Em busca de respostas (e de dinheiro)

Como financiar a produção online de jornalismo de qualidade? Como garantir o jornalismo independente? As questões, colocadas pelo pesquisador Caio Túlio Costa em artigo sobre novos modelos de negócio no mercado de comunicação, estão presentes em uma infinidade de outros trabalhos acadêmicos, pesquisas de mercado, conversas de corredor ou mesa de bar. Na era do chamado jornalismo pós-industrial, há uma certeza – “a velha fórmula se esgarçou” – e inúmeras tentativas de encontrar novos caminhos para a produção jornalística.

Um olhar sobre esses iniciativas revela duas expressivas formas de viabilizar a atividade no mercado digital contemporâneo: a comercialização de conteúdo e/ou serviços que rendam verba suficiente para custear o trabalho editorial; a busca de recursos por meio de crowdfunding e/ou fundos de apoio à comunicação mantidos por instituições filantrópicas, que garantam a sobrevivência do chamado jornalismo independente (aqui definido como aquele que não depende de anúncios públicos ou privados).

Entre os projetos que trilham a primeira vertente, estão organizações como Atavist e Narratively, ambas com sede nos Estados Unidos. O grupo Atavist publica na web uma longa história de não ficção por mês: é possível fazer uma assinatura (com direito a uma determinada quantidade de artigos) ou comprar cada reportagem individualmente. Paralelamente, a empresa criou e comercializa um software que permite a qualquer pessoa/empresa contar suas próprias histórias no ambiente digital sem necessariamente contar com a ajuda de designers ou programadores.

O Narratively também publica histórias de não-ficção em seu site (uma tema por semana, uma peça por dia), e conta com centenas de colaboradores free-lancers mundo afora. Entre as formas de viabilizar essas reportagens, disponibilizadas gratuitamente, está a produção de conteúdo customizado para empresas (como o vídeo sobre a nova tecnologia da GE) e native advertising (a exemplo da série de matérias sobre “recomeços” para a SundanceTV).

No grupo dos que procuram viabilizar a atividade jornalística por meio de crowdfunding e/ou verbas de instituições filantrópicas citamos duas organizações criadas recentemente no Brasil: Agência Pública e Fluxo. A Pública conta com recursos da Fundação Ford, Open Society Foundations e Omydiar Network, e declara produzir um jornalismo “sem fins lucrativos, para manter a independência”. As reportagens são veiculadas gratuitamente no site do grupo, e giram, prioritariamente, em torno de questões ligadas ao fortalecimento da democracia e dos direitos humanos.

O Fluxo segue um caminho semelhante, mas ainda menos estruturado do que a Pública, até porque mais recente (foi criado em 2014; a Pública, em 2012) – e talvez pelo próprio perfil do grupo. A organização define-se como “um campo de testes de uma nova viabilidade econômica para a produção de informação, dispensando anunciantes comerciais e buscando sua independência financeira na relação direta com a audiência”. O conteúdo é veiculado gratuitamente no site e as pessoas são convidadas a colaborar por meio de contribuições em dinheiro, produção de conteúdo e parcerias para a elaboração de reportagens, realização de cursos e outras atividades ligadas à comunicação jornalística. “Nós não confundimos o ofício com o modelo industrial, exclusivamente comercial, da imprensa — convenhamos, em franca decadência. Felizmente, grupos, nomes e modelos para um jornalismo diferente emergem todos os dias. Iniciativas de jornalismo independente não serão vistas como rivais em busca de mercado — mas como possíveis parceiros do Fluxo. Na idade de informação, em uma sociedade hiperconectada, hiperdigitalizada e hiperdiversa, acreditamos ser essa umas das fronteiras para a criação de uma nova mídia”, defende a equipe no texto de apresentação do Fluxo.

Há, ainda, exemplos de organizações (mais ou menos experientes, de maior ou menor porte) que dependem essencialmente de instituições filantrópicas, mas também desenvolveram formas de ganhar dinheiro a partir da comercialização de conteúdo e tecnologia. É o caso da ProPublica (ícone do jornalismo digital independente, com sede nos Estados Unidos) e sua Data Store, por meio da qual comercializa conteúdo do seu banco de dados/pesquisas. Outro exemplo vindo do Brasil (bemmm menor do que a ProPublica), é a InfoAmazonia, que disponibiliza, gratuitamente, um extenso acervo de dados sobre a região amazônica por meio de mapas digitais e, paralelamente, elabora mapas customizados (e pagos) por “encomenda”.

Esses são apenas alguns casos da miríade de experimentações que o novo momento vivido pelo jornalismo vêm produzindo. E quanto mais se tenta enquadrá-las para entendê-las, como arrisquei fazer acima, mais percebe-se a dificuldade de analisar (e viver) objetivamente este mercado, diante da mutação em looping que caracteriza a atividade desde o fim dos anos 1990.

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