Jornalismo 3.0 – agregação, fábricas de conteúdo e Huffinização- O crescimento do jornalismo mal pago e gratuito

Nos dias de hoje, estamos cada vez mais cientes da realidade que atravessamos: um mundo globalizado, que procura responder a sucessivas crises financeiras da forma mais criativa e rentável possível. Naturalmente que a atividade jornalística não escapa a essa realidade. No século XXI, os jornalistas devem saber trabalhar em diferentes plataformas, recolhendo diversa informação nas mais variadas fontes, utilizando para isso essa imensidão de conceitos e recursos que é a Internet e os respetivos sites e redes sociais.

O texto de Piet Bakker, da Universidade de Amesterdão, intitulado New journalism 3.0 – aggregation, content farms and Huffinization, oferece-nos uma visão interessante desse fenómeno que é o Jornalismo 3.0 e das consequências que as mudanças na forma de produzir e distribuir notícias acabam por afetar o chamado jornalismo tradicional e o próprio trabalho dos jornalistas. Bakker divide o tema geral em três conceitos: agregação, fábricas de conteúdo e Huffinização.

A agregação é feita por humanos ou máquinas e consiste na descoberta ou republicação de um conjunto de notícias. No fundo, tratam-se de sites que reúnem as notícias de vários órgãos e as voltam a publicar, inteiras ou em parte, muitas vezes conectando essa notícia ao link original. Um dos exemplos mais conhecidos de agregação é o Google News, embora existam outros registos a nível global e local.

As fábricas de conteúdo ou «content farms» são uma forma de produção noticiosa muito comum nos Estados Unidos. Empregam freelancers, cidadãos comuns, não-jornalistas, bloggers ou escritores em part-time que produzem artigos ou textos sobre determinadas matérias que se esperam que estejam no topo das pesquisas dos motores de busca e que sejam canalizadas para os sites que oferecem esse serviço. Já o termo Hufinização surge do fenómeno do jornal Huffington Post, órgão reputado de notícias online nos EUA e que recorre sobretudo ao trabalho de bloggers e jornalistas mal pagos ou nem sequer pagos.

Estes três fenómenos elucidam-nos bem acerca do paradigma de mudança que o jornalismo atual vive. Gerar lucros tem sido complicado para grande parte das empresas de produção de conteúdo noticioso online, o que leva a que estas tenham de recorrer a métodos como a subscrição, a publicidade ou a sponsorização. O objetivo prioritário das organizações noticiosas passa por produzir o máximo de conteúdo ao mínimo custo possível.

Isto coloca diversos problemas aos órgãos de comunicação social, que muitas vezes têm de readaptar as suas redações, substituindo jornalistas mais experientes por bloggers ou voluntários mal remunerados mas eficazes ou focalizando o trabalho dos jornalistas para as suas versões impressas e deixando o online a cargo desses trabalhadores mal pagos ou não pagos.

A tecnologia representa também uma mudança importante nos dias que correm. Hoje em dia, já é possível selecionar os conteúdos noticiosos mais rentáveis de forma automática, através de sistemas de otimização na web, sem recurso à mão humana. Do ponto de vista competitivo, fazer esta atualização representa um avanço significativo para as empresas noticiosas hoje em dia.

Num mundo ideal, os órgãos noticiosos iriam preferir ter profissionais especializados que produzissem conteúdos de grande qualidade e estes fossem pagos. No entanto, a concorrência dos meios que distribuem conteúdos para as massas gratuitamente impede que esse cenário seja uma realidade e obriga a uma readaptação dos meios de comunicação social, ao nível do online.

No fundo, este modelo de jornalismo assente em pagamentos baixos ou num jornalismo gratuito não é mais do que uma forma de produzir mais a um custo cada vez mais baixo. Hoje em dia, chegamos a ter conteúdos de qualidade ao nível do jornalismo online produzidos por bloggers ou voluntários que nem um cêntimo veem no final desse trabalho. E isso sim, concordando com as palavras de Bakker, é que nos deve deixar, de certa forma, desconfortáveis…

Bibliografia e Webgrafia:

Bakker, Piet, New journalism 3.0 – aggregation, content farms and Huffinization – The rise of low‐pay and no‐pay journalism (2012), Hogeschool Utrecht, University of Amsterdam: http://www.mediafutureweek.nl/wp-content/uploads/2012/05/whitepaper-New-Journalism-30-HU.pdf

Picard, Robert G. (2010). Value Creation and the Future of News Organizations; Why and how journalism must change to remain relevant in the twenty-first century. Lisbon: Editora MediaXXI.

Picard, Robert G. (2010). Content Farms and the Exploitation of Information. The Media Business. themediabusiness.blogspot.com/2010/12/content-farms-and-exploitationof.html

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