Os desafios da “Alentejana”

O jornalismo não vive só de teoria. Aliás é tudo menos teoria. O jornalismo não é uma ciência exata. O jornalismo vive do momento, do acontecimento e cabe ao jornalista encarar cada situação da melhor maneira possível. Como sou da opinião que para além da teoria a prática é muito importante, hoje trago-vos a minha experiência num dos maiores acontecimentos desportivos do Alentejo. Trata-se obviamente da prova rainha do ciclismo,  aquela em que muitos ciclistas optam por participar como forma de “estágio” a outras competições nacionais e internacionais.

A “Alentejana” como é apelidada decorreu entre os dias 25 a 29 de março  e contou com o maior pelotão de sempre da história do ciclismo nacional. Nunca uma competição nacional de ciclismo contou com 180 corredores que durante cinco dias percorram mais de 800 quilómetros nas deslumbrantes planícies alentejanas. Cinco etapas onde os distritos de Portalegre, Évora e Beja ganharam relevo com passagens importantes pelos concelhos circundantes como Castelo de Vide, Montemor-o-Novo, Portel, Mértola, Vila Nova de Santo André, Alcácer do Sal e a atual Cidade Europeia do Vinho, Reguengos de Monsaraz (local da última etapa da Volta ao Alentejo em Bicicleta).

Avizinhava-se uma volta sem grandes complicações, sem muitos altos e baixos, sem grandes sobressaltos, ou seja sem grandes dificuldades. No entanto não foi isso que aconteceu, esta foi uma volta atípica no que toca a quedas. É perfeitamente normal numa prova de ciclismo existirem quedas, o que não é normal são quedas constantes em locais sem problemas. Algumas das quedas levaram mesmo à desistência de alguns ciclistas devido ao seu estado físico, levando quatro ciclistas ao hospital.

Fora estas grandes complicações da volta ao Alentejo é importante começar por explicar ou dar algumas luzes sobre o acompanhamento jornalístico da volta.

Acima de tudo é importante em qualquer trabalho que se faça um estudo profundo das matérias que vão ser abordadas.

Numa primeira fase interessava-me perceber quais eram as particularidades desta edição, depois as equipas e os respetivos ciclistas, as etapas, a história da competição e outros pormenores intrínsecos a esta competição, nomeadamente o regulamento da prova.

Feito este trabalho que leva um jornalista a gastar várias horas e dias de estudo, altura de partir para o local e pedalar com os ciclistas. Resta dizer que fiz o acompanhamento para a Rádio Campanário, rádio onde colaboro no momento. Tal como o próprio nome indica, pressupõe-se que o acompanhamento seja focado unicamente na rádio. Em certa parte está correcto, ora não fosse esta rádio uma rádio que dá primazia à imagem. Para além da fotografia, este ano tivemos o vídeo. No início pensei que fixe termos tantas plataformas juntas, vamos ser os únicos a cobrir a volta desta forma. Até fomos, mas isto acarreta muito trabalho, muita ginástica, muito “à vontade” para controlar a pressão dos diretos e sobretudo muita seriedade e profissionalismo para aquilo que nos comprometemos a cobrir. Não podemos fazer fotos e vídeo nos dois primeiros dias e depois nos outros já não fazer. Ou fazemos ou não fazemos! É trabalhoso, sim é, mas temos que seguir a nossa conduta profissional até ao último direto. Foi isso que fizemos, eu e a minha colega.

Foram muitos quilómetros, porque além dos km’s das etapas que já eram mais de 800 juntando os que fizemos extra volta ao Alentejo, porque íamos e víamos para casa todos os dias foram à vontade 2000 km em cinco dias de prova. É natural que o cansaço seja visível e foi, mas cabia-me a mim a responsabilidade de não transparecer isso para os ouvintes. Digamos que tinha uma dupla responsabilidade, para além de estar em direto todo o dia, de fazer os planos das imagens era também responsável por comandar as operações em estúdio e no exterior. Nada podia falhar, até porque essa palavra não consta no meu dicionário.

O nosso trabalho começava sempre uma hora e meia mais cedo do que o dos ciclistas. Começávamos por chegar ao local e montar o material de reportagem (tripé, câmaras, microfones, auscultadores e outros utensílios necessários). Começavam os primeiros diretos do local da partida onde eu fazia um resumo da etapa do dia anterior, os principais acontecimentos e só depois focava a etapa que estava prestes a começar. Durante essa hora os ciclistas assinavam o tradicional livro de ponto, reuniam-se pela última vez com os seus colegas e respetivos directores de equipa, nesta altura para além dos diretos tínhamos que fotografar e filmar ao mesmo tempo que entrevistava alguns ciclistas, director de prova e comentador de serviço.

Durante este período nem um café chegava para tanta correria que se vivia. Feito este momento, a comitiva da comunicação social era obrigada a seguir primeiro que os ciclistas por isso 7 minutos antes de partirem já nós tínhamos partido. Tínhamos connosco um rádio que nos dava indicações do estado dos ciclistas e das respetivas fugas existentes ao longo do percurso. Eram essas informações embora mais resumidas que fazia questão de chegar em todos os directos que fazia a todas as horas. Foram tantos os diretos que lhes perdi a conta.  Feito todo o percurso da etapa e chegando primeiro que os ciclistas ao local de chegada, momento de montar novamente o material e ir para a linha da meta já em direto aguardar a chegada dos ciclistas e com isso dizer em primeira mão o vencedor da etapa.

Relatado o momento, altura de captar imagens do pódio e das respetivas entregas de camisolas que simbolizam a liderança em tempo, pontos, montanha e juventude. Terminado este momento simbólico, chegou o momento das entrevistas rápidas com os vencedores da etapa, comentários do Joaquim Gomes e José Alves (comentador e locutor do rádio-volta(rádio que dava informações da volta)).

Todo este estimulante serviço dá muito trabalho e muitas noites mal dormidas, mas que depois são recompensadas com o diretor da volta ao Alentejo e Portugal, Joaquim Gomes, a considerar-nos a rádio oficial da volta pelo nosso exímio trabalho. É necessário muito esforço, muita paixão por aquilo que se faz, muito estudo para que o nosso trabalho seja o mais acutilante possível para quem nos ouve ou vê!!

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