Ainda há espaço para apagões no jornalismo?

Para primeiro comentário semanal no âmbito da unidade curricular “Questões Contemporâneas do Jornalismo”, decidi escolher um dos temas que se destacou na atualidade mediática nacional. Refiro-me, tal como o título do artigo o demonstra, à falha técnica provocada por uma infraestrutura tecnológica da Portugal Telecom (PT) e que causou a impossibilidade de vários sites de informação poderem ser acedidos pelos leitores/visitantes. Este “apagão” atingiu os sites do grupo Cofina (Correio da Manhã, Record, Jornal de Negócios, Sábado, etc), alguns do grupo Impresa (SIC, SIC Notícias e Visão), e o jornal ionline. Segundo a PT, a falta de acesso a estes portais de informação deveu-se a “um constrangimento técnico” num servidor de dados. A falha técnica acabou por não atingir todos os meios de informação do grupo Impresa, pois o semanário Expresso, acabou por não ser afetado por ter o seu site alojado num servidor diferente, que não pertence à PT. De realçar que a situação só ficou regularizada pelas 21 horas de domingo.

As reações por parte dos órgãos de informação afetados não se fizeram esperar. Na página oficial do Facebook do Jornal de Negócios, a publicação refere que Portugal Telecom justificou o problema como um “constrangimento técnico” que afetou um dos sistemas de “storage” (rede de armazenamento). Ainda assim, o destaque maior vai para as fortes críticas do grupo Cofina à PT, que numa nota enviada à imprensa, acusa a Portugal Telecom de, por causa desta falha, não terem sido “capazes de assegurar o compromisso” com os seus visitantes “de um serviço noticioso online rigoroso, independente e de qualidade, em atualização permanente e sempre disponível”.

A Cofina, fundada em 1995 e cujo Presidente do Conselho de Administração é Paulo Fernandes, garantiu que “tomará todas as medidas que se demonstrarem necessárias para que situações com esta gravidade não se voltem a repetir no futuro, assegurando que os seus fornecedores de serviços estão à altura do compromisso” para com os seus utilizadores. Entre os órgãos do grupo Cofina, destaque para a reação do diretor do Correio da Manhã (CM), o jornal diário mais vendido em território nacional. Octávio Ribeiro descreveu o problema técnico com a PT como uma “situação vergonhosa e sem precedentes, que pôs em causa a nossa relação instantânea com os leitores online”. Para o responsável pelo Correio da Manhã, a liderança nos sites generalistas pode igualmente estar comprometida, pelo que “é preciso apurar responsabilidades até às últimas consequências”. O administrador do grupo para a área digital, Pedro Araújo e Sá, também citado pelo Correio da Manhã, foi ao encontro das declarações de Octávio Ribeiro, pois considerou que esta falha afeta a imagem do jornal e “terá efeitos gravíssimos nas receitas publicitárias daquele que é o jornal mais vendido em Portugal”.

Como facilmente podemos concluir a partir das reações das principais “vítimas” deste problema técnico, este foi um problema que prejudicou seriamente os órgãos de informação e sobretudo a qualidade do serviço que é dado aos utilizadores. Numa altura em que os conteúdos pagos (premium) são uma das principais bandeiras dos sites de informação – como o Público, o Record ou o Correio da Manhã – que assim procuram retirar receitas do online, creio que esta situação é lamentável e que não se justifica à luz daquilo que é o panorama jornalístico nacional. No meu caso, mesmo não possuindo assinatura no Record ou no CM, não posso deixar de tecer críticas à Portugal Telecom que, devido a um “constrangimento técnico”, me impediu de utilizar um serviço que deve estar acessível de forma contínua.

Em contrapartida, para os subscritores de conteúdos premium – que pagam para ter acesso a uma informação restrita ao público comum – esta é uma situação ainda mais grave, pois, com este problema técnico, acabaram por, durante várias horas, estar a pagar por um serviço ao qual não tinham acesso. Não é por isso de estranhar as críticas do responsável do Correio da Manhã, Octávio Ribeiro, que temeu pelas falhas dos compromissos com os leitores e pela forte possibilidade da liderança nos sites generalistas (e respetivas receitas publicitárias) estar comprometida. Numa altura em que as receitas são tão poucas e o ramo jornalístico passa por tantas incertezas, as críticas do diretor do CM não podiam estar mais acertadas. Isto porque, para além das dificuldades inerentes à diminuição de receitas por parte dos órgãos de informação, aquilo que eles menos precisam é que “falhas técnicas” prejudiquem o pouco que ainda resta.

Fontes Utilizadas (Links com notícias acerca da falha técnica da PT):

http://www.publico.pt/tecnologia/noticia/sites-de-informacao-nacionais-inacessiveis-pelo-segundo-dia-consecutivo-1686286 (16 fevereiro)

http://www.record.xl.pt/fora_campo/interior.aspx?content_id=931218 (Domingo, 15 fevereiro)

http://economico.sapo.pt/noticias/problemas-nos-servidores-da-pt-deixam-varios-sites-em-baixo_212096.html (15 fevereiro)

http://observador.pt/2015/02/15/problemas-tecnicos-na-pt-provocam-apagao-de-sites-de-informacao/ (16 fevereiro)

http://expresso.sapo.pt/sites-em-baixo-apagao-na-pt-so-foi-resolvido-por-americanos=f911147 (16 fevereiro)

http://shifter.pt/2015/02/falha-nos-servidores-da-pt-coloca-varios-sites-de-jornais-portugueses-em-baixo/ (15 fevereiro)

http://pplware.sapo.pt/informacao/erro-humano-na-origem-do-apagao-da-portugal-telecom/ (18 fevereiro)

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