sobre de que forma as revelações mudaram a percepção que temos dos vários governos envolvidos com actividades pouco recomendáveis. Porém, temos de perceber que estas notícias, disseminadas pelos média em todo o mundo, são a prova de que o jornalismo ainda tem um papel importante a cumprir.

Quer seja ou não agradável, a verdade criou uma série de reformas cruciais. A principal terá sido a do governo Obama, que rapidamente procurou perceber a verdadeira dimensão das imensas agências secretas que proliferam incontrolavelmente: “On the back of the disclosures, President Obama ordered a White House review into data surveillance, a number of congressional reform bills have been introduced, and protections have begun to be put in place to safeguard privacy for foreign leaders and to increase scrutiny over the NSA’s mass data collection.”

Edward Snowden, figura principal desta nova era de full disclosure, deve sentir-se feliz. Embora tenha perdido a chance de se tornar um célebre desconhecido, Snowden ficará para sempre recordado como uma personagem mítica – uma espécie de Garganta Funda, tão importante no caso Watergate como o ex-funcionário da NSA é no nosso tempo.

A democracia, que depende da capacidade de jornalistas conseguirem espelhar a verdade do mundo moderno, ganha novo fôlego. Poderemos dizer que houve consequências nefastas, mas este prémio ilumina o caminho para jovens jornalistas. Esses, tentando fazer do seu trabalho um exemplo a seguir, devem sempre ter em conta o dever de informar imparcialmente os seus leitores.

É devido a láureas como esta que podemos ter esperança numa contínua necessidade pública do jornalismo. Os jornais podem falir, mudar e adaptar-se mas, crise ou não, as palavras escritas pelos profissionais terão sempre um impacto na vida daqueles que deles dependem.