A crise justifica mesmo tudo?

Um dos temas que me captou a atenção em termos jornalísticos teve que ver com uma notícia, publicada no website do semanário Expresso, com o título: “Robôs a escrever notícias. Para onde caminha o jornalismo?”.  Como facilmente se pode constatar, não é todos os dias que nos deparamos com a possibilidade de termos algo tão sério como o jornalismo – o defensor maior de uma democracia – nas mãos de um simples aparelho tecnológico. Também por isso, é curioso que a pergunta levantada pelo semanário Expresso vá ao encontro da minha reflexão desta semana.

A problemática que a notícia do Expresso levanta tem que ver com o surgimento do “jornalismo robotizado”. Aliás, este é um tema cujo alcance temporal já se prolonga, pois em julho de 2014, uma notícia publicada pelo Diário Económico dava conta do anúncio que a Associated Press (AP) começaria, a partir daquele momento, a automatizar a maioria das notícias sobre os resultados trimestrais das empresas. Assim, essas notícias deixariam de ser escritas por jornalistas mas por robôs. O vice-presidente Lou Ferrara, explicava num comunicado citado pela agência EFE que a decisão procura que os jornalistas tenham mais tempo para cultivar as suas fontes e para desenvolver os temas com maior profundidade. Como conclusão, Ferrara garantia ainda que a medida não tem como objectivo despedir jornalistas, mas dar mais tempo aos profissionais para analisar os números e trabalhar em histórias exclusivas.

Segundo o The Verge, o sistema que a AP implementou é hoje responsável pela elaboração e publicação de 3 mil textos. Até outubro, a produção ainda passava por algum tipo de edição, mas agora a máquina é capaz de fazer todo o trabalho sozinha. A tecnologia por trás deste processo chamam-se Wordsmith e foi criada pela Automated Insights. As notas são objetivas e geralmente bem escritas, pelo que o leitor pode acreditar que foram produzidas por um humano até chegar ao final, onde, ao invés de uma assinatura, vem a informação de que aquilo saiu de um robô. As matérias não são tão elaboradas e criativas como as humanas, mas os textos sobre resultados financeiros são basicamente um amontoado de números que necessitam de ser explicados com clareza e frieza, algo que as máquinas da AP conseguem.

Em entrevista ao Expresso, António Granado – jornalista que integrou o projeto de jornalismo computacional REACTION, apoiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia – explicou em que consistem estes mecanismos. “Os robôs-jornalistas são um software capaz de extrair automaticamente informação de tabelas ou de bases de dados e, a partir deles, ‘escrevê-los’ em forma de notícia”. A explicação para o processo reside na tecnologia PLN (Processamento de Linguagem Natural) que permite acrescentar palavras, previamente ensinadas, aos dados que recolhem bem como a escolher ângulos noticiosos. Apesar deste poder ser considerado um fator novo para os utilizadores, Mário Gaspar da Silva, investigador principal do REACTION e professor no Instituto Superior Técnico, destaca que a tecnologia não é nova e que se estende a outras áreas. “Quem vai a uma estação de comboios da CP ouve as ‘notícias’ das chegadas de comboios, proveniência e destino, quanto tempo de atraso, etc. São programas simples que, a partir da informação tabular relativa ao tráfego, sintetizam textos que podem a seguir, inclusive, ser passados a sintetizadores de voz que fazem a sua leitura.”

Desta forma, o processo da Associated Press de automatização do processo jornalístico acabou por servir de mote a outras publicações. Algumas redações começaram a introduzir os verdadeiros “robôs-jornalistas”, que nunca descansam, nunca dormem, não param de escrever. Um exemplo concreto remete-nos para março de 2014 e para uma notícia – relativa a um tremor de terra, na Califórnia – que foi noticiada pelo “Los Angeles Times” antes de todos os outros jornais. A notícia – que parecia, à primeira vista, tirada de uma agência noticiosa – foi elaborada sem qualquer intervenção humana. O robô (ou software) recebeu dados de vários sismógrafos, selecionou a informação relevante e escreveu o artigo em inglês.

Lugar dos jornalistas em risco?

Admito que, quando me deparei com a notícia sobre o surgimento destes robôs, me questionei sobre a possibilidade destes robôs poderem ser a próxima arma de arremesso para as empresas jornalísticas continuarem a reduzir as redações. Para James Kotecki – diretor do departamento de relações públicas da Automated Insights – o objetivo deste sistema não é ser uma alternativa aos jornalistas, mas sim ajudá-los enquanto assistentes de pesquisa, simplificando dados por vezes complexos. Kotecki refere mesmo que softwares como este – que têm a capacidade de “escrever como um especialista humano a uma rapidez que o homem não alcança” – servem para produzir conteúdo que os humanos não conseguem, libertando-os para “trabalhos mais interessantes”.

Esta é uma opinião partilhada por António Granado, que não acredita que estes robôs substituam os jornalistas, “a não ser que os editores achem que as máquinas podem substituir o juízo humano sobre um determinado acontecimento. Ou que achem que é possível alimentar sites noticiosos apenas com informação de última hora, sem qualquer citação de fontes humanas ou reportagem no local dos acontecimentos”. Só em 2013, o Wordsmith originou mais de 300 milhões de histórias personalizadas na área do desporto, consumo, negócios e análise de sites.

As estórias contam-se com pessoas

A principal questão que se prende com estes robôs tem que ver com as questões éticas que se levantam. A credibilidade e a confiança nos media pode ficar seriamente comprometida. António Granado levanta mesmo a hipótese de alguém entrar na base de dados e poder modificar as informações, o que seria um problema gravíssimo para as redações.

É por este mesmo facto que não acredito que este seja um modelo que tenha um grande sucesso no panorama jornalístico. Aliás, penso que esta “banalização do jornalismo” – que acredito que possa acontecer se a ideia dos robôs -jornalistas tiver impacto – não vai ao encontro daquilo que o jornalismo precisa. Durante os últimos anos, não raras vezes fomos confrontados, enquanto estudantes de jornalismo e consumidores de notícias, com as transformações que as organizações mediáticas estavam a sofrer. A redução das receitas publicitárias levou à reformulação/destruição de redação. Não raras vezes fomos também confrontados com o conceito do jornalista de futuro, o “Jornalista MacGyver”, o profissional dos mil ofícios que seria confrontado com a necessidade de fazer todo o tipo de tarefas.

Enquanto estudante e analista do que é o ramo jornalístico, acredito que nesta área, como em tantas outras da sociedade, não há soluções mágicas e perfeitas. Por isso, olho para questão do “jornalista polivalente” como uma falácia pois não acredito que, para se conseguir ter bom jornalismo – aquele garanta rigor, credibilidade e profundidade de informação  -seja exequível relegar para um só profissional um conjunto de tarefas para o qual é preciso tempo.

Assim, acreditar que é possível com menos fazer mais não passa, na minha opinião, de pura demagogia das organizações mediáticas. Aliás, e ao contrário da outra falácia que se conta e com a qual se procura explicar algum empobrecimento da qualidade jornalística – que defende que se o jornalista está cada vez mais sensacionalista, é porque as pessoas assim o querem – cada vez mais acredito que há lugar para jornalismo de qualidade, haja recursos e disponibilidade para tal. Basta para isso olhar para reportagens, como “O Amor não Mata” (http://sicnoticias.sapo.pt/programas/reportagemsic/2015-03-05-O-amor-nao-mata), sobre a temática da violência doméstica; ou a reportagem “Profissão: Sniper (http://expresso.sapo.pt/profissao-sniper=f913423), publicadas por SIC e semanário Expresso, respetivamente; para perceber que, felizmente, ainda há bom jornalismo a ser feito em Portugal. Para que isso continue, é preciso tempo e disponibilidade por parte das organizações mediáticas.

Ao contrário do que aquilo que se apregoa, não acredito que para se contar boas estórias seja preciso todo o dinheiro do mundo. Basta, a meu entender, haver jornalistas a sério. Sim, daqueles em carne e osso. Não de robôs.

Artigos/Links consultados:

http://expresso.sapo.pt/robos-a-escrever-noticias-para-onde-caminha-o-jornalismo=f899262

http://jornalggn.com.br/noticia/associated-press-usa-robos-para-escrever-notas

http://www.theverge.com/2015/1/29/7939067/ap-journalism-automation-robots-financial-reporting

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