Robôs Jornalistas – Um Futuro Presente nas mãos da Tecnologia !?

Estarão as redações preparadas para um jornalismo robotizado? Serão colocados em causa os princípios éticos e deontológicos da profissão? Perder-se-ão jornalistas qualificados? Três questões que se impõem num mundo tecnológico.

Robôs jornalistas são, segundo alguns investigadores, o presente e o futuro das redações. A rapidez e eficácia que os caracteriza impõe uma autonomia e uma autossuficiência assustadoras para os profissionais do jornalismo. Sem horário de trabalho, pausas para café ou saídas em reportagem, os robôs fazem uma vénia ao taylorismo.

Em entrevista ao Expresso, o jornalista António Granado, que integrou o projeto de jornalismo computacional REACTION, apoiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, referiu: “Os robôs-jornalistas são um software capaz de extrair automaticamente informação de tabelas ou de bases de dados e, a partir deles, ‘escrevê-los’ em forma de notícia”.

Mas a novidade está também na linguagem utilizada. Sem a racionalidade própria de um ser humano, os robôs são capazes de acrescentar palavras, previamente ensinadas, aos dados que recolhem bem como escolher ângulos noticiosos. A tecnologia PLN – Processamento de Linguagem Natural – é a via para este processo.

Robôs e Jornalistas: Um desafio

As redações procuram um modelo de negócio eficaz mas a crise afetou o sector e a solução para o problema passa cada vez mais pela redução do número de jornalistas. Se os agregadores de conteúdos e os bloggers constituíam uma frente de batalha difícil de combater, os robôs jornalistas revelam-se um “osso duro de roer”.

Embora o trabalho dos jornalistas passe pela instantaneidade, velocidade e rapidez cronometrada ao segundo, os robôs jornalistas são capazes de produzir conteúdos “a uma rapidez que o homem não alcança”, explicou Kotecki, diretor do departamento de relações públicas da Automated Insights. Embora considere que os robôs não substituem os humanos, acrescenta que os liberta para “trabalhos mais interessantes.”

Exemplo desta rapidez robótica é a notícia do “Los Angeles Times” aquando do tremor de terra na Califórnia em 2014. Uma notícia, em tudo semelhante à escrita jornalística terá sido produzida por um software que através de “dados de vários sismógrafos, selecionou a informação relevante e escreveu o artigo em inglês”, antecipando-se aos demais orgãos de comunicação.

Mas estará esta situação a colocar um fim à vista aos profissionais da comunicação?

A esta questão António Granado respondeu com firmeza: Não me parece [que os robôs possam tirar lugar aos jornalistas], a não ser que os editores achem que as máquinas podem substituir o juízo humano sobre um determinado acontecimento. Ou que achem que é possível alimentar sites noticiosos apenas com informação de última hora, sem qualquer citação de fontes humanas ou reportagem no local dos acontecimentos.”

A disciplina de verificação, a capacidade de interpretar os factos, de ir ao local, conhecer os meandros dos acontecimentos, “farejá-los” e contactar com as fontes implica a existência de um jornalista. Um jornal sem jornalistas é como uma fábrica sem máquinas. Mas verdade seja dita: se os clones são uma extensão da vida, os robôs são um complemento técnico ao trabalho jornalístico.

Capacitados para selecionar e produzir informação, agem também como assistentes de pesquisa, permitindo descodificar dados complexos. Exemplo disso são: o Quill da Narrative Science, a solução da empresa francesa Yseop ou o Wordsmith (em 2013, originou mais de 300 milhões de histórias personalizadas na área do desporto, consumo, negócios e análise de sites).

A Tradição e a Tecnologia: 2 lados da “moeda” Jornalística  

O jornalismo computacional permite velocidade e simplificação mas será suficiente para garantir uma maior profundidade dos conteúdos e conferir credibilidade aos dados apresentados?

Uma enorme questão que separa dois lados de uma mesma moeda. O jornalista, profissional qualificado e orientado pelos seus princípios deontológicos, não deve ceder à pressão tecnológica que se instala nas redações. Preso a um modelo de negócio em crise, o jornalismo tem de encarar a tecnologia como uma ferramenta que permite “recolher grandes quantidades de informação, que pode depois ser sintetizada de forma a elaborar uma notícia”, segundo Mário Gaspar e Silva, professor de Engenharia Informática do Instituto Superior Técnico Mário Gaspar da Silva e investigador principal do REACTION.

Mas, a verdade é que esta relação não é novidade acabada de sair. O surgimento do jornalismo assistido por computador data de 1952, com uma análise da CBS das presidenciais norte-americanas.

E este passo foi, à semelhança do jornalismo de dados, que surgiu dez anos depois, a rampa de lançamento para o jornalismo computacional. Embora considerado um “bébé, uma realidade ainda em gestação da criação de algoritmos capazes de escrever, selecionar informação e escrever notícias, no seio jornalístico”, apenas utilizado pela Associated Press e a Forbes, Mário Gaspar e Silva antevê um presente e um futuro promissor para este jornalismo. “A síntese do boletim meteorológico, as cotações da bolsa ou a tabulação de eventos desportivos ou resultados de colocação de professores podem ser áreas onde estes robôs-jornalistas – cuja expectativa é que sejam, no futuro, cada vez mais sofisticados – podem encontrar aplicação”, explica.

A tecnologia está em todo o lado e é impossível fugir dela mas é essencial rever os prós e os contras deste novo jornalismo. O futuro é indecifrável mas estará o jornalismo disposto a abdicar da racionalidade humana? Estará o jornalismo disposto a viver dominado pela robótica? Estarão os robôs preparados para distinguir notícia e opinião? Estarão aptos a identificar pistas falsas à investigação?

Questões que por agora estão no segredo dos deuses e nas mãos dos grandes investigadores.

Fontes consultadas:

Robôs a escrever notícias. Para onde caminha o jornalismo?

http://expresso.sapo.pt/robos-a-escrever-noticias-para-onde-caminha-o-jornalismo=f899262#ixzz3UYGFKpR2

Associated Press substitui jornalistas por robôs

http://economico.sapo.pt/noticias/associated-press-substitui-jornalistas-por-robos_196852.html

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