Mês: Fevereiro 2015

A Liga dos Campeões na RTP: os contribuintes que paguem!

“Tenho dificuldade em compreender como é que uma empresa pública que se está a reestruturar e é financiada pelos contribuintes decide gastar recursos num mercado que em condições normais pode ser assegurado pelo setor privado” – Estas foram palavras proferidas por Paulo Portas ao Expresso na altura (novembro de 2014) em que a polémica da compra dos direitos televisivos da Liga dos Campeões por parte da RTP surgiu. O ministro Marques Guedes também, na altura, falou sobre o assunto: “Os dinheiros públicos, do ponto de vista do Governo, não deveriam ser aplicados na compra de direitos de transmissão de jogos de futebol”, diz o ministro Marques Guedes.

Apesar de estas vozes do Governo discordarem do negócio, certo é que a RTP comprou mesmo os direitos, assegurou a concessão da Liga dos Campeões para o próximo triénio num valor de 15 milhões de euros (5 milhões por ano). Esta compra, conjugada com outras decisões, levou à destituição da administração da RTP, liderada por Alberto da Ponte, por parte do Conselho Geral Independente. Dois meses volvidos e a decisão da compra dos direitos televisivos foi confirmada pela nova administração da RTP. A mudança da administração em nada resultou neste aspecto, pois o contrato de concessão já estava assinado. Havia sim a possibilidade de sublicenciar os jogos a outra estação e assim reduzir estes elevados custos que a estação pública terá. A decisão da administração também não passou por aí, e hoje o presidente da RTP, Gonçalo Reis, anunciou que os jogos vão mesmo passar no canal público.

Gonçalo Reis afirmou que “a Liga dos Campeões está no ADN da empresa e o objetivo é rentabilizar este investimento” mas reconhece que “rentabilizar totalmente vai ser difícil”. Alberto da Ponte já veio apoiar a decisão tomada por esta administração, dizendo ao Observador que “a posição é estrategicamente correta porque a Liga dos Campeões é fulcral para a RTP”.

Estando o país na situação de crise que está e a RTP em restruturação que sentido faz este canal público, com dinheiro dos contribuintes, investir num produto que nem sequer conseguir cobrir as despesas? Se está estipulado que o dinheiro das publicidades serve para abater dívidas antigas e que o dinheiro, que pagará mais um capricho (que é a Champions), sairá do orçamento de Estado, não irá a RTP aumentar a sua dívida?

Entrará a Liga dos Campeões na condição de serviço público?

Segundo a Lei da Televisão (artigo 52.º, n.º 3), a concessão do serviço público de televisão inclui necessariamente:

  • “Um serviço de programas generalista distribuído em simultâneo em todo o território nacional, incluindo as Regiões Autónomas, com o objectivo de satisfazer as necessidades formativas, informativas, culturais e recreativas do grande público;
  • Um segundo serviço de programas generalista distribuído em simultâneo em todo o território nacional, incluindo as Regiões Autónomas, aberto à participação da sociedade civil e com o objectivo de satisfazer as necessidades informativas, recreativas e, em especial, educativas, formativas e culturais dos diversos segmentos do público, incluindo as minorias;
  • Dois serviços de programas televisivos especialmente destinados, respectivamente, à Região Autónoma dos Açores e à Região Autónoma da Madeira;
  • Um ou mais serviços de programas vocacionados para os telespectadores de língua portuguesa residentes no estrangeiro ou especialmente dirigidos aos países de língua oficial portuguesa que promovam a afirmação, valorização e defesa da imagem de Portugal no mundo.
  • Programas que valorizem a educação, a saúde, a ciência, a investigação, as artes, a inovação, o empreendedorismo, a interculturalidade, a promoção da igualdade de género, os temas económicos, a ação social, a divulgação de causas humanitárias, o desporto não profissional e o desporto escolar, as confissões religiosas, a produção independente de obras criativas, o cinema português, o ambiente, a defesa do consumidor e o experimentalismo audiovisual.”  

Em nenhum destes tópicos se enquadra o mais recente produto comprado pela RTP, cujo maior argumento para a justificação da compra usado pelos responsáveis é que a Liga dos Campeões faz parte do ADN deste canal. Ora, andam os contribuintes a fazer esforços e a pagar impostos para ter um produto que vale por ser mítico e que nem rentabilização provoca?

É certo que jogam equipas portuguesas nesta competição e que esta é uma competição muito mediática, mas existiam outros canais portugueses que estavam interessados neste produto e que o iriam fazer chegar às televisões de todos os portugueses sem qualquer tipo de custo. Até posso aceitar que digam que um jogo do Benfica, Porto ou Sporting seja de interesse público mas caso os três sejam eliminados que interesse público tem este produto? É que os jogos até à final têm de ser transmitidos na mesma, nem que seja uma equipa grega com uma dinamarquesa.

Assim, os portugueses irão descontar para um produto que o ano passado não era pago e também lhes chegava aos ecrãs. Já para não falar que se quisessem pagar por ele, bastava subscreverem a Sporttv, que transmite todos os jogos da competição. A pagar por um produto desta dimensão que seja o contribuinte a decidir se o quer fazer!

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BBC News e jornalismo personalizado

Nos dias de hoje, em que a Nike deixa o consumidor personalizar os seus ténis e a Louis Vuitton deixa personalizar as malas, a BBC decidiu, também, deixar o utilizador personalizar a sua aplicação.

A novidade é explicada neste vídeo pelo correspondente de tecnologia da emissora, Rory Cellan-Jones, e pelo gerente de produtos da BBC Future Media, Robin Pembroke. A app foi lançada na semana de 21 de janeiro, apenas para Android e iOS no Reino Unido, e estará disponível internacionalmente no final do ano.

No vídeo, podemos ver que a BBC News é dividida pelos separadores: “Live”, “Top Stories”, “Most Read”, “Most Watched”, “My News”, “General Election 2015”, “Technology”, “Nigel Farage”, entre outros. Ao princípio parece cumprir as mesmas divisões que outra qualquer aplicação de notícias, mas é na escolha destes temas que entra a novidade e a tarefa do utilizador.

A opção “+ Add topics” permite escolher as notícias consoante os locais e os temas mais consultados. Com mais vídeos do que a antiga, a app aposta mais na imagem seguindo a tendência das redes sociais, como o Facebook ou o Instagram. Especificamente no separador “My News” o utilizador pode escolher visualizar os conteúdos por tópicos ou por tempo. O intuito é dar uma experiência personalizada, onde o utilizador – tal como no Twitter ou no Facebook – pode escolher o que seguir, consoante as suas preferências.

Esta escolha para a novidade da BBC News vai ao encontro da tendência verificada no artigo As redes sociais e o novo consumidor de notícias. “O consumidor de notícias está a mudar o seu perfil, ele já não espera passivamente que a notícia chegue até ele. Com a popularização da Internet, as pessoas comuns contribuem na construção e na difusão de notícias através de redes como o Facebook e o Twitter.” (Vieira, Barros, Segundo, & Felizola, 2010). Esta lógica de consumidor ativo revê-se na aplicação, que permite organizar aquilo que se quer ver, ler ou ouvir.

Vídeo:

Bibliografia:

  • Vieira, E. S., Barros, M. C., Segundo, M. C., & Felizola, M. P. (10-12 de Junho de 2010). As redes sociais e o novo consumidor de notícias. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação.

Jornais desportivos: a isenção em xeque

A propósito da comemoração dos 30 anos de existência do jornal O JOGO no passado dia 22 de fevereiro, e numa altura em que os três principais clubes do futebol português estão em “estado de guerra” (por diferentes razões), surgiu a ideia de transpor para a escrita as minhas ideias sobre algo que, diariamente, é colocado em xeque: a isenção clubística dos três principais diários desportivos portugueses.

Referindo novamente o jornal O JOGO, há que recuar 30 anos, quando a fundação de um jornal desportivo sediado no norte do país foi vista com bons olhos, principalmente pelos adeptos do FC Porto, que há muito se queixavam da linha “centralista” evidenciada pelos dois jornais de Lisboa, e até então, os diários existentes. Desde os seus primórdios e, até pela questão da sua localização geográfica, O JOGO sempre foi associado a uma tendência azul e branca, ao contrário d’A Bola, associada ao Benfica e o Record que, com algumas oscilações, é regularmente identificado com o Sporting.

Os tempos mudaram, os três jornais têm hoje redações no norte e no sul do país. Ainda assim, tornou-se impossível de se dissociarem das conotações que lhes foram atribuídas. Obviamente, os diretores e pessosas ligadas a estes três meios zelaram sempre pela isenção dos mesmos, mas, aquele que é sempre um tema sensível, vem sempre à tona. Atualmente, os três grandes do futebol português vão digladiando argumentos em redor do tema de discórdia mais comum: a arbitragem. O Benfica é acusado pelo FC Porto de manipulação de arbitragens e os encarnados acusam o clube nortenho de “tentativas de condicionamento” dos árbitros. O problema entre Benfica e Sporting é mais profundo, já que envolve histórias passadas de indisciplina nas bancadas e referências (sob a forma de provocação) a essas mesmas histórias nos dias de hoje.

É normal e compreendo que os media se tentem distanciar o máximo deste tipo de situações, mas o código deontológico dos jornalistas impede-os de o fazer. As notícias têm que ser dadas. O problema está na forma como tal acontece. Se um dos três jornais chama determinado assunto à capa e os outros não, é prontamente acusado de ser “tendencioso”. Não que por vezes não o sejam, mas, na minha opinião, é a generalização da opinião que acaba por transformar estas suposições na realidade generalizada. Muitas vezes, as decisões nos jornais são tomadas tendo em conta o nicho de consumidores que cada um deles tem, mas isso é algo que ultrapassa o leitor comum.

Portanto, o tempo passa e o problema permanecerá. É muito difícil combater a opinião e a acusação em massa, mesmo para um meio de comunicação. Ainda mais quando os clubes também não ajudam e, através oralmente ou através de comunicados apontam o dedo a determinado jornal. Seria tudo mais simples se houvesse um pouco mais de razoabilidade e as pessoas pensassem mais por si. Mas isso é algo utópico, julgo, face ao modo de funcionamento do desporto português e, particularmente, do futebol, onde, na maioria das vezes, o plano desportivo é relegado para segundo plano e impera a “política”.

A dimensão ética no jornalismo

Para este comentário semanal decidi abordar uma das temáticas que esteve em discussão no conferência realizada na última quinta feira na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, intitulada “Jornalismo: Estado de Crise e Soluções para o Futuro”. Tal como o nome do debate o indica, a participação dos jornalistas Fernando Correia, José Luís Garcia, Liliana Pacheco, Paulo Pena, Sofia Branco e da investigadora Carla Baptista tinha como objetivo debater o estado atual da atividade jornalística, bem como os desafios que cada vez mais se colocam ao jornalismo.

Enquanto espetador da conferência, uma das principais temáticas que me prendeu a atenção está relacionada com a dimensão ética do jornalismo. Para Fernando Correia, a dimensão ética é importante e está intrinsecamente relacionada com outra dimensão que deve ser enriquecida: a valorização da responsabilidade social do jornalismo e do jornalista. O jornalista defendeu igualmente que a atividade jornalística é um saber que é interpretado por personalidades com responsabilidades na sociedade e que, por essa razão, o papel dos grandes media é cada vez maior no condicionamento da opinião pública.

Para este tópico de análise, considerei relevante uma revisão de literatura em que se pudesse trazer para a discussão a opinião de diversos autores sobre a dimensão ética no jornalismo. Primeiramente, na obra “Ética no Jornalismo”, de Rogério Christofoletti, o autor refere que, atualmente, é muito comum ouvir de profissionais do jornalismo a premissa de “cada jornalista tem a sua ética” quando tem de escolher entre um caminho e outro no jornalismo. Assim, diante do dilema de publicar ou não a fotografia do acusado na capa, o editor recorreria aos valores morais que traz de casa, da sua formação pessoal. Com base nesses princípios morais, o responsável pelo jornal tomaria a decisão de colocar ou não o rosto do suposto autor do crime na manchete (Christofoletti, 2008).

Para o autor, a moral acaba por representar um conjunto de valores que orientam a conduta, as acções e os julgamentos humanos de cada indivíduo. Do ponto de vista jornalístico, aquilo que os profissionais do jornalismo fazem com a moral é o que se convencionou chamar de ética/deontologia. Deste modo, se a moral coloca normas, é dura e sinalizadora, a ética acaba por se tornar reflexiva, maleável, praticante e questionadora para quem a pratica.

Christofoletti destaca que, como qualquer temática, a ética tem duas dimensões: uma individual e outra social. Na primeira, são mobilizados os seus valores pessoais, as suas convicções morais. Na segunda dimensão, operam os valores que o homem absorve dos grupos sociais dos quais é parte integrante (família, trabalho, amigos, escola ou a igreja). Esta condição dupla da ética faz com que as nossas decisões não sejam somente pessoais ou sociais. Assim, no jornalismo, quando o editor tem de escolher se a foto do acusado sai na capa ou não, ele recorre não só à sua consciência, mas também às regras sociais: a linha editorial da sua empresa, as definições do que é notícia para o jornalismo, uma imagem do perfil do seu leitor, o ambiente de concorrência e o contexto em que está inserido (Christofoletti, 2008).

Outro dos artigos analisados é da autoria de Marco António Antunes, com o título “Ética da comunicação e ética da informação: teoria sistemática”. Para o autor, a “informação e o jornalismo pressupõem uma reflexão ética, moral e deontológica que analise de forma sistemática as relações entre os media e os seus públicos”. Deste modo, Antunes (2010) refere que a ética constitui um processo especulativo de legitimação das normas através de uma dupla consciência: uma consciência que obriga o ego e outrem a seguir normas de conduta; e uma consciência que define obrigações de conduta questionando os valores da sociedade e a ordem jurídica.

Neste artigo, Marco Antunes afirma que a “reflexão sobre a ética do jornalismo pressupõe um questionamento das relações entre jornalistas, empresas jornalísticas, sindicatos de jornalistas e público. Assim, a ética do jornalismo compreende, segundo este artigo, o padrão informativo (story) e o padrão opinativo (comment), enquadrando os princípios teóricos de base filosófica, sociológica e comunicacional inerentes à atividade jornalística. (Antunes, 2010).

Por último, outro dos textos analisados foi o artigo publicado por Alberto Manuel Vara Branco, professor coordenador do Ensino Superior Politécnico. Neste artigo, o autor realça que os agentes da comunicação social cedo se habituaram a não quebrar as regras de deontologia e, como tal, não é preciso fazer um esforço de memorização para ter presente o seu código. Para Vara Branco, o “maior dom do homem e o seu mais valioso direito é a liberdade”. Desse modo, no artigo destaca-se a “importância do homem perceber que não está só no mundo, pelo que necessita de respeitar a liberdade dos demais para que seja respeitada a sua liberdade”. Assim, o autor destaca que “a deontologia abarca a profissão com todas as suas consequências morais, conduta e consequências humanas, matéria essencial à ética”. (Branco, 2011)

A partir dos conceitos defendidos pelo jornalista Fernando Correia e pelos três autores enunciados, rapidamente chegamos à conclusão de que a dimensão ética do jornalismo é essencial para o funcionamento da atividade jornalística. Ao analisarmos o momento que o jornalismo vive – e que foi abordado na conferência da passada quinta-feira na FCSH – é importante igualmente levar em linha de conta o pensamento do jornalista José Luís Garcia, que defende que “o jornalismo não se justifica pelo seu valor de mercado, pelo que não deve ser feito para que empresas ganhem dinheiro”.

Analisando o estado do jornalismo atual, percebe-se que a declaração de José Luís Garcia mostra muito daquilo que é o panorama jornalístico atual. Ao longo dos últimos anos, fomos percebendo que, no desenvolvimento da atividade jornalística, não raras vezes somos confrontados com notícias em que a dimensão ética parece ser afetada. Ao analisar alguma imprensa – seja escrita, televisiva ou radiofónica – constatamos que a presença de casos de índole criminal são cada vez mais frequentes em alguns diários portugueses. Especificamente, basta olhar para publicações como o Jornal de Notícias ou o Correio da Manhã; bem como para os noticiários televisivos dos três canais generalistas portugueses (RTP, SIC e TVI) para perceber que a presença de notícias referentes a casos criminais são cada vez mais frequentes.

Na imprensa escrita, a presença deste tipo de jornalismo ocupa um espaço cada vez mais significativo nas páginas dos jornais, enquanto que, em termos televisivos, no chamado “prime-time”, tem havido uma multiplicação do chamado crime-time, com a teoria de que  “o crime vende”. É aqui que acaba por estar presente a tão propalada ditadura das audiências, uma expressão usada para demonstrar que as opções de programação e de escolha de conteúdos em geral se subordina aos resultados expressos nos estudos de audiência, sobrepondo-se a critérios de ordem estética ou cultural.

Enquanto estudante e analista do jornalismo que é feito a nível nacional, admito que a conferência da última quinta feira, realizada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, veio adensar as minhas preocupações quanto ao futuro do jornalismo. Com uma profissão tão marcada pela precariedade e em que dificuldade em entrar nas redações é cada vez maior, não é de estranhar que a dimensão ética esteja cada vez mais presente. Em primeiro lugar – e olhando numa perspetiva meramente mercantil, porque com as dificuldades que as empresas jornalísticas vivem – penso que não será de estranhar que esta “ditadura das audiências” esteja cada mais presente nas páginas, nos sons e nas imagens com que nos deparamos diariamente na comunicação social. Depois porque, no meio de tanta dificuldade com que os jornalistas vivem, não é de estranhar que, apenas para segurar o posto de trabalho, seja cada vez mais frequente a cedência a pressões para que determinado artigo seja ou não publicado no meio em que trabalham. E se isso pode ser moralmente condenável, por tudo aquilo que o jornalismo deve representar, realisticamente, dificilmente alguém no lugar do jornalista poderia tomar outras decisões quando é deparado com um futuro tão negro e que, em muitos casos, depende da publicação ou não daquele artigo que por vezes é incómodo para uma entidade da qual a empresa depende.

Como aspirante a jornalista, penso que é sobre isto que devemos refletir. Mais do que plataformas, é importante perceber para onde caminha o jornalismo. Enquanto defensor da democracia, esse assunto não deveria preocupar só os jornalistas mas deveria preocupar-nos a todos. Receio é que isso seja algo que dificilmente acontecerá. E isso preocupa-me.

Fontes utilizadas:

Antunes, Marco António. (2010). Ética da comunicação e ética da informação: teoria sistemática.

Branco, Alberto Manuel Vara. (2011). A ética e a informação: O jornalista como profissional e o jornalista como pessoa.

Christofoletti, Rogério. (2008). Ética no Jornalismo: Editora Contexto.

Karam, Francisco José Castilhos. (1997). Jornalismo, ética e liberdade. São Paulo: Summus Editorial.

Karam, Francisco José. (2004). A ética jornalística e o interesse público. São Paulo: Summus Editorial.

A Rádio na Teia Digital

A revolução digital provocou uma revolução nas estruturas onde é produzida e disseminada a informação. A rádio não é exceção e tem vindo a alargar o seu espectro social funcionando como um meio global e transversal de consumo e de acesso ao conhecimento.

“A educação para os media foi consagrada na declaração de Grunwald (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura – UNESCO, 1982) como vital para a vida de todos/as os/as cidadãos/ãs, advogando-se que o exercício inclusivo e abrangente da cidadania requer o uso esclarecido e crítico dos media” (Sebastião, 2014, p. 3).

RadioActive 101: Comunicar Cidadania

Com origem em Inglaterra, o projeto RadioActive 101, alargou as suas bases à Europa e foi reconhecido em Portugal, a 8 de Janeiro de 2015, com o Prémio Inclusão e Literacia Digital. A distinção da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) visa promover “o desenvolvimento e implementação de ideias inovadoras e, ainda estimular a partilha e disseminação de modelos de boas práticas.”

A cerimónia de entrega do Prémio aconteceu ontem em Lisboa no Teatro Thalia e juntou os 17 vencedores. Maria José Brites, investigadora do RadioActive 101 e coordenadora do projeto RadioActive Europe, recebeu da Secretária de Estado de Educação e Ciência, Leonor Parreira, a prova dos bons resultados obtidos em território nacional. A distinção permitirá ao Centro de Investigação Media e Jornalismo (CIMJ), com o apoio do programa Escolhas, ampliar o RadioActive a novos centros durante este ano.

Financiado pela Comissão Europeia entre 2012 e 2014 no âmbito do Programa de Aprendizagem ao Longo da Vida, o RadioActive está também no Reino Unido, Alemanha, Malta e Roménia. Protagonizado por jovens em risco de exclusão, encarna o papel de mediador entre os conteúdos e os ouvintes, estimula a capacidade de comunicação e permite associar o divertimento ao ambiente jornalístico. O método informal de aprendizagem promove, de acordo com o CIMJ, “a inclusão e a empregabilidade em contextos mais vulneráveis.”

A literacia digital e o universo radiofónico 

“A literacia digital é operacionalizada como a capacidade de aceder à Web, compreendê-la e utilizá-la, criando conteúdos, partilhando-os e consumindo-os de forma crítica, ética, segura e intencional. Neste sentido, a literacia digital possui três níveis: o acesso (à Web), a compreensão dos seus conteúdos (o que são, quem os produz, porque produz, como usa) e a utilização (das ferramentas digitais) (Sebastião, 2014, p. 4).”

Desenvolvido pelo Centro de Investigação Media e Jornalismo (CIMJ), em centros do Programa Escolhas do Porto, de Gondomar e de Coimbra, o RadioActive 101 é um produto de cidadania, um motor da literacia mediática e um meio de transmissão de informação.

Constituindo-se como uma plataforma na internet e adotando as potencialidades da Web 2.0, o projeto, coordenado por uma equipa de profissionais da comunicação (Maria José Brites, Sílvio Correia Santos, Ana Jorge, Daniel Catalão, António Granado e Catarina Navio), foca assuntos perenes numa sociedade caduca de valores sociais. Assim, questões subordinadas a temas como o racismo, a descriminação, a liberdade de expressão, a justiça social ou centradas em situações específicas dos bairros sociais onde se encontram as diferentes Rádios, são matéria informativa radiofónica.

Quatro Projetos, Um Destino – A Inclusão

Incluir, integrar, aprender, educar, conhecer, cooperar, desafiar, interagir, partilhar e comunicar são alguns dos verbos que definem os quatro projetos (Catapulta, Metas E5G, Trampolim E5G e EntrEscolhas Geração D’Ouro E5G). Procuram estimular a aprendizagem, promover o conhecimento, tendo sempre em mente a igualdade de oportunidades e de acesso à EDUCAÇÃO. Funcionam como rádios-web e estão presentes no facebook acompanhando o paradigma digital.

“A ideia que esteve subjacente ao projeto foi a de implementação de uma rádio online que servisse como ferramenta educativa junto de comunidades que estivessem em risco ou já em exclusão do sistema de ensino ou então da empregabilidade”, afirmou Maria José Brites, em entrevista à RTP.

Os jovens são incentivados a escolher as matérias noticiosas que querem ver expostas no seu programa, bem como a contactar com os especialistas adequados a responder às suas principais questões. Além de aperfeiçoarem as técnicas de entrevista, potenciarem a capacidade de comunicação com pessoas fora do seu núcleo de conhecimentos, acompanharem a realidade mediática e aprenderem a trabalhar em grupo, não esquecem a língua portuguesa e transportam as técnicas aprendidas em rádio para a apresentação de trabalhos em contexto escolar.

A autoconfiança  cresce e o interesse por acontecimentos e factos relevantes na história de Portugal e dos portugueses também porque são motivados a criar, a estruturar projetos novos com os quais se identifiquem, como por exemplo colocar em rap a música “Grândola, Vila Morena.”

A capacidade de iniciativa, a autonomia, a exploração das potencialidades individuais são outras das linhas condutoras deste programa.

Vestir a pele de um verdadeiro jornalista, ir para o terreno e enfrentar o desafio de confrontar novos rostos, novas opiniões, novos olhares mesmo correndo o risco de ouvir a dura resposta “não” é também considerado como um dos principais motores de aprendizagem. De acordo com Maria José Brites, em entrevista ao Jornalismo Porto Net: “A utilização da rádio facilita a expressividade, a expressão oral e a utilização de diversas componentes digitais.”

Numa sociedade onde cada vez cedo crianças e jovens têm acesso às novas tecnologias é importante estimular o conhecimento dos principais riscos e potencialidades do online. Desta forma, “Media educators mostly try to increase children’s and adolescents’ mass media knowledge and skills because this, in turn, will maximize positive media effects and minimize negative ones” (Martens, 2010, p. 6).

A voz como arma na era da Imagem

O poder de comunicar através do aparelho vocal numa sociedade onde a imagem impera deve ser preservado. A musicalidade do timbre, a sonoridade das palavras, a transparência do contacto auditivo preservam a capacidade de imaginar.

Artigos Consultados:

Brites, M. J. (2014). RadioActive101 Practices. Centro de Investigação Media e Jornalismo, 4-42. Obtido de https://cld.pt/dl/download/930e5ba6-fe88-4a65-9fd3-1cce909417d0/RadioActive101%20Practices%20PDF.pdf

Martens, H. (2010). Evaluating media literacy education: Concepts, theories and future directions. Journal of Media Literacy Education. 2(1), 1-22. Obtido de http://digitalcommons.uri.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1023&context=jmle

Sebastião, S. P. (2014). A Literacia Digital e a Participação Cívica. Educação, Sociedade & Culturas, nº 42, 111-132. Obtido de http://www.fpce.up.pt/ciie/sites/default/files/ESC42_S_P_Sebastiao.pdf

Fontes Consultadas:

Centro de Investigação Media e Jornalismo

http://www.cimj.org/

RadioActive101: Usar a rádio como método de aprendizagem

http://jpn.up.pt/2014/04/06/radioactive-101-usar-a-radio-como-metodo-de-aprendizagem/

No dia Mundial da Rádio: O RadioActive

http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=4399047

Em Nome do Ouvinte, o Programa do Provedor do Ouvinte (IV Série) Porque é que a rádio é importante? Dia Mundial da Rádio | 13 de Fevereiro, 2015

http://www.rtp.pt/play/p933/em-nome-do-ouvinte-iv

Cultura da segmentação no jornalismo digital

Faça bem o que você sabe fazer de melhor e crie links para o resto. O mantra de Jeff Jarvis, guru da media digital, nunca esteve tão atual. Ao contrário das grandes corporações da comunicação que dominaram o sector no século XX, focadas numa abrangente e diversificada cobertura, as organizações criadas na era do chamado jornalismo pós-industrial vêm investindo em segmentos específicos da prática jornalística ­ – e assim conquistando seu espaço.

“O ecossistema jornalístico de 2020 será caracterizado por expansão, com maior contraste entre os extremos. Haverá mais gente consumindo mais notícia, e de mais fontes. A maioria dessas fontes terá uma noção clara de seu público, dos sectores específicos que cobre, de suas competências básicas”, decretou o relatório-manifesto Post Industrial Journalism: Adapting to the Present, apresentado em 2012 por um trio de pesquisadores do Tow Center for Digital Journalism, da Columbia Journalism School. “As redações que conhecerem bem o seu público e sua própria missão têm mais chances de prosperar; aqueles com menos autoconhecimento talvez tenham um destino menos animador”, reforçou Almar Latour, editor executivo do The Wall Street Journal na série de previsões para o jornalismo em 2015 produzida pelo Nieman Lab, da Harvard University.

Em recente festival sobre o jornalismo digital realizado em São Paulo, Brasil, promovido pela Revista Piauí, organizações de vários países apresentaram suas propostas para o sector. Entre elas, duas iniciativas destacam-se exatamente por investir em nichos de mercado. Chequeado, projeto argentino inspirado no norte-americano FactCheck, dedica-se exclusivamente a investigar a veracidade das informações compartilhadas por políticos, economistas, empresários, meios de comunicação e outras instituições formadoras de opinião. “Se conseguirmos fazer com que mais gente se preocupe com o que os seus líderes falam e e se incomode com a mentira (às vezes intencional, às vezes por descuido), se conseguirmos reduzir a impunidade intelectual, talvez os líderes comecem a ser mais cuidadosos e mais respeitosos, e assumam a responsabilidade pelo que dizem”, afirmou Laura Zommer, diretor executiva do Chequeado, durante o evento.

Com objetivos diferentes, mas uma postura similar no sentido de especializar-se em determinada função, o Vox tem com missão explicar as notícias. A ideia é contextualizar os principais fatos veiculados pela imprensa, de forma que qualquer pessoa consiga entender e acompanhar o que está acontecendo. Para tanto, o site aposta num formato de “cartões”, divididos por tópicos, constantemente enriquecidos e atualizados, à medida em que novos fatos vão se desenrolando. “É como se fosse um mix de matérias jornalísticas com enciclopédia: tudo o que você precisa saber sobre… Mas com uma visão crítica, não só ‘o que, quem, como, onde…”‘, explicou Max Fisher, diretor de conteúdo do Vox, durante o festival. “Muitos jornalistas acham que são bons demais para explicar o básico às pessoas. Nós, não. Respondemos às questões que as pessoas têm vergonha de perguntar”. Segundo Fisher, 63% dos leitores voltam ao mesmo “cartão”, ou seja, continuam a acompanhar as histórias.

“Para as empresas jornalísticas que ainda não encontraram o caminho, e seguramente elas formam a maioria, há que se buscar uma saída fora da barra da saia da empresa-mãe e muito além do modelo tradicional”, defende o pesquisador Caio Tulio Costa, em análise sobre novos modelos para o jornalismo digital.

O TGV DIGITAL E O JORNALISMO

Uma reportagem da SIC Notícias no programa Toda a Verdade, intitulada: “Que Futuro para o Jornalismo?” permitiu-me refletir sobre as mudanças ocorridas no campo jornalístico. Na base desta reflexão estão a entrevista realizada a Nicolau Santos, diretor-adjunto do Expresso e as informações recolhidas no 1º Workshop sobre Jornalismo Digital realizado pela Genius y Meios na Rádio Renascença e na 6.ª conferência anual da ERC – “Media na era digital”.

O modo de fazer jornalismo está a mudar perspetivas e a definir novos horizontes. O jornalismo em papel não é um jornalismo morto mas a realidade leva a crer que a complementaridade com o meio online é a chave vital.

O gatekeeping é fundamental para um jornalismo de qualidade mas os novos timings criam novas formas de fazer jornalismo e a produção de conteúdos noticiosos é agora mais do que nunca “contra-relógio”. O jornalismo digital não tem pausas nem interrupções e os fluxos noticiosos são constantes, ininterruptos e contínuos.

A imprensa está, segundo Nicolau Santos “a tentar adaptar-se a uma mudança estrutural”. Os meios de comunicação ditos clássicos estão a atravessar um período de transição para o meio digital e a concorrência é implacável.

Agregadores de conteúdos, como o The Huffington Post, e bloggers invadem o meio digital, dispersam a atenção do leitor e contribuem, segundo alguns jornalistas, para a destruição do jornalismo. Contudo, a gratuidade dos jornais em meio online levou a que muitos leitores cancelassem as suas assinaturas em papel contribuindo para a diminuição das margens de lucro.

É importante demonstrar aos leitores que o jornalismo de qualidade deve ser pago. A chamada paywall permite fidelizar o leitor mostrando-lhe a perspetiva do jornalista francês Edwy Plenel: “… se estamos na imprensa de qualidade, de informação, de referência, na internet, é preciso defender o valor e não se pode colocar a gratuidade de um lado e o subscritor do outro. É preciso escolher, é preciso correr o risco, que é a alavanca de criação de valor.” Exemplo pioneiro é o The New York Times com cerca de 700 mil assinantes na versão digital, de acordo com Bill Grueskin.

É cada vez mais essencial que o jornalista esteja onde o leitor está, saiba o que ele consome, (algo que é incompatível com o jornal impresso) e consiga fidelizá-lo aos seus conteúdos. É cada vez mais imprescindível que possa fazê-lo recorrendo ao multimédia imersivo, que permite conjugar texto, imagem, som e infografias em simultâneo. Mas, também é fundamental que não se esqueça dos seus consumidores tradicionais. Dan Gross, ex-editor chefe da Newsweek, refere: “As marcas estabelecidas têm o enorme fardo de tentar ir ao encontro dos seus atuais consumidores e, ao mesmo tempo, tentar investir e criar a próxima geração quando a tecnologia muda a cada seis a doze meses.”

Na perspetiva de Pedro Leal, diretor-adjunto de Informação da Rádio Renascença “o jornalista já não está mais a competir com o seu parceiro” mas sim com um conjunto de meios de comunicação a nível nacional e principalmente transnacional.

É essencial procurar ser cada vez mais plural, criativo e encontrar um modelo de negócio que promova o jornalismo multiplataforma. As técnicas de SEO (Search engine optimization) são também imprescindíveis, de acordo com Pedro Rios, editor online e fundador do site Porto24, já que funcionam como motor de pesquisa e permitem ao leitor aceder aos conteúdos de forma mais rápida.

O mundo está a mudar as suas rotinas, os seus hábitos e as suas formas de encarar a realidade. Os meios de comunicação tradicionais concorrem para verem o seu valor reconhecido e as start-ups tecnológicas (como o Buzzfeed) ganham dimensão no mercado noticioso. Aproveitando os conhecimentos tecnológicos organizam os conteúdos noticiosos com base na forma como os leitores consomem notícias, sempre com o olhar nas redes sociais.

A comunicação já não é apenas realizada de um para muitos mas de todos para todos. Os chamados prosumers estão a mudar a forma como as notícias circulam no mundo digital. E, de acordo com Elinar Thorsen: “Citizens are actively participating in online news reporting too, through publishing eyewitness accounts, commentary, crowdsourcing and fact checking information” (Thorsen, 2013, p. 123).

Muitos são os que acreditam que o jornal em papel não irá desaparecer porque se se conseguir exercer um jornalismo de qualidade, a complementaridade com o meio digital é um acréscimo à notoriedade do meio de comunicação. Mas, a disciplina da verificação tem de existir sempre. O erro e o não cumprimento do código deontológico no meio digital podem colocar em risco a credibilidade do meio de comunicação. Ter boas estórias não chega, é preciso saber como, onde e a quem as contar.

Artigos consultados:

Thorsen, E. (2013). Live Blogging and Social Media Curation: Challenges and Opportunities for Journalism. Em K. F. Wall , & S. Allan (Edits.), Journalism: New Challenges . Centre for Journalism & Communication Research Bournemouth University.

Fontes:

  • Toda a Verdade: “Que Futuro para o Jornalismo?”

https://www.youtube.com/watch?v=P7-uxICRBZs

  • 1º Workshop sobre Jornalismo Digital realizado pela Genius y Meios na Rádio Renascença

https://storify.com/workshopjd/workshop-de-jornalismo-digital

  • 6ª conferência anual da ERC – “Media na era digital”

https://www.facebook.com/conferenciaERCmedianaeradigital