Jornalismo dos “megadados” exige novos compromissos éticos

O programa de vigilância eletrónica PRISM, revelado por Edward Snowden, mostrou ao grande público a natureza do mercado de data mining – o processo de explorar grandes quantidades de dados à procura de padrões consistentes. Os dados são recolhidos a partir de redes sociais, motores de busca e aplicações para smartphones, e depois são agregados e analisados com o propósito de serem utilizados para publicidade direcionada. Convencionou-se chamar a estes dados BIG DATA (“megadados”).

Cada vez mais, investigadores em ciências sociais e jornalistas usam os “megadados”, tanto como objecto de reportagem como ferramenta de recolha de informação. Esta nova realidade de recolha e análise de grandes quantidades de dados requer um repensar de como os princípios éticos são cumpridos.

Com as alterações tecnológicas e o aumento dos custos, é fácil que jornalistas e investigadores subvalorizem as questões éticas relacionadas com os “megadados”. Podem sentir, compreensivelmente, que garantir a autorização de cada pessoa que tenha contribuído para o conjunto de dados é impraticável por razões de custo. Então, como pode o princípio ético da autonomia ser garantido? O custo de obtenção da autorização não deve desvirtuar o princípio.

Por outro lado, também não é possível fazer um compromisso prévio absolutamente inflexível – exigir o consentimento informado tradicional de milhões de utilizadores do Facebook para um estudo não é realista. O que é necessário é uma estrutura filosófica que combine a flexibilidade para inovar com uma obrigação ética. Para isso, o dever subjacente ao princípio deve permanecer intacto, de forma a que a inovação possa focar-se em novas formas de satisfazê-lo.

Segundo Fairfield e Shtein, o intuicionismo de William David Ross é a corrente ética que melhor combina estabilidade e flexibilidade. Por um lado, a abordagem baseada no dever evita a erosão dos princípios face ao aumento dos custos; por outro, a característica maleável da sua doutrina permite uma adaptação dos princípios às rápidas alterações tecnológicas.

O rápido fluxo tecnológico torna mais necessário do que nunca que investigadores e jornalistas, que utilizam ferramentas de recolha e análise de dados, tenham compromissos éticos flexíveis mas firmes. Caso contrário, as obrigações éticas básicas dissolver-se-ão por entre os dados.

Referências:

Fairfield & Shtein, Big Data, Big Problems: Emerging Issues in the Ethics of Data Science and Journalism.
Wikipedia, Ethical intuitionism.
Wikipedia, W.D. Ross.

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