Redes (muito pouco) sociais

Um dos tópicos desenvolvidos em “Questões Contemporâneas do Jornalismo” teve que ver com a interligação que atualmente se estabelece entre os jornalistas e as redes sociais. A análise a esta temática está diretamente relacionada com a exponencial multiplicação dos estudos que, nos últimos anos, tem surgido sobre a importância da Internet na sociedade e a relação entre a Internet e o Jornalismo. Ainda assim, na visão de López (2007), o foco deveria centrar-se mais no jornalista e sua  relevância face aos novos contextos e processos comunicacionais.  “[…] em um mundo mais interligado, um jornalista deve ser um narrador para orientar os usuários, um intérprete para avaliar o que é realmente importante e um profissional que incentiva a participação e promove a ligação das comunidades com o meio” (Pavlik, 2005 in Lopez, 2007:115).

Para Gillmor (2004) com a chegada da Internet e a disponibilização de ferramentas de publicação a história passa a ser escrita por aqueles que previamente faziam parte da audiência. Um outro tipo de informação surge via e-mails, listas de discussão, grupos de chat, revistas electrónicas pessoais – todas fontes de notícias não padrões. “A tecnologia deu-nos ferramentas para comunicação que permite a qualquer um tornar-se um jornalista a baixo custo e, na teoria, com alcance global. Nada disto teria sido possível no passado”. O autor ressalta que a Internet, pela primeira vez, oferece a possibilidade da comunicação de muitos-para-muitos e poucos-para-poucos. Isso tem enormes implicações para a antiga audiência e para os produtores de notícia, porque as diferenças entre os dois são mais difíceis de se distinguir.

Concha Edo (2009:5) salienta que uma das características do Jornalismo na Internet que se  destaca é “a resposta das pessoas que anteriormente eram conhecidas como audiência”. Na  opinião do autor “a audiência deixou de ser passiva (Pavlik, 2001: 20), e até agora só estamos vendo o início do que está por vir a médio e longo prazo em termos de oportunidades de participação do cidadão nos conteúdos dos media com uma marca conhecida e com prestígio e também em muitos outros menos conhecidos mas também valiosos de outro ponto de vista”.  Deste modo, “os media online reúnem características favoráveis para assegurar a participação dos usuários, embora a maioria dos media existentes não tirem proveito destas características. Também parece claro que os recursos como palestras, fóruns e debates além de facilitar o contacto mais pessoal entre os jornalistas e as pessoas ou entre as entidades requeridas são também oportunidades para o intercâmbio de dados. Este é um novo tipo de público interessado em participar de várias maneiras, partilhando informação e, ao mesmo tempo, disposto a desenvolver materiais informativos” (Lopez, 2007:117).

Em contrapartida, McNair coloca um questionamento pertinente relativamente à grande oferta de informação: “No século XXI, quando tantos estão  produzindo tanto ‘jornalismo’, a maior parte online e gratuito, como vamos reconhecer a qualidade em meio a quantidade de informação disponível? Se a fronteira profissional-amador se dissolve, quem ou o quê vai fazer a produção de sentido e as mudanças da complexa realidade que tem sido um das principais funções do jornalismo? Simplificando, como vamos saber em quem confiar?” (McNair, 2009:348-349).

Se antes tínhamos nas redações o que Wolf (1992 in Brambilla, 2005:9) considerava um distanciamento equivocado entre jornalista e público: “… os jornalistas conhecem pouco o seu público; mesmo que os órgãos de informação promovam pesquisas sobre as caraterísticas da audiência, os seus hábitos e as suas preferências, os jornalistas raramente as conhecem e pouco desejam fazê-lo” (p. 188-189). Outro apontamento quanto ao papel do jornalista é feito por Kovach e Rosenstiel (in Rosenberry, 2005: 64) que descrevem que “à medida que os cidadãos encontram um fluxo cada vez maior de dados, eles têm mais necessidade – não menos – de fontes reconhecidas dedicadas a verificar aquela informação, salientando o que é importante saber e filtrando o que não é. O papel da imprensa nesta nova era baseia-na na necessidade de responder à questão “onde está o bom material?”. A verificação e a síntese tornam-se a espinha dorsal do novo papel do gatekeeper do jornalismo, o de fazedor de sentido (sensemaker)”. Com efeito, nesta visão de Gillmor (2004), os jornalistas terão de aprender que fazem parte de algo novo e que os leitores/ouvintes/ telespetadores estão a tornar-se parte do processo.

Redes sociais: oportunidade ou ameaça?

A interligação entre os meios de comunicação tradicionais e os meios sociais é evidente. Neste contexto, evidenciam-se conceitos como “mass self communication (Manuel Castells, 2009) – coexistência entre a comunicação individual e de massas – e “comunicação em rede” (Gustavo Cardoso, 2009) – fusão da comunicação interpessoal e em massa, ligando audiências, emissores e editores sob uma matriz de media em rede (Rodrigues, 2010). Reportando-se às redes sociais, Catarina Rodrigues alerta para os desafios que estas colocam à atividade jornalística: “O número de utilizadores de redes como o Twitter e o Facebook permite equacionar questões fundamentais no jornalismo como o relacionamento com as fontes, a ampliação, valorização e distribuição de conteúdos, a fidelização dos leitores e a velocidade informativa” (Rodrigues, 2010). A autora defende mesmo que “a utilização do Facebook pelos media é um dado adquirido, nomeadamente como agregado de notícias, como plataforma de difusão de informação e até como uma forma de captar leitores (Rodrigues, 2010). João Canavilhas acrescenta que “as redes sociais facilitam uma mudança na forma como os utilizadores se relacionam com os meios de comunicação, fortalecendo assim os vínculos”. Para Canavilhas, “este enfoque melhora a transformação das audiências em comunidades, situação que tende a gerar lealdade dos consumidores pelo sentimento de pertença a uma comunidade informativa” (Canavilhas, 2011).

Vem aí regras para as redes sociais

A partir dos dois tópicos abordados neste texto, percebemos, a partir da introdução de diversos autores, que atualmente o panorama jornalístico é cada vez mais composto pela forte presença das redes sociais. Por isso, nesta semana decidi abordar uma notícia que saiu no site do Expresso no passado dia 28 de março. Nessa notícia, o jornal dava conta de que órgãos de comunicação como o Diário de Notícias, o Expresso, a SIC e a TVI já começam a discutir os primeiros códigos de conduta para regular a atividade dos seus jornalistas nas redes sociais.

A questão que se coloca prende-se naturalmente com os exageros que a ligação entre os jornalistas e as redes sociais podem trazer ao próprio profissional. Basta recordar um exemplo: José Gabriel Quaresma, jornalista da TVI, colocou na sua conta de Facebook a mensagem “Mete uma bomba no avião”, num comentário a um post de um amigo que gozava com adeptos do Sporting que regressavam de um jogo no estrangeiro. Na altura, foram vários os comentários de pessoas indignadas que, em pleno mural do jornalista nesta rede social, criticavam José Gabriel Quaresma pelo seu comentário “infeliz”. O caso teve tantas repercussões que foi inclusivamente algo de notícias por parte de outros órgãos de comunicação social (ex: Correio da Manhã) e levou a que o jornalista da TVI tenha mesmo suspendido a sua conta nesta rede social.

Este é apenas um dos exemplos e que nos leva a questionar se “pode um jornalista que acompanha temas políticos escrever no Facebook que um deputado é um imbecil?” Ou uma repórter ligada à área desportiva pode partilhar no seu Twitter a sua felicidade por uma vitória do Benfica?. As questões podem ser simples mas as respostas são extremamente complexas, sobretudo porque introduzem dois tópicos que se relacionam: liberdade de expressão e ética jornalística. Os dois conceitos não se podem dissociar e neste caso, todo e qualquer análise que seja feita tem que se debruçar sobre essas duas premissas. O debate entre a liberdade pessoal e as obrigações profissionais dos jornalistas no contexto digital é antiga e já inclusivamente foi objetivo de discussão nas aulas de “Questões Contemporâneas do Jornalismo”.

Numa rede social como o Facebook (a rede social mais utilizada em Portugal), e pegando na relação cada vez mais forte entre jornalista e utilizador – muito em virtude da possibilidade de qualquer utilizador poder comentar todo o conteúdo partilhado – é importante perceber qual a barreira que deve existir entre o jornalista e o cidadão. Ou seja, peguemos num exemplo muito concreto: se, no caso das dívidas de Passos Coelho à Segurança Social, um qualquer jornalista colocar um comentário no seu mural sobre a temática, deve responder por todos os comentários dos seus “amigos” no Facebook e respetivas respostas que possa querer dar a um qualquer comentário que seja escrito na caixa de comentários?

Em termos concretos, se existirem excessos de linguagem durante a discussão – algo normal quando se está numa rede social com muitos “comentários” – deve atribuir-se este possível excesso de linguagem ao jornalista x ou ao cidadão x que está na sua conta pessoal de Facebook? Será que o espetador comum sabe distinguir as duas pessoas ou acabará por atribuir um qualquer comentário “à mesma figura”, levando a possíveis juízos de valor? Pode o jornalista invocar o estatuto de mero cidadão se identificar nessa rede social a sua profissão e onde a exerce? E se tiver milhares de seguidores, pode sustentar que a conversa era pessoal? E a sua direção de informação pode pedir-lhe satisfações?

As questões são muitas e as dúvidas também. As redes sociais mudaram a forma de entender a comunicação e, atualmente, redes como o Twitter, Facebook, Youtube ou Instagram são ferramentas que abrem um leque de possibilidades para divulgar, entreter e informação mas também para interagir com os utilizadores. Em Espanha, a TVE foi pioneira no controlo das redes sociais: os serviços interativos da cadeia público estiveram na vanguarda desta inovação, a partir da forte interligação com os espetadores. Ainda assim, a nova direção da TVE aponta agora para novas normas internas que exercerão um controlo mais intenso. A partir de agora, as contas oficiais dos programas devem ser autorizadas pela Direção de Comunicação e Relações Institucionais, sendo que o diretor de cada programa do canal comunicará a esta direção quem é o responsável pela gestão da conta de cada um dos programas.

Sob o selo da televisão espanhola, a partir de agora não será possível compartilhar qualquer notícia que não seja extraída do site da TVE, em nenhum formato: texto, fotos, áudio e vídeo. Para muitos, esta medida é um retrocesso na relação entre jornalistas e utilizadores, pois as redes sociais são ferramentas participativas que transformam as pessoas em parte do processo jornalístico. Estas novas regras para os trabalhadores públicos da televisão espanhola acabarão por originar uma diminuição na possibilidade de interação com outros utilizadores, anulando o valor de compartilhando de informações de meios internacionais de forma ágil. Como consequência, esta medida da TVE acaba por desencorajar o uso das redes sociais por parte dos seus jornalistas, correndo o risco de ver os profissionais mais ativos nas redes sociais acabarem por sair da marca TVE, provocando um retrocesso no futuro desta marca, visto os perfis profissionais causarem mais empatia junto dos utilizadores do que os perfis institucionais.

As dúvidas são muitas mas, como já vemos a partir do caso da TVE, é cada vez mais real a possibilidade de termos os órgãos de comunicação nacionais a “controlarem” a “vida social dos seus profissionais. Se meios internacionais como o “New York Times”, o “Guardian” ou o “Washington Post” já ensaiaram respostas nos últimos anos – através da criação de códigos de conduta para os seus jornalistas -, em Portugal esse debate apenas começa agora. Segundo o Expresso, o Diário de Notícias, o Expresso e a SIC vão avançar nos próximos meses com normas sobre a presença dos seus jornalistas nas redes sociais; a direção de informação da TVI está a discutir o tema; e o Conselho Geral Independente (CGI) da RTP admite colocá-lo na agenda.

Como em qualquer outro assunto, creio que a chave para a resolução deste tema prende-se na ponderação que deve existir entre jornalistas, utilizadores e direções de informação. Na minha opinião, o jornalista deve controlar-se no tipo de posts e linguagem que utiliza, tendo em conta o público para que se dirige e que, grosso modo, ainda não consegue distinguir o jornalista do cidadão; o utilizador deve ter uma literacia digital maior, pelo que deve conhecer as barreiras que existem entre o jornalista e o cidadão, sendo que as diferenças devem existir e devem ser respeitadas, sem que o profissionalismo do jornalista seja posto em causa; as direções de informação devem ter um papel regulador, orientado os seus jornalistas para um linha consentânea e que, simultaneamente, respeite a liberdade de informação do jornalista e que não ponha em causa a imagem que o profissional e a empresa podem passar para os espetadores. Bem sei que a tarefa não será fácil mas, como em muitas outras temáticas, penso que a chave para este processo estará na boa vontade e na flexibilidade que deve existir entre as partes. E sempre com a liberdade e o respeito acima de qualquer outra coisa.

Links consultados:

http://blogs.lainformacion.com/telediaria/2015/03/27/tve-regula-el-uso-de-twitter-por-sus-empleados-para-un-mayor-control-editorial/

http://expresso.sapo.pt/vem-ai-regras-para-os-jornalistas-nas-redes-sociais=f917303

http://www.bocc.ubi.pt/pag/aroso-ines-2013-redes-sociais-ferramenta-jornalismo.pdf

Fontes utilizadas:

BASTOS, Helder (2005) ‘Ciberjornalismo: Dos Primórdios ao Impasse’, paper apresentado na Conferência Dez Anos de Jornalismo Digital em Portugal: Estado da Arte e Cenários Futuros’. Braga, 2–3 de Junho.

BRAMBILLA, A. M.(2005). Jornalismo open source em busca de credibilidade. In: Intercom 2005 – XXVIII Congresso Brasileiro  Interdisciplinar de Ciências da Comunicação. Rio de Janeiro.

CANAVILHAS, João (2011), “Del gatekeeping al gatewatching: el papel de las redes sociales en el nuevo ecossistema mediático” in Periodismo Digital: convergencia, redes y móviles.

EDO, C. (2009). La noticia en Internet: cibermedios, blogs y entornos comunicativos emergentes. in Biblioteca Online das Ciências da Comunicação.

GILLMOR, D. (2004) – We the Media – Grassroots Journalism by the People, for the People [online]. Disponível em: http://www.authorama.com/we-the-media-1.html

MCNAIR, Brian (2009). Journalism in the 21st century – evolution, not extinction. Journalism  10, June. 347- 349. DOI: 10.1177/1464884909104756

ROSENBERRY, J. (2005) – Few Papers Use Online Techniques to Improve Public Communication. Newspaper Research Journal. Vol. 26, nº 4, p. 61-73.

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