A verdadeira violação foi a do jornalismo

Em 1997, o Comité de Jornalistas Preocupados, uma organização à data administrada pelo PEJ, iniciou um debate nacional entre cidadãos e pessoas relacionadas com a produção de notícias com o objectivo de identificar e esclarecer os princípios fundamentais do jornalismo. Depois de quatro anos de investigação – que incluíra 20 fóruns públicos em todo o país, uma análise da história do jornalismo e um inquérito nacional a jornalistas, entre outras actividades – o grupo lançou a Declaração de Intenções Partilhadas, na qual identificou nove princípios.

O propósito central do jornalismo consiste em fornecer informações precisas e confiáveis aos cidadãos, o que os ajudará a operar numa sociedade livre.Isso abrange uma miríade de tarefas – ajudar a definir a comunidade, criar uma linguagem e um corpo de conhecimento comuns, identificar objectivos de uma comunidade, heróis e vilões, e pressionar as pessoas para irem além da complacência. As Intenções passam também por outras questões, como o entretenimento, servir como quarto poder e dar voz aos que não a têm. Os jornalistas desenvolveram nove princípios fundamentais para atender às necessidades dessas tarefas. Os princípios integram o que poderia designar-se teoria do jornalismo e que estão na base do livro “The Elements of Journalism”, de Tom Rosenstiel – director do PEJ – e Bill Kovach – Presidente do CCJ e Conselheiro Senior do PEJ. Conforme a Declaração de Intenções Partilhadas, esses princípios são:

1 – A verdade (Os jornalistas devem ser tão transparentes quanto possível relativamente a fontes e métodos para que o público possa avaliar por si mesmo a informação); 2 – Lealdade para com os cidadãos (A teoria subjacente à indústria de notícias moderna assenta na crença de que a credibilidade constrói um público amplo e leal, o que, por sua vez, resultará em sucesso económico); 3 – Verificação (A busca de vários testemunhos, a divulgação da máxima informação possível sobre fontes, ou o comentário de várias facções sobre o mesmo assunto); 4 – Independência (uma exigência subjacente ao jornalismo, a pedra angular da sua validade. Independência no espírito e na mente, ao invés de neutralidade, é o princípio que deve guiar os jornalistas); 5 – “Watchdog” (O jornalismo tem uma capacidade incomum de vigiar aqueles cujo poder e posição poderão afectar os cidadãos); 6 – Mediadores do debate público (deve esforçar-se para representar de forma justa os vários pontos de vista e interesses presentes na sociedade, contextualizando-os, em vez de destacar somente as franjas conflituosas do debate); 7 – Tornar relevante o que é signficativo ( A sua actividade deve ir além da simples reunião de audiências ou do catálogo de coisas importantes. A sua sobrevivência depende do equilíbrio entre o que os leitores sabem que querem e aquilo que não podem antecipar, mas de que precisam); 8 – Profundidade noticiosa (uma cobertura noticiosa proporcional e que não deixe assuntos importantes de fora) e 9 – Permissão para expressar a sua consciência pessoal (Todo jornalista deve ter um sentido pessoal de ética e responsabilidade – uma bússola moral).

Apesar destes princípios que devem reger a atividade jornalística, não raras vezes somos confrontados com exemplos de como estas premissas podem ser respeitadas à luz de um interesse comercial, intrinsecamente relacionado com o jornalismo. O caso trazido para esta reflexão prende-se com um artigo publicado a 19 de novembro de 2014 pela revista Rolling Stone, intitulado “A rape on campus: A Brutal Assault and Struggle for Justice at UVA” e que agora se descobre que atentou contra um dos baluartes do jornalismo: a credibilidade informativa.

A reportagem, assinada pela jornalista Sabrina Rubin Erdely, e entretanto retirada do site da Rolling Stone, conta a história de uma aluna da Universidade da Virginia identificada como “Jackie”, que diz ter sido violada por sete elementos da fraternidade Phi Kappa Psi numa festa, em Setembro de 2012. Assim que foi publicada, em Novembro do ano passado, a história chocou o país e passou a ser usada como exemplo da falta de investigação e punição nas universidades norte-americanas para casos de violação e outros tipos de de violência, especialmente contra alunas – um mês antes, as autoridades tinham encontrado o corpo de Hannah Graham, uma outra aluna da Universidade da Virginia, que desaparecera a dois quilómetros do campus universitário. Nos Estados Unidos, existe a consciência de que estudantes violam estudantes nas universidades. Por isso, a intenção da jornalista era expor essa “cultura generalizada de assédio sexual/violações” nas universidades norte-americanas, em particular na Universidade da Virginia, através de “um único e emblemático caso de violação”, de acordo com os apontamentos da própria jornalista, disponibilizados pela revista Rolling Stone.

A Universidade da Virgínia, acusada de não ter ligado às queixas da aluna, resolveu dissolver as irmandades da escola e iniciar um rigoroso inquérito. No entretanto, mais “media” começaram a publicar depoimentos à volta do caso, trazendo outra luz, a de que algo estava errado na história da Rolling Stone (RS) – e não era só o facto de esta apenas contar uma versão, a da suposta vítima. A investigação criminal, instaurada depois da publicação do artigo, e que durou quatro meses, não revelou qualquer indício de que a violação tenha ocorrido. Ainda assim, o chefe da polícia local, Timothy Longo, deixou a ressalva de que isso não quer dizer que «não tenha acontecido algo terrível» à estudante.  No mês passado, a polícia de Charlottesville anunciou publicamente que suspendia a investigação por não ter provas sobre qualquer incidente na irmandade, a qual já conseguira provar não ter realizado qualquer festa naquela noite de setembro. Mas deixou em aberto que algo se pode ter passado, só que não da forma que foi contado. Por isso, o caso não foi arquivado.

O problema da revista foi a de ter cedido ao pedido da jornalista, que começou por ceder a um pedido da suposta vítima para não a sujeitar a mais humilhação e não contactou nenhum dos rapazes a quem Jackie apontava o dedo. A 5 de dezembro de 2014, cerca de duas semanas após a revista norte-americana ter publicado a história, a RS lamentou o erro e pediu desculpa “a todos quantos possam ter sido afetados pela história”. Numa nota aos leitores, o editor responsável Will Dana justificava a decisão dizendo que a versão de Jackie era corroborada por colegas e ativistas contra as agressões sexuais no campus. Face ao erro, a revista resolveu encomendar um estudo à Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia, cujo reitor é o jornalista Steve Coll, vencedor de um Pulitzer. Pretendia saber onde errara, já que editores da casa tinham confirmado a versão de Jackie (nome pelo qual a vítima é referida), confrontando-a para apanhar discrepâncias. «O falhanço jornalístico», como lhe chama o relatório, foi escrito num artigo que descreve o caso de Jackie como “um erro jornalístico evitável, que inclui a reportagem, a releitura, a supervisão editorial e a confirmação dos factos”. O documento conclui que a revista não usou «rotinas jornalísticas básicas» depois de a autora não ter conseguido sequer contactar os alegados violadores. O «fracasso abrangeu relatos, edição, supervisão editorial e verificação dos fatos», diz o documento que adianta que existiram «falhas sistemáticas» na revista.

“Ao longo dos meus 20 anos de trabalho como jornalista de investigação (…) lidei várias vezes com questões e fontes sensíveis. Ao escrever cada uma dessas histórias, tenho de confrontar a minha compaixão com o dever jornalístico de descobrir a verdade. No entanto, no caso de Jackie, e do seu relato de uma violação traumática, não fui suficientemente longe na verificação da sua história. Deixei que a minha preocupação com o bem-estar de Jackie, o meu receio de voltar a traumatizá-la e a minha confiança na credibilidade dela deixassem para segundo plano o trabalho de levantar mais questões e procurar mais factos. São erros que não voltarei a cometer”, justificou Sabrina Rubin Erdely, que não vai sofrer qualquer sanção disciplinar.

“O problema foi a metodologia, agravado por um ambiente em que vários jornalistas com décadas de experiência não levantaram nem debateram problemas sobre o seu trabalho”, lê-se no relatório, assinado por três especialistas, entre os quais Steve Coll, director da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia e vencedor de dois prémios Pulitzer. A investigação não encontrou qualquer indício de que a Rolling Stone teve a intenção de inventar a história. O problema parece ter sido a confiança cega no trabalho e na experiência de cada um dos envolvidos – do editor na jornalista; do director no editor; e do departamento de “fact-checking” (responsável por verificar a veracidade dos pontos mais sensíveis da reportagem) nos restantes profissionais. Citada no relatório, a responsável pelo departamento de “fact-checking” daRolling Stone, Coco McPherson, confirma essa ideia: “Ela disse que tinha confiança em todos os envolvidos, e que não viu necessidade em levantar quaisquer questões junto dos editores.”

Apesar deste caso, a direcção da RS não vai alterar os seus procedimentos, nem anunciou sanções disciplinares. A presidente da universidade da Virginia também reagiu ao caso, considerando que este é um caso de ” jornalismo irresponsável que injustificadamente manchou a reputação de muitos inocentes e da universidade”. O caso da revista Rolling Stone está também a preocupar os estudantes e as organizações que lutam por uma maior transparência nas investigações a casos de violação, em particular nas universidades dos Estados Unidos – muitos temem que futuras vítimas possam recusar-se a denunciar os crimes com receio de virem a ser acusadas de estarem a mentir, apesar da taxa de de falsas denúncias não ultrapassar, nos EUA, os 8%.

Fontes utilizadas:

http://expresso.sapo.pt/anatomia-de-um-falhanco-jornalistico=f918824

http://futurojornalismo.org/np4/45.html#.VSY33fldVW8

http://www.tvi24.iol.pt/internacional/violacao/o-falhanco-jornalistico-da-rolling-stone

http://www.publico.pt/mundo/noticia/rolling-stone-pede-desculpa-e-retira-artigo-sobre-violacao-1691536?page=-1

http://web.archive.org/web/20150404090041/http://www.rollingstone.com/culture/features/a-rape-on-campus-20141119

http://www.rollingstone.com/culture/features/a-rape-on-campus-what-went-wrong-20150405

http://www.sabado.pt/vida/detalhe/rolling_stone_pede_desculpa_por_reportagem_sobre_violacao_colectiva.html

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