Quanto de verdade cabe no palco?

A edição de março/abril 2015 da Columbia Journalism Review traz uma reflexão sobre projetos que levam o jornalismo para o palco, em formato similar ao do teatro. É o caso da Pop-Up Magazine, uma espécie de “revista ao vivo”, e do “jornalismo transformado em ópera, peças e musicais” nas edições especiais do programa de rádio This American Life.

A CRJ destaca que, ao apostar em recursos da dramaturgia para contar histórias de não-ficção, essas iniciativas vão buscar no passado analógico formas de se adaptar aos desafios trazidos pela revolução digital contemporânea ­– em especial, a busca por um contato mais próximo com o público, em meio a relações cada vez mais efêmeras entre quem produz e quem consome a notícia. Nesse contexto, reeditam-se não apenas antigas técnicas para contar histórias e engajar a comunidade, mas também um velho conhecido no campo da comunicação: o debate sobre as fronteiras do real na media.

A exemplo de críticas feitas ao novo jornalismo dos anos 1960 e 1970, que recorria a técnicas literárias para contar suas histórias, questiona-se o quanto o performed journalism (como o gênero é chamado) é fiel aos acontecimentos que reproduz. E se deve, inclusive, ser chamado de jornalismo.

O processo editorial assemelha-se ao de uma plataforma tradicional, afirma Lene Bech Sillesen, autora do artigo da CJR – as histórias são apuradas, verificadas e editadas por jornalistas profissionais. Na hora de apresentá-las, no entanto, permitem-se algumas liberdades criativas. Em declaração reproduzida pela CJR, Ira Glass, do This American Life, diz que “70% a 80% são citações literais de entrevistas, o restante é invenção artística”. Em um de seus momentos mais polêmicos, o programa foi duramente criticado por uma história que se baseava em uma visita a uma fábrica da Apple na China ­– que nunca ocorreu.

À exceção de casos extremos como esse, até que ponto o jornalismo off stage é de fato mais real do que aquele levado ao teatro? Desde quando a notícia é encenada apenas no palco? Até que ponto entretenimento e jornalismo vêm gradualmente a se misturar, em práticas legitimadas pela indústria da comunicação ao longo dos anos?

“O acontecimento em estado bruto sofre uma série de transformações-construções desde o seu surgimento. Quer seja – na melhor das hipóteses ­– percebido diretamente por jornalistas ou relatado por intermediários (…), já é objeto de uma interpretação. Depois, ao entrar na máquina de informar, passa por uma série de filtros construtores de sentidos (…)”, ressalta Patrick Charaudeau em Discurso das Mídias (Editora Contexto, 2013).

Como exemplo dessa pluralidade de interpretações e traduções da realidade, o pesquisador recorre à cobertura televisiva do 11 de setembro, dramatizada como um misto de reportagem de guerra e roteiro de “filme catástrofe”, com seus heróis, vilões e vítimas caracterizados de acordo com os valores simbólicos que se pretendia transmitir – mas talvez não tão questionada como as recentes apresentações inspiradas no teatro.

Se por um lado o performed journalism suscita mais desconfiança com relação aos tênues limites entre verdade e ficção, por outro se propõe a conferir ainda mais legitimidade ao que é dito. Resultado de uma parceria entre o Center for Investigative Reporting (CRI) e a organização Youth Speaks, o Off/Page Project associa reportagens investigativas a depoimentos de jovens que compartilham, em forma de poesia oral, experiências pessoais relacionadas aos assuntos abordados.

“Em uma época de incerteza para seus negócios, as organizações jornalísticas experimentam, cada vez mais, novas maneiras de atrair e engajar o público – para alguns, isso significa subir ao palco”, destaca outro trabalho sobre o tema, esse do instituto Poynter.

Somadas a (várias) outras tentativas de alargar o conceito de jornalismo neste início de século, essas iniciativas estão a compor o complexo e multicolorido mosaico que é o jornalismo contemporâneo, com mais margens borradas do que fronteiras explícitas – entre verdade e ficção, entre jornalismo e entretenimento, entre o produtor da notícia e seu público.

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