Por um jornalismo online português mais acessível

O conceito de acessibilidade Web está relacionado com a capacidade de navegar na Internet e de aceder à informação independentemente das limitações físicas dos internautas. Garantir essa acessibilidade significa que as pessoas com necessidades especiais podem fazer um uso pleno da Internet, isto é, “conseguem percecionar, entender, navegar e interagir com a Web”.

A Internet, como nenhum outro meio de comunicação, trouxe oportunidades extraordinárias para pessoas com necessidades especiais, sobretudo no que diz respeito à interação com os outros e ao acesso à informação. Num mundo em que a Internet desempenha um papel cada vez mais central nas nossas vidas, da economia à educação e da informação à cultura, nunca como hoje foi tão fácil e barato garantir a participação e integração destas pessoas nas dinâmicas sociais, permitindo ao mesmo tempo que elas possam gerir com maior autonomia o rumo da própria vida.

Apesar das suas enormes potencialidades, a Internet apresenta ainda uma série de barreiras que dificultam, e em muitos casos até inviabilizam, uma navegação plenamente acessível, sobretudo porque os criadores de conteúdos Web não estão suficientemente sensibilizados para as questões da acessibilidade. No caso dos jornais online portugueses, o paupérrimo desempenho em matéria de acessibilidade é particularmente preocupante.

Em primeiro lugar, porque seria de esperar que os jornais, enquanto meios de informação especialmente atentos aos atropelos de direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, contribuíssem para que todos pudessem exercer o seu direito fundamental de ser informados sem discriminações, tal como está consagrado na Constituição Portuguesa. Mas, pelo contrário, os jornais são os primeiros a fazer tábua rasa da lei, discriminando cidadãos com limitações físicas, ao introduzirem barreiras desnecessárias que dificultam o acesso ao seu conteúdo Web.

Em segundo lugar, porque numa época em que a imprensa escrita vive a pior crise de sempre do setor, não se compreende que descuide a hipótese de chegar a um maior número de público. Afinal, se os jornais podem comunicar com mais pessoas, por que razão hão de comunicar com menos? Há, pois, uma oportunidade de negócio que a imprensa online está a negligenciar. Só em Portugal, segundo os Censos de 2011, há mais de um milhão de pessoas com dificuldades visuais e auditivas.

Por fim, porque discriminar é moral e eticamente errado, ou, como disse a diretora da WebAIM, Cyndi Rowland, porque preocuparmo-nos com a acessibilidade é fazermos o que é certo: “Na nossa sociedade, nós queremos que todas as pessoas possam participar e não queremos tratar os outros de modo desigual”. Um argumento moral e ético que os jornais não deviam desvalorizar, sobretudo numa época em que a responsabilidade social das empresas assume uma especial importância.

Nunca como hoje foi tão fácil e barato comunicar de forma acessível através da Internet, cuja capacidade para facultar informação a pessoas com necessidades especiais, tanto em quantidade como em rapidez, é espantosa e inigualável. Mas para que essa realidade não seja apenas uma mera hipótese académica, compete aos criadores de conteúdos Web, e sobretudo a todas as empresas representadas na Internet com alguma responsabilidade cívica, perceberem as várias dimensões da acessibilidade, reconhecendo-a como “uma condição essencial para o pleno exercício de direitos de cidadania consagrados na Constituição Portuguesa” (Teles, 2007: 5).

Bibliografia e webgrafia selecionada:

Brajnik, G. (2011). Barrier Walkthrough. University of Udine.
Henry, S. L. (2006). Understanding Web Accessibility. uiAccess.
Henry, S. L. (2011). Just Ask: Integrating Accessibility Throughout Design. uiAccess.
Teles, P. (coor.) (2007). Acessibilidade e Mobilidade para Todos – Apontamentos para uma melhor interpretação do DL 163/2006 de 8 de Agosto. Porto: Secretariado Nacional de Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência.
Umic. (2009). Directrizes de Acessibilidade para o Conteúdo da Web 2.0 (WCAG 2.0 do W3C) Publicadas em Português. UMIC – Agência para a Sociedade do Conhecimento, IP.
WebAIM. (n.d.). WebAIM: Introduction to Web Accessibility. WebAIM.

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