“O que ficou do que foi” – A emergência da arte no jornalismo

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“O Martim Moniz é a grande ferida aberta no tecido da cidade histórica. Resultado das demolições, iniciadas nos finais da década de 40 do século XX, de parte significativa da velha Mouraria, é um território que continua hoje por cicatrizar. Quase um monumento absurdo que faz reflectir sobre as consequências nefastas de opções urbanísticas que desrespeitam a memória dos lugares e das suas gentes.”  António Miranda, coordenador-geral do Museu da Cidade, folha de sala da exposição

Entre 8 de Março e 20 de Abril esteve patente a exposição “O que ficou do que foi – O álbum Martim Moniz” de Carla Cabanas, no Museu da Cidade em Lisboa. Nesta instalação, a artista retoma questões já desenvolvidas em trabalhos anteriores, referentes à identidade, espaço e memória. É através da pesquisa e apropriação de imagens de demolições que ocorreram na década de 50, do núcleo fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa, que Carla Cabanas revela a evolução urbana de uma cidade, neste caso, do Martim Moniz.

Não só recortou as fotografias para criar um jogo entre ausência/presença, como gravou depoimentos dos moradores mais antigos, que restauram a história do lugar com as suas recordações pessoais e vivências. Para além das imagens e do som, a artista recolheu também uma série de desenhos de mapas e plantas da cidade como era antigamente, aquilo que ficou na memória das pessoas.

Ao trabalhar sobre um espaço real e construir uma obra com imagens de arquivo e testemunhos de pessoas, Carla Cabanas quebra com a dualidade entre arte e jornalismo, no sentido em que, a instalação se torna numa peça jornalística. Informa uma audiência, um público, sobre um conteúdo social e cultural – os antigos edifícios do Martim Moniz e aquilo que ficou deles, no espaço e nas pessoas.

Cada vez mais as fronteiras do jornalismo são ultrapassadas. Ele já não existe apenas na televisão ou em jornais, mas em blogs, exposições, no cinema e na publicidade. As empresas utilizam algumas técnicas jornalísticas não só para vender um produto mas para inspirar e atrair os consumidores, e passar uma imagem de confiança, onde a ficção é possível. No cinema, o documentário é um género já muito trabalhado e continuamente explorado. Na arte, são vários os artistas que utilizam som, vídeo, fotografia para trabalharem sobre conteúdos do dia-a-dia, sobre histórias desconhecidas, sobre temas relevantes da sociedade.

Segundo Alfredo Cramerotti, curador e escritor italiano, artistas, jornalistas, escritores e músicos são um conjunto de “media workers”, com semelhante influência na opinião pública. A única questão que pode realmente separar as profissões é a interpretação, um jornalista por norma deve ser imparcial, contudo, são as histórias bem trabalhadas e que transmitem uma perspectiva pessoal que diferenciam as reportagens entre si.

Talvez, seria necessário que o jornalismo se inspirasse na arte, de modo a tornar conteúdos fastidiosos em histórias apelativas. Através de imagens, texto, sons, trabalhados segundo um fotógrafo, um escritor ou um músico. A arte possibilita a criação de outros mundos, mas também a descoberta do mundo real, inerente a um olhar humano, sensível e particular. Olhar esse que dá vida à obra e significado às pessoas, espaços e conteúdos que nela existem.

“By examining the intersection of art and journalism, Cramerotti retraces the very foundations of representation, reminding us that all productions, not just those defined as art, are aesthetic works that are partial and mediated. While the demise of objectivity is nothing new, the challenging part of Cramerotti’s text is his willingness to go beyond theory to boldly assert not only that art has become more like journalism, but that journalism should become more like art.”  Sharon Mizota

 

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