Jornalismo de investigação: será este o caminho a seguir?

http://www.sol.pt/noticia/47837

http://www.publico.pt/media/noticia/o-jornalismo-de-investigacao-em-portugal-esta-em-crise-189878

Os links colocados em cima foram publicados pelos respetivos órgãos de comunicação social e a sua publicação dista 10 anos. O primeiro pertence ao Sol e é do ano de 2012 e o segundo do Público, do ano de 2002.

Com tão grande diferença temporal e com tantas evoluções e mudanças que o mundo e o jornalismo sofreram desde então, acho curioso o facto de ambos os artigos destacarem o mesmo: “O jornalismo de investigação está em crise”, aliás este é o título da notícia de 2002.

Muito se tem discutido este assunto, mas poucas são as conclusões a que se chega. Na minha opinião há vários fatores que estão a colocar o jornalismo de investigação de lado, reduzindo assim a qualidade do jornalismo praticado em Portugal.

No artigo do Sol, Sandra Felgueiras, jornalista da RTP, afirma: «não tenho tido todas as reportagens que quero porque não tenho orçamento para isso; mas não deixo de fazer as reportagens. se não posso ir ao havai, vou à costa da caparica». Aqui encontro um dos principais obstáculos ao jornalismo de reportagem, a falta de verbas para investir em trabalhos extensos e de qualidade, associada à falta de tempo que se vive hoje em dia nas redações. Valoriza-se a quantidade, ao invés da qualidade. Isso é notório no meio online, a importância do clique, de fazer o leitor abrir o artigo para dar audiência.

Este é um problema no jornalismo, não há tempo para trabalhos destes, trabalhos de investigação, que demoram o seu tempo e que não existe a certeza de serem bem sucedidos. E porque não há tempo? Porque as redações são curtas, têm poucas pessoas e esses profissionais são responsáveis por muitos trabalhos (de curta duração e de curto prazo) simultaneamente. Se existissem mais verbas, a possibilidade de aumentar as redações e ter Jornalismo de Investigação que se traduza em grandes reportagens, aumentaria.

Joaquim Vieira, jornalista e ex-diretor de Programas da RTP, corroborou ao Público em 2002 essa ideia: “é difícil conceber a ideia de afectar um ou dois jornalistas durante semanas a uma única história. (…) Os resultados são incertos e todo o trabalho de semanas pode não dar mais do que uma breve”.

Mas será que mais verbas resolveriam tudo?

No mesmo artigo, Joaquim Vieira falou sobre um caso que envolveu Paulo Portas e uns pagamentos a uns estudantes: “Se houvesse investigação jornalística em Portugal, os jornalistas teriam saído das redacções e iam para a rua à procura desses estudantes, faziam as contas de quanto estes tinham realmente recebido e conferiam se tais valores coincidiam com os dos cheques. Já passou um mês e ninguém publicou nada. Esta é a prova de que não há jornalismo de investigação.”

No meu entender, seria necessária sobretudo uma mudança de mentalidade das pessoas que ocupam os maiores cargos nas empresas. Um jornalista sentir-se-à mais realizado a fazer um trabalho de grande dimensão, de investigação em vez de breves ou a cobertura por vezes de acontecimentos banais, mas que fazem parte da agenda. A abertura para o jornalismo de investigação tem de partir do topo e isso não está a acontecer.

Existe uma extrema preocupação com os lucros (naturalmente),mas será que trabalhos resultantes do Jornalismo de Investigação não trariam lucros, ou melhor, mais lucros, nesta altura de crise? O jornal impresso vende cada vez menos e, talvez por isso, não há o investimento em trabalhos assim para colocar em páginas de jornais, mas o meio online está aí para ser aproveitado e para gerar lucros. Há poucos exemplos em Portugal, mas felizmente ainda vão surgindo alguns trabalhos deste género, que aproveitam todas as potencialidades da Internet. A reportagem do Expresso: “Matar e Morrer por Alá” (http://expresso.sapo.pt/jihad-pt/matar-e-morrer/) é um exemplo claro disso mesmo. O caminho não estará nestas reportagens? Nestes conteúdos?

A reportagem “O amor não mata”, (http://sicnoticias.sapo.pt/programas/reportagemsic/2015-03-05-O-amor-nao-mata), da SIC, é o exemplo televisivo disto mesmo. Numa época em que fazer scroll no facebook é passatempo e onde as pessoas têm cada vez menos tempo para sair da sua rotina, acho que estes dois trabalhos são exemplos de qualidade e que prenderiam qualquer um a ele. O caminho a seguir no jornalismo deve ser por aqui, pela qualidade, pela investigação! Pode demorar algum tempo, mas os retornos virão, e a classe e profissão só sairá beneficiada e credibilizada.

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