Mês: Junho 2014

Despedimento em força no grupo Controlinveste

O grupo Controlinveste anunciou dia 11 de junho o despedimento de 140 trabalhadores e a rescisão do contrato de outros 20. Contra a medida, foi preparada uma concentração à frente do edifício do Diário de Notícias de Lisboa, no dia 12 de junho, às 13h, onde participaram vários profissionais da área – lesados e apoiantes da sua causa. Uma das pessoas que esteve presente na concentração foi Fernando Valdez, da direção do Sindicato dos Jornalistas. À RTP, disse que com estes despedimento, o grupo de comunicação ia ter “uma perda de qualidade de informação, uma perda de leitores, mais crise, a mais despedimentos”.

A justificação dada pela Controlinveste para esta medida foi a quebra de receitas e a necessidade reduzir os custos para que a empresa se torne sustentável.

Para além do Diário de Notícias, a Controlinveste também possui o Jornal de Notícias, a TSF, Dinheiro Vivo, O Jogo e outras publicações.

Não se fazia prever este anuncio que afetou, principalmente, os trabalhadores do Diário de Notícias de Lisboa e Porto. 

 

Links consultados:

O Lugar da Opinião No Jornalismo

Imagem

Uma notícia da BBC News despertou a minha atenção para uma questão que frequentemente se debate no meu pensamento: Que lugar tem a opinião no jornalismo? Se por um lado é importante e pertinente veicular opiniões ou posições relevantes de partes integrantes de uma história, onde, exactamente, é que encaixa o papel do jornalista enquanto emissor e veiculador de opinião? Deve o jornalista comprometer-se com uma parcialidade assumida, explícita e vincada?

Sempre gostei de ler uma jornalista. As entrevistas e reportagens que fazia apresentavam sempre uma escrita sublime e um intelecto astuto e refinado. Até que um dia li uma entrevista a um político por ela conduzida, em que estava implícita uma ideologia política que, para além de flagrante, era quase insultuosa para a memória colectiva nacional.

Uma de duas coisas estava ali a acontecer: ou o político havia manipulado de forma exímia a jornalista para que ela desse interpretasse aquela visão programada dos acontecimentos, ou ela, conscientemente, havia querido implicar aquela mensagem com a sua peça. Qualquer dos casos era mau.

Mais tarde, num artigo de opinião da mesma jornalista, a dúvida deixa de o ser: manifestava-se abertamente a favor daquele político e defendia toda e qualquer acusação de que fosse alvo. Pior, comprometia-se com a sua inocência, invocando indícios sem qualquer sustentação real de prova.

O resultado foi simples: nunca mais voltei a ter vontade de ler qualquer peça escrita por esta jornalista. Sentia que também eu tinha sido enganado. Não era a sua opinião que me chocava. Era o facto de ela se comprometer com a palavra de alguém. Algo que um jornalista, a meu ver, nunca deveria fazer. 

Olhando a situação de fora, o que aconteceu aqui foi a descredibilização de um profissional da informação, por emissão de partidarismo ao assumir uma palavra e causa que, como jornalista, se deveria ter resguardado de fazer publicamente. Cabe aos jornalistas a emissão de opinião em espaços a essa prática destinados. Mas questiono-me sempre sobre o perigo inerente a essa tomada de partido. Há valores universais, como a dignidade e a defesa dos direitos humanos, que qualquer jornalista não se deve coibir de assumir e defender. Mas há outros que envenenam a credibilidade que o jornalista deve ter perante o público.

Despedimentos na BBC Rádio

Imagem

Uma notícia no The Guardian de ontem dá conta do despedimento de “mais 65 funcionários” da BBC Rádio, da cadeia rádio-televisiva britânica.

Os despedimentos, justifica a BBC, fazem parte de um plano de re-organização da cadeia de rádio, que prevê uma redução de pessoal em 200 elementos, entre 2012 e 2017.

A par desta medida, foi anunciada também a re-estruturação da cadeia em torno de dois hubs, um de música Pop e outro de música clássica e discursos.

Helen Boaden, directora da BBC Rádio, defendeu que a redacção deve ser “tão pequena quanto o possível, para poder ir ao encontro das metas de poupança definidas e conferir-lhes agilidade na adaptação ao digital.”

Este tipo de notícias torna-se cada vez mais comum, num momento em que os recursos escasseiam e a concorrência, organizações nativas do digital, cresce a velocidade galopante, sem as prisões e os compromissos das instituições tradicionais. 

Esta é uma das consequências mais polémicas na transição do analógico para o digital, um problema social que surge sempre a par da inovação.

ProPublica – Ou a Ode ao Jornalismo de Investigação

A ProPublica fui fundada em 2007 por Herbert e Marion Sandler, antigos directores da financeira norte-americana Golden West Financial Corporation, que contrataram Paul Steiger, o anterior editor do Wall Street Journal, para criar e gerir o projecto. Trata-se de uma organização de jornalismo de investigação auto proclamada de interesse público. 

Exclusivamente online, a Propublica não está dependente de receitas de publicidade, ou receitas de preço de capa. Trata-se de um projecto editorial que não só personifica um modelo alternativo aos existentes, e que traz consigo três valores fundamentais  do jornalismo: o rigor, a investigação cuidada e o serviço público.

O projecto é financiado através de fundos e doações privadas e institucionais, sendo a Sandler Foundation a principal fonte de financiamento.

A qualidade dos repórteres que emprega, bem como o tempo e recursos que dedica a cada peça já lhe valeu um prémio Pulitzer em 2010, tendo sido a primeira organização 100 porcento digital a receber o galardão. 

Acima de tudo, a ProPublica é o actual marco do jornalismo de investigação, que tem caído em desuso devido às limitações financeiras e de recursos das redacções em geral.

O Leak que pode revolucionar a indústria dos Média

Se até agora o The New York Times era olhado como o último marco de resistência do jornalismo tradicional impresso, que resistia às investidas fatais de um mundo digital em constante transformação isso passa agora a ser coisa do passado. Foi divulgado um relatório encomendado pela empresa do diário norte-americano para tirar conclusões sobre a estratégia a desenvolver para preparar uma verdadeira transição da redacção para o digital.

Através deste documento, que foi divulgado publicamente por um concorrente citado no mesmo, o The New York Times não está na vanguarda do jornalismo digital. Pelo contrário, está a ficar muito atrás dos seus concorrentes, organizações mais recentes viradas para o digital, e não está a tirar partido pleno do enorme potencial que tem à disposição.

Este relatório vem pôr a descoberto algumas das principais falhas de organização da instituição centenária que tem marcado a agenda noticiosa mundial. Ao mesmo tempo que expõe as suas falhas, sugere alternativas para implementar e desenvolver melhores práticas, num sistema de maior colaboração entre a redacção e o departamento comercial, num melhor aproveitamento das redes sociais, do arquivo de conteúdos que dispõe e de uma transformação na redacção, nas competências e dinâmicas da mesma.

Este é, assim, um importante documento para servir de orientação(e talvez de exemplo) a muitas outras redacções do mundo inteiro, permitindo-lhes preparar uma transição mais ponderada (e séria) para o digital.

Notícia falsa corre Imprensa Nacional

Foi notícia na imprensa e jornais das principais televisões portuguesas como SIC e avançava, em resumo, com o titulo “Diogo Morgado na Guerra dos Tronos”

No corpo de diversas notícias foi possível ler-se que o actor português iria entrar na série no papel de Doran Martell. Uma nova personagem da 5ª temporada que vai enriquecer as fileiras da família Martell do Dorne.
A informação surgiu num site (shrturl.co) com um o visual do BREATHECast,dedicado à música cristã e rapidamente invadiu as páginas dos media portugueses. Uma rápida pesquisa pelo Google revelam-nos os jornais que dedicaram espaço noticioso ao assunto, que mais tarde se veio a comprovar ser falso. O Diário de Notícias optou mesmo por fazer uma chamada de capa com a notícia, no dia 7 de Junho.

O jornal Sol publicou um artigo onde explica o mal entendido:“A resposta para o mistério está no site http://shrturl.co/, que funciona como um verdadeiro gerador de notícias falsas.
Acedendo a esta página, qualquer internauta com sentido de humor e vontade de espalhar boatos consegue criar uma notícia completamente falsa com o aspecto de um dos vários sites noticiosos, dando realismo ao link que partilha.
Depois de criar a notícia falsa, basta partilhar o link nas redes sociais e esperar que o efeito viral faça o resto.Graças ao aspecto realista dos links, é fácil fazer passar um boato por uma informação confirmada.”

Demoremo-nos na última frase do excerto supracitado: Graças ao aspecto realista dos links, é fácil fazer passar um boato por uma informação confirmada. Ressalta desde logo uma questão: não sera dever de cada uma das redacções confirmar a informação, ligando,, neste caso para o Diogo Morgado? Ou agora os jornalistas optam por divulgar aquilo que lhes parece, devido ao especto realista estar confirmado?

De notar que a notícia que gerou todo o enredo não foi avançada por nenhuma fonte considera fidedigna e não existem citações do actor que, aliás, não se pronunciou sobre o assunto.Nem existem referências nas notícias divulgadas sobre tentativas de contacto com o Diogo Morgado.

Era de esperar que órgãos como o Diário de Notícias e estações como a SIC apresentassem um maior rigor jornalístico na divulgação dos factos. Insurge-se assim a necessidade de relembrar alguns artigos do código de ética dos jornalistas.

Estatuto do Jornalista
(Lei n.º 1/99 de 13 de Janeiro)

Artigo 1.º
são considerados jornalistas aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem funções de pesquisa, recolha, selecção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação informativa pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por outra forma de difusão electrónica.

Artigo 14.º
Deveres

a) Exercer a actividade com respeito pela ética profissional, informando com rigor e isenção;

h) Não falsificar ou encenar situações com intuitos de abusar da boa fé do público;

Who’s behind that tweet?

O Nieman Journalism Lab publicou um artigo interessante, intitulado Who’s behind that tweet? Here’s how 7 news orgs manage their Twitter and Facebook accounts, que traz à luz como é que grandes organizações como o caso de AP, CNN, NBC News, The New York Times, USA Today, and The Wall Street Journal gerem as suas redes sociais. Será que os tweets que invadem os nossos feeds têm um dedo humano ou simplesmente são fruto de um robot?

No caso da Agência Associated Press, Eric Carvin, editor de social media defende a criação de tweets por acção humana. O director explicou que os 140 caracteres disponíveis dão mais espaço do que um título num site noticioso para criar algo de atraente e convincente e acrecenta : Also, if you look at Twitter in particular, the Twitter Card design — where a tweet opens up to reveal more information about the link — will show the same headline twice if you use it as the text of your tweet.

Uma posição que é, similarmente, defendia por, Ryan Osborn, vice-presidente de inovação e integração estratégica da NBCUniversal News Group, que acredita que os post gerados manualmente conseguem um maior envolvimento por parte dos leitores.“We do experiment with auto-generated feeds on smaller vertical accounts, but our data shows that users are more likely to engage with a person than a bot. A person also creates an added layer of editorial care when a story moves from the web to being promoted on social media.”

No caso do New York Times existe uma conjugação entre os tweets gerados automaticamente e os que são criados por redactores. No segundo caso encontra-se as histórias que o jornal acredita que necessitam de ser divulgadas com algum sentimento, o que só é possível através do pensamento humano, tal como defende Daniel Victor, editor de social media . Ou quando os conteúdos interessantes como fotos ou estatísticas que merecem tweets destacados do corpo da notícia.

O editor reconhece que os tweets gerados manualmente, por regra, merecem uma maior atenção por parte dos seguidores. “By most measures — including clicks, retweets, favorites, and responses — handwritten tweets outperform autotweets”, explica Daniel Victor.
Contudo, os tweets automáticos também assumem vantagens nomeadamente ao nível da velocidade, confiança e redução de tempo de trabalho dos jornalistas.
“We aim to have a balance of the two that gives us the benefits of both; it allows us to be both timely and engaging, while still being able to spend time on additional newsroom priorities”, conclui o editor do New York Time.

“Engagement” é o principal objectivo do The Wall Street Journal que dá primazia aos posts criados pela acção humana. A conta @ WSJ é vista como uma “página” do The Wall Street Journals que visa oferecer aos seguidores as notícias mais recentes, bem como uma mistura cuidadosa de análise em profundidade, as características, e, sobretudo, a interacção com o público direto.

“We value the intimacy and immediacy that our @WSJ Twitter account offers to our followers and we know from our data and from Twitter’s own analytics that tweets that are written manually, rather than being automated lead to greater engagement, which is ultimately our goal”, revelou Allison Lichter, editor de social media

Segundo a exposição feita no Nieman Journalism Lab a acção humana na gestão das redes socias continua a configurar no plano de preferências das organizações de media, numa época em que a afirmação do jornalismo robot está em debate.

Toda a informação disponível em http://www.niemanlab.org/2014/05/whos-behind-that-tweet-heres-how-7-news-orgs-manage-their-twitter-and-facebook-accounts/