A dimensão ética no jornalismo

Para este comentário semanal decidi abordar uma das temáticas que esteve em discussão no conferência realizada na última quinta feira na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, intitulada “Jornalismo: Estado de Crise e Soluções para o Futuro”. Tal como o nome do debate o indica, a participação dos jornalistas Fernando Correia, José Luís Garcia, Liliana Pacheco, Paulo Pena, Sofia Branco e da investigadora Carla Baptista tinha como objetivo debater o estado atual da atividade jornalística, bem como os desafios que cada vez mais se colocam ao jornalismo.

Enquanto espetador da conferência, uma das principais temáticas que me prendeu a atenção está relacionada com a dimensão ética do jornalismo. Para Fernando Correia, a dimensão ética é importante e está intrinsecamente relacionada com outra dimensão que deve ser enriquecida: a valorização da responsabilidade social do jornalismo e do jornalista. O jornalista defendeu igualmente que a atividade jornalística é um saber que é interpretado por personalidades com responsabilidades na sociedade e que, por essa razão, o papel dos grandes media é cada vez maior no condicionamento da opinião pública.

Para este tópico de análise, considerei relevante uma revisão de literatura em que se pudesse trazer para a discussão a opinião de diversos autores sobre a dimensão ética no jornalismo. Primeiramente, na obra “Ética no Jornalismo”, de Rogério Christofoletti, o autor refere que, atualmente, é muito comum ouvir de profissionais do jornalismo a premissa de “cada jornalista tem a sua ética” quando tem de escolher entre um caminho e outro no jornalismo. Assim, diante do dilema de publicar ou não a fotografia do acusado na capa, o editor recorreria aos valores morais que traz de casa, da sua formação pessoal. Com base nesses princípios morais, o responsável pelo jornal tomaria a decisão de colocar ou não o rosto do suposto autor do crime na manchete (Christofoletti, 2008).

Para o autor, a moral acaba por representar um conjunto de valores que orientam a conduta, as acções e os julgamentos humanos de cada indivíduo. Do ponto de vista jornalístico, aquilo que os profissionais do jornalismo fazem com a moral é o que se convencionou chamar de ética/deontologia. Deste modo, se a moral coloca normas, é dura e sinalizadora, a ética acaba por se tornar reflexiva, maleável, praticante e questionadora para quem a pratica.

Christofoletti destaca que, como qualquer temática, a ética tem duas dimensões: uma individual e outra social. Na primeira, são mobilizados os seus valores pessoais, as suas convicções morais. Na segunda dimensão, operam os valores que o homem absorve dos grupos sociais dos quais é parte integrante (família, trabalho, amigos, escola ou a igreja). Esta condição dupla da ética faz com que as nossas decisões não sejam somente pessoais ou sociais. Assim, no jornalismo, quando o editor tem de escolher se a foto do acusado sai na capa ou não, ele recorre não só à sua consciência, mas também às regras sociais: a linha editorial da sua empresa, as definições do que é notícia para o jornalismo, uma imagem do perfil do seu leitor, o ambiente de concorrência e o contexto em que está inserido (Christofoletti, 2008).

Outro dos artigos analisados é da autoria de Marco António Antunes, com o título “Ética da comunicação e ética da informação: teoria sistemática”. Para o autor, a “informação e o jornalismo pressupõem uma reflexão ética, moral e deontológica que analise de forma sistemática as relações entre os media e os seus públicos”. Deste modo, Antunes (2010) refere que a ética constitui um processo especulativo de legitimação das normas através de uma dupla consciência: uma consciência que obriga o ego e outrem a seguir normas de conduta; e uma consciência que define obrigações de conduta questionando os valores da sociedade e a ordem jurídica.

Neste artigo, Marco Antunes afirma que a “reflexão sobre a ética do jornalismo pressupõe um questionamento das relações entre jornalistas, empresas jornalísticas, sindicatos de jornalistas e público. Assim, a ética do jornalismo compreende, segundo este artigo, o padrão informativo (story) e o padrão opinativo (comment), enquadrando os princípios teóricos de base filosófica, sociológica e comunicacional inerentes à atividade jornalística. (Antunes, 2010).

Por último, outro dos textos analisados foi o artigo publicado por Alberto Manuel Vara Branco, professor coordenador do Ensino Superior Politécnico. Neste artigo, o autor realça que os agentes da comunicação social cedo se habituaram a não quebrar as regras de deontologia e, como tal, não é preciso fazer um esforço de memorização para ter presente o seu código. Para Vara Branco, o “maior dom do homem e o seu mais valioso direito é a liberdade”. Desse modo, no artigo destaca-se a “importância do homem perceber que não está só no mundo, pelo que necessita de respeitar a liberdade dos demais para que seja respeitada a sua liberdade”. Assim, o autor destaca que “a deontologia abarca a profissão com todas as suas consequências morais, conduta e consequências humanas, matéria essencial à ética”. (Branco, 2011)

A partir dos conceitos defendidos pelo jornalista Fernando Correia e pelos três autores enunciados, rapidamente chegamos à conclusão de que a dimensão ética do jornalismo é essencial para o funcionamento da atividade jornalística. Ao analisarmos o momento que o jornalismo vive – e que foi abordado na conferência da passada quinta-feira na FCSH – é importante igualmente levar em linha de conta o pensamento do jornalista José Luís Garcia, que defende que “o jornalismo não se justifica pelo seu valor de mercado, pelo que não deve ser feito para que empresas ganhem dinheiro”.

Analisando o estado do jornalismo atual, percebe-se que a declaração de José Luís Garcia mostra muito daquilo que é o panorama jornalístico atual. Ao longo dos últimos anos, fomos percebendo que, no desenvolvimento da atividade jornalística, não raras vezes somos confrontados com notícias em que a dimensão ética parece ser afetada. Ao analisar alguma imprensa – seja escrita, televisiva ou radiofónica – constatamos que a presença de casos de índole criminal são cada vez mais frequentes em alguns diários portugueses. Especificamente, basta olhar para publicações como o Jornal de Notícias ou o Correio da Manhã; bem como para os noticiários televisivos dos três canais generalistas portugueses (RTP, SIC e TVI) para perceber que a presença de notícias referentes a casos criminais são cada vez mais frequentes.

Na imprensa escrita, a presença deste tipo de jornalismo ocupa um espaço cada vez mais significativo nas páginas dos jornais, enquanto que, em termos televisivos, no chamado “prime-time”, tem havido uma multiplicação do chamado crime-time, com a teoria de que  “o crime vende”. É aqui que acaba por estar presente a tão propalada ditadura das audiências, uma expressão usada para demonstrar que as opções de programação e de escolha de conteúdos em geral se subordina aos resultados expressos nos estudos de audiência, sobrepondo-se a critérios de ordem estética ou cultural.

Enquanto estudante e analista do jornalismo que é feito a nível nacional, admito que a conferência da última quinta feira, realizada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, veio adensar as minhas preocupações quanto ao futuro do jornalismo. Com uma profissão tão marcada pela precariedade e em que dificuldade em entrar nas redações é cada vez maior, não é de estranhar que a dimensão ética esteja cada vez mais presente. Em primeiro lugar – e olhando numa perspetiva meramente mercantil, porque com as dificuldades que as empresas jornalísticas vivem – penso que não será de estranhar que esta “ditadura das audiências” esteja cada mais presente nas páginas, nos sons e nas imagens com que nos deparamos diariamente na comunicação social. Depois porque, no meio de tanta dificuldade com que os jornalistas vivem, não é de estranhar que, apenas para segurar o posto de trabalho, seja cada vez mais frequente a cedência a pressões para que determinado artigo seja ou não publicado no meio em que trabalham. E se isso pode ser moralmente condenável, por tudo aquilo que o jornalismo deve representar, realisticamente, dificilmente alguém no lugar do jornalista poderia tomar outras decisões quando é deparado com um futuro tão negro e que, em muitos casos, depende da publicação ou não daquele artigo que por vezes é incómodo para uma entidade da qual a empresa depende.

Como aspirante a jornalista, penso que é sobre isto que devemos refletir. Mais do que plataformas, é importante perceber para onde caminha o jornalismo. Enquanto defensor da democracia, esse assunto não deveria preocupar só os jornalistas mas deveria preocupar-nos a todos. Receio é que isso seja algo que dificilmente acontecerá. E isso preocupa-me.

Fontes utilizadas:

Antunes, Marco António. (2010). Ética da comunicação e ética da informação: teoria sistemática.

Branco, Alberto Manuel Vara. (2011). A ética e a informação: O jornalista como profissional e o jornalista como pessoa.

Christofoletti, Rogério. (2008). Ética no Jornalismo: Editora Contexto.

Karam, Francisco José Castilhos. (1997). Jornalismo, ética e liberdade. São Paulo: Summus Editorial.

Karam, Francisco José. (2004). A ética jornalística e o interesse público. São Paulo: Summus Editorial.

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