“Ilusória sensação de saciedade de informação”

“Dantes as pessoas procuravam as notícias, é por isso que se sentavam a ver as notícias em frente a televisão e compravam o jornal, a revista e dedicavam o seu tempo a ler. Hoje em dia as noticias vão ao encontro das pessoas. É no feed do Facebook, é no twitter, é no instagram das pessoas que seguimos. Isso cria uma ilusória sensação de saciedade de informação, recebemos tanta informação de todo lado que às vezes parece demais, sendo que ao mesmo tempo nós nunca soubemos tão pouco de tanta coisa como agora. É a anarquia, o caos, um fluxo contínuo de informação, há ecrãs por todo lado, mas depois quando fazemos perguntas verdadeiramente substantivas as pessoas, elas não sabem.”

Esta é uma afirmação do jornalista da TVI, José Alberto Carvalho, no programa “Primo” da Rádio Comercial, do dia 7 de Março de 2015. O jornalista refere ainda que são muitos os desafios que são colocados à sua profissão devido à revolução tecnológica e afirma que essa adaptação está a ser “muito difícil em Portugal, desde logo porque o nível de exigência da opinião pública portuguesa não é tão elevado como gostaria, ou seja, qualquer fonte serve”.

Vivemos numa fase em que, na minha opinião, a maior parte das pessoas não lê notícias, lê títulos. Esta revolução tecnológica alterou os hábitos da sociedade e se, antigamente, as pessoas compravam os jornais e viam os noticiários, hoje quando o vão fazer (os que ainda fazem) já tiveram acesso a grande parte das notícias nas suas redes sociais. Até aqui não parece haver o problema, mas como é tanta a informação a cair nos nossos feeds, que lemos apenas títulos e talvez abrimos uma ou outra que nos desperte a atenção ou que esteja relacionada com o nosso quotidiano.

É comum abordarmos e discutirmos temas com colegas ou conhecidos e é também comum ouvirmos a resposta: “Vi esta notícia mas não abri”. É talvez a isto que José Alberto Carvalho se refere, as pessoas sabem as coisas superficialmente mas não as leem ou ouvem com atenção. Antigamente, o culto de ver o telejornal fazia com que as pessoas ouvissem do princípio ao fim, estivessem atentas e percebessem os temas. Hoje as pessoas só atentam no que lhes interessa e nos temas mais apelativos. O poder de um bom título ou um título chocante determina se o internauta acede ou não ao conteúdo.

O leitor hoje é bombardeado de conteúdos e de artigos e o trabalho do jornalista têm que se destacar porque hoje qualquer um de nós pode ser um produtor primário de informação. As próprias celebridades são notícia nas suas redes sociais. Não precisamos que as revistas/jornais falem do que elas fizeram porque nós podemos aceder a esses conteúdos sem passar pelos media. “A atividade de informação sobre a atualidade, no âmbito da esfera pública, já não é uma atividade exclusiva dos jornalistas e das empresas mediáticas nas quais a maior parte deles trabalha” (Fidalgo, 2008:2).

Com este crescendo na instantaneidade da informação e na pluralidade de opiniões e informações, a mediação, fundamental ao exercício do jornalismo, é colocada em causa, e os jornalistas, tradicionais mediadores na produção de conteúdos, têm visto o seu papel afetado pela facilidade de qualquer pessoa publicar e difundir informação. O jornalista tem que se evidenciar no meio deste excesso de informação, tem que ser credível, não se pode expor ao erro. Com tanta informação disponível na Internet qualquer conteúdo é facilmente verificado e um erro pode ser fatal para tirar a credibilidade ao jornalista e até ao órgão (dependendo da gravidade). De alguma forma o jornalismo profissional tem de se afastar e evidenciar-se do jornalismo cidadão.

Neste mundo digital, o jornalista corre o risco de ser simplista no seu trabalho devido ao excesso de conteúdos. “A abundância de informação acaba por ser um perigo pela superficialidade como tratam algumas matérias, sobretudo as que têm origem em fontes primárias encontradas ao acaso na Internet” (Conde, 2009). A facilidade de informação e o excesso da mesma não deve permitir que o jornalista não cumpra o seu trabalho de forma rigorosa e aprofundada, tal como faria para o jornal impresso. Aliás, a profundidade dos trabalhos deve ser maior, até porque não existe limite de tamanhos como numa folha de jornal. É esta profundidade e credibilidade que marcará a diferença em relação ao jornalismo cidadão.

Um texto de Jorge Pedro Sousa, com algum tempo já, afirmava o seguinte: “O jornalista pode ter deixado de possuir a função quase exclusiva de gatekeeper do espaço público informativo. Os jornais e os restantes meios jornalísticos on-line competem com um número inquantificável de sites onde é possível ir beber diretamente a informação, sem passar pelo crivo do jornalista. Assistimos à época da libertação dos conteúdos, cujos primeiros indícios se notaram aquando do escândalo Clinton-Lewinski. O escândalo rebentou no site de um jornalista marginal, o Drudge Report, e só depois os grandes jornais e revistas pegaram nele, apesar de alguns deles já terem a informação sem a terem revelado. O relatório do procurador especial que investigou o caso foi disponibilizado na Internet antes de ser tratado pelos jornais. Mas tirando casos pontuais desse tipo, em que as pessoas recorreram a fontes alternativas não jornalísticas ou para-jornalísticas para encontrar a informação que lhes interessava, no dia a dia as pessoas continuam a preferir – e eu diria até a necessitar- da informação selecionada, avaliada, hierarquizada, organizada e muitas vezes com uma mais valia de análise e de opinião que lhes é oferecida pelos jornalistas e pelos meios jornalísticos. Por isso, conforme destaquei, a concorrência entre provedores de informação na Internet contribui para modificar o jornalismo, mas também é a sua garantia de sobrevivência e de crescente qualidade.”

Estas mudanças devido à revolução digital têm que ser encaradas pelos jornalistas como um desafio, uma nova fase, mas importa referir que a Internet trouxe muito de bom à profissão. Existe agora uma proximidade entre o jornalista e o leitor/consumidor de informação e uma maior facilidade em aceder a fontes, a informação, a casos e a divulgar o seu trabalho. Todo o mundo, todos os dias tem acesso a qualquer trabalho publicado em qualquer parte do planeta, algo impossível de acontecer há alguns anos atrás.

O autor Rui Ferreira, que em 2012 escreveu a “Jornalismo e redes sociais: novas formas de distribuição e interação na imprensa portuguesa” salientou essa ligação entre o jornalista e o leitor. “Referimo-nos sobretudo às redes sociais e à forma como estes espaços foram evoluindo até se tornarem num novo modelo de distribuição jornalístico. As redes sociais, que inicialmente foram pensadas para ligar pessoas, acabaram por ser também usadas pelos jornais quando descobriram que estes espaços emulavam a vida real das pessoas e, por isso mesmo, uma parte importante das discussões girava em torno da agenda mediática. O grande número de utilizadores, as características de comunicação que cada rede comporta e a facilidade de partilha de informação despertaram o jornalismo para a potencialidade dos chamados media sociais. A crise que os meios de comunicação têm vindo a atravessar e a evolução das próprias redes sociais, levaram o jornalismo a experimentar um novo modelo de distribuição, usando para isso um canal direto com os leitores.”

Qual será o caminho a seguir pelo jornalismo para acompanhar estas mudanças devido à revolução tecnológica? É uma questão muito sensível e que será interessante acompanhar nos próximos tempos para se perceber qual o caminho que a profissão seguirá.

Artigos consultados:

Conde, M. (2009). Interactividad a toda costa. Em Jesús Miguel Flores Vivar y Francisco Esteve Ramírez, (edit), Periodismo Web 2.0, pp. 341-347

http://campus.usal.es/~comunicacion3punto0/comunicaciones/035.pdf

http://www.bocc.ubi.pt/pag/m-jornalismo-2012-rui-ferreira.pdf

http://revistas.ua.pt/index.php/prismacom/article/viewFile/754/681

http://www.ipv.pt/forumedia/5/13.htm

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