Cultura da segmentação no jornalismo digital

Faça bem o que você sabe fazer de melhor e crie links para o resto. O mantra de Jeff Jarvis, guru da media digital, nunca esteve tão atual. Ao contrário das grandes corporações da comunicação que dominaram o sector no século XX, focadas numa abrangente e diversificada cobertura, as organizações criadas na era do chamado jornalismo pós-industrial vêm investindo em segmentos específicos da prática jornalística ­ – e assim conquistando seu espaço.

“O ecossistema jornalístico de 2020 será caracterizado por expansão, com maior contraste entre os extremos. Haverá mais gente consumindo mais notícia, e de mais fontes. A maioria dessas fontes terá uma noção clara de seu público, dos sectores específicos que cobre, de suas competências básicas”, decretou o relatório-manifesto Post Industrial Journalism: Adapting to the Present, apresentado em 2012 por um trio de pesquisadores do Tow Center for Digital Journalism, da Columbia Journalism School. “As redações que conhecerem bem o seu público e sua própria missão têm mais chances de prosperar; aqueles com menos autoconhecimento talvez tenham um destino menos animador”, reforçou Almar Latour, editor executivo do The Wall Street Journal na série de previsões para o jornalismo em 2015 produzida pelo Nieman Lab, da Harvard University.

Em recente festival sobre o jornalismo digital realizado em São Paulo, Brasil, promovido pela Revista Piauí, organizações de vários países apresentaram suas propostas para o sector. Entre elas, duas iniciativas destacam-se exatamente por investir em nichos de mercado. Chequeado, projeto argentino inspirado no norte-americano FactCheck, dedica-se exclusivamente a investigar a veracidade das informações compartilhadas por políticos, economistas, empresários, meios de comunicação e outras instituições formadoras de opinião. “Se conseguirmos fazer com que mais gente se preocupe com o que os seus líderes falam e e se incomode com a mentira (às vezes intencional, às vezes por descuido), se conseguirmos reduzir a impunidade intelectual, talvez os líderes comecem a ser mais cuidadosos e mais respeitosos, e assumam a responsabilidade pelo que dizem”, afirmou Laura Zommer, diretor executiva do Chequeado, durante o evento.

Com objetivos diferentes, mas uma postura similar no sentido de especializar-se em determinada função, o Vox tem com missão explicar as notícias. A ideia é contextualizar os principais fatos veiculados pela imprensa, de forma que qualquer pessoa consiga entender e acompanhar o que está acontecendo. Para tanto, o site aposta num formato de “cartões”, divididos por tópicos, constantemente enriquecidos e atualizados, à medida em que novos fatos vão se desenrolando. “É como se fosse um mix de matérias jornalísticas com enciclopédia: tudo o que você precisa saber sobre… Mas com uma visão crítica, não só ‘o que, quem, como, onde…”‘, explicou Max Fisher, diretor de conteúdo do Vox, durante o festival. “Muitos jornalistas acham que são bons demais para explicar o básico às pessoas. Nós, não. Respondemos às questões que as pessoas têm vergonha de perguntar”. Segundo Fisher, 63% dos leitores voltam ao mesmo “cartão”, ou seja, continuam a acompanhar as histórias.

“Para as empresas jornalísticas que ainda não encontraram o caminho, e seguramente elas formam a maioria, há que se buscar uma saída fora da barra da saia da empresa-mãe e muito além do modelo tradicional”, defende o pesquisador Caio Tulio Costa, em análise sobre novos modelos para o jornalismo digital.

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