o jornalismo no país da ficção

Tema onipresente na media nesta semana, o documentário The Jinx: the life and deaths of Robert Durst, exibido pela HBO, trouxe de volta uma questão sempre polêmica no campo da comunicação: quais os limites da estratégia narrativa no jornalismo? Produzido e dirigido por Andrew Jarecki e Marc Smerling, The Jinx investiga a trajetória de Robert Durst, milionário norte-americano suspeito de assassinar a esposa, uma amiga e um vizinho. No capítulo final, exibido no último domingo, 15 de março, Durst supostamente – e acidentalmente – confessa os crimes, dos quais sempre se disse inocente.

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“What the hell did I do”? Mr. Durst whispers to himself in an unguarded moment caught on a microphone he wore during filming. “Killed them all, of course”.

Coincidentemente ou não, Durst foi preso no sábado, 14, acusado de assassinato. Ele estava em um hotel em New Orleans, onde tinha se registrado com um nome falso alguns dias antes. A amigos, teria dito que achava que a polícia iria atrás dele: sabia que era arriscado participar do documentário, seus advogados eram contra, mas insistiu. Alegou que era uma oportunidade de contar seu lado da história.

Com o capítulo final de The Jinx – exibido em seis episódios ­–, vieram também uma série de matérias e artigos sobre o papel e a postura de Jarecki e Smerling no caso. Jonathan Mahler, do New York Times, questionou: “Em que altura os diretores compartilharam suas descobertas com a polícia?”, “Será que o trabalho judicial foi prejudicado (permitindo que suspeito continuasse em liberdade) pelo bem da história?”, “Será que o dramático final do documentário vai acabar sendo usado pela defesa de Durst, alegando que tudo não passou de encenação?”.

Citado pelo New York Times, Jarecki reforçou seu papel e o de Smerling como jornalistas e cineastas, e não agentes da lei. Segundo a matéria, a dupla descobriu o apoteótico áudio há dois anos, mas não especificou quando compartilhou a gravação com a polícia. “Quais as responsabilidades dos cineastas – ou jornalistas ­ – que se deparam com evidências que podem ser usadas como prova de culpa ou inocência durante uma investigação”?, questiona o jornal. Em outro artigo do NY Times sobre o documentário, Jeanine Pirro, procuradora que atuou no caso, faz exatamente a leitura oposta: “Esses dois produtores conseguiram o que agentes da lei em três estados não conseguiram em 30 anos”.

Na New Yorker, Emily Nussbaum analisa, a partir de The Jinx, o o conceito de verdade frequentemente associado aos documentários. Diante de um dos episódios e da forma como os diretores decidiram apresentar depoimentos e filmes domésticos feitos pela família Durst, a autora conclui: “Foi um lembrete de que tudo em um documentário é manipulado, até quando se trata de uma produção com a assinatura da HBO. Mesmo as pessoas mais sinceras sabem que estão falando para a câmera”.

Sim, sempre haverá alguém por trás dos acontecimentos a decidir e a dirigir a melhor forma de narrá-los, afirma Ty Burr, do Boston Globe, em mais uma matéria sobre o tema publicada nesta semana. Isso não é necessariamente um problema. O (bem) complicado é definir até onde ir, quais as fronteiras entre notícia e entretenimento, real e representação. “Numa sociedade em que a história mais bem sucedida é a que dá mais lucro e a que dá mais lucro é a que é contada de forma mais instigante e excitante, onde ficam os limites éticos?”, pergunta Burr.

Em entrevista ao LA Times (em outra reportagem sobre a atividade jornalística a partir de The Jinx), Joe Berlinger, co-diretor do documentário Paradise Lost, comenta o preço que se paga ao tentar conciliar esses fatores, costurando um desafiador casamento entre o trabalho de reportagem e a tentativa de ganhar audiência/lucro, entre investigação e entretenimento. “Segurar a informação propositadamente até o momento dramático ideal, recriar de forma estilizada eventos dolorosos para os envolvidos, nos colocar diante das câmeras como destemidos repórteres investigativos – tudo isso desconstrói a santidade do jornalismo”.

Essas questões agora revisitadas não são novas para o jornalismo. Exemplo emblemático é A sangue frio, romance de não-ficção de Truman Capote (leia entrevista com o autor na década de 1960) sobre o assassinato de uma família no interior dos Estados Unidos e a trajetória da dupla de autores do crime. Por um lado  aclamado como uma obra-prima do jornalismo, o livro foi também criticado pelo uso de técnicas literárias para apresentar uma história real. O que dali era mesmo verdade? Aqueles diálogos de fato aconteceram, não foram inventados? Como foram reconstituídos? Com que intenção? Até onde a relação do autor com os personagens, com quem conviveu por anos, era isenta? É possível haver isenção no jornalismo?

São debates que vão e vem com mais ou menos intensidade de acordo com os movimentos da profissão. Seja qual for o contexto, no entanto, estamos sempre a contar histórias por meio dos filtros com que as percebemos e das estratégias narrativas que escolhemos seguir (movidos por interesses e referências comerciais, políticas, culturais etc). O quanto antes deixarmos de perceber o jornalismo como verdade absoluta e explorarmos suas diversas camadas e nuances, mais completa, nessa fragmentação, será a nossa constituição do real.

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