Somos todos o quê afinal?

A 7 de janeiro de 2015, o mundo assistiu a um dos ataques mais violentos contra um órgão de comunicação social. Três homens entraram no Charlie Hebdo e mataram o director do jornal e alguns dos cartoonistas que nas últimas décadas colocaram a publicação na mira do extremismo islâmico. Polémico pela sátira persistente, alimentada pela publicação de caricaturas de Maomé, nada, nem mesmo ataques às suas instalações e inúmeras ameaças de morte, deteve a publicação de manter a sua linha. Após o ataque terrorista, perpetrado pelos irmãos Said e Chérif Kouachi, a frase “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie) foi difundida em textos ou imagens na comunicação social mas também nas redes sociais, após a morte de 12 pessoas num ataque ao jornal francês Charlie Hebdo, nesta quarta-feira, em Paris. As fotografias de perfil no Facebook foram  trocadas por quadrados pretos e alguns órgãos de comunicação social manifestaram a sua solidariedade da mesma forma. Os cartoonistas estiveram unidos numa luta pela liberdade de expressão.

No que diz respeito aos media, sites noticiosos e televisões fizeram acompanhamentos em direto, foram enviados jornalistas para o terreno, os líderes políticos atropelam-se para prestar homenagens. Em França, o jornal Libération e o Le Monde abriram o seu site com a frase “Somos todos Charlie”, que repetiamm no seu perfil no Facebook. No Figaro, tudo parou durante um minuto para uma homenagem em silêncio às vítimas. Nos países vizinhos de França, como Espanha, jornais como o El País manifestaram a sua solidariedade através de cartoons criados pelos seus colaboradores. Em Portugal, o jornal PÚBLICO, a SIC Notícias, o semanário Expresso, o jornal I e a TVI estiveram de luto pela morte de colegas de profissão franceses e manifestaram-no através do seu logo, sites ou redes sociais. “A partir de 7 de Janeiro, falar em Charlie Hebdo é, para além disso, falar também em vingança, assassínio cobarde, crime premeditado não só contra pessoas, mas também contra o espírito de liberdade que elas personificavam e, apesar de muitas terem sido assassinadas, ainda personificam”, escreveu a direção editorial do Público.

Por parte dos órgãos de comunicação social, a reação ao brutal ataque ao Charlie Hebdo foi ilustrada da solidariedade dos jornalistas com os seus ex-colegas de profissão, assassinados no cumprimento da sua profissão. Ainda assim, e apesar da consternação geral que rodeou a cobertura mediática aos atentados de Paris, a verdade é que o caso do ataque ao Charlie Hebdo gerou igualmente críticas por parte daqueles que descreveram o tratamento mediático do acontecimento uma verdadeira hipocrisia, tendo em conta as pressões a que os jornalistas são sujeitos diariamente. Ainda relativamente à agenda mediática que rodeou este caso, outra das críticas teve que ver com o excesso de cobertura dada pelos media ao caso francês comparativamente a outros atentados de igual ou maior gravidade no número de vítimas.

Três meses depois do ataque ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, um grupo terrorista atacou uma universidade católica queniana em Garissa, matando 148 alunos por terem a ‘religião errada’, num ataque de islamitas somalis shebab. Nos jornais e nos sites noticiosos houve apenas pequenas breves e nas televisões a notícia passou sem diretos, interrupções das emissões ou enviados especiais. Ao contrário do que havia acontecido no caso francês, só três dias após é que as imagens do massacre se tornam virais na Internet. O Expresso procurou perceber, junto de jornalistas, o porquê desta diferença na cobertura mediática entre o acontecimento francês e queniano. Alguns responsáveis de media nacionais reconheceram que a cobertura mediática dada ao acontecimento não foi a melhor, mas não acreditam que se tenha tratado de racismo.

“Até para nós, que no dia anterior tínhamos dedicado o dia aos 21 coptas mortos por causa da religião no Egito, a questão da interiorização da dimensão levou mais tempo”, diz Graça Franco, diretora de informação da Rádio Renascença. No passado dia 2 de abril, data em que ocorreu o ataque à universidade queniana, as mortes do cineasta Manoel de Oliveira e de Silva Lopes fizeram com o que tema do Quénia fosse dado, a princípio, de uma forma minimal nos noticiários de rádio. A SIC Notícias, que preencheu o seu dia informativo com a morte de Manoel de Oliveira, começou por dar a notícia em pivot e só ao fim do dia conseguiu ter as primeiras imagens em vídeo. António José Teixeira, diretor da estação, contrapôs mesmo a ideia do “esquecimento mediático”, reafirmando que “não houve qualquer resistência a dar eco à notícia”.

Na Renascença, que conta com vários missionários em África, Graça Franco admite que “há em Portugal uma subestimação muito grande e muito grave em relação a África”. O diretor do “Diário de Notícias” André Macedo alinha na mesma opinião e reconhece que o DN “levou uma brutalidade injustificada de tempo a reagir, coisa que raramente acontece, e quando reagimos, como já foi tarde, não foi da melhor maneira.” O diário, que celebrou os seus 150 anos e que tinha duas páginas dedicadas ao continente africano, esteve para colocar uma foto do massacre na primeira página da edição de segunda-feira, quatro dias depois do ocorrido. Contudo, acabou por optar por Fernando Medina, que nesse dia sucedia a António Costa. “E é possível que tivesse sido errado. Fazia sentido pela proximidade, pela gravidade não”, reconhece o diretor do DN.

Ricardo Costa, diretor do Expresso, reconheceu que o fator proximidade foi essencial para que não tivesse sido dado tanto destaque ao massacre na Universidade no Quénia quando comparado com o ataque ao Charlie Hebdo. “A nossa capacidade de reação não foi brilhante, mas não foi por ser África. Se fosse na Guatemala ou no México era a mesma coisa. Tem que ver com a proximidade cultural e geográfica que temos com o assunto.”  Para António Granado, professor de jornalismo na Universidade Nova de Lisboa, não existe uma falta de investimento na editoria internacional, mas o que está a acontecer é que “a maioria das notícias no jornalismo português é feita na redação e na secção internacional ainda mais”. Perante o atual contexto, tem aumentado a dependência das redações portuguesas relativamente ao que as agências internacionais enviam. António José Teixeira, diretor da SIC Notícias, lembrou que os próprios militares levaram sete horas para se deslocarem de Nairobi a Garissa, local do ataque, destacando que “as primeiras imagens em vídeo demoraram a chegar e só as tivemos através de agência”.

A conclusão que se pode tirar desta bipolaridade na cobertura mediática é de que quando não há cidadãos ocidentais envolvidos nestes massacres, os factos tardam a ser noticiados. As manchetes são atribuídas aos acontecimentos que mais colocam em causa o modo de vida ocidental, o nosso. “Nós percebemos que tinha importância quando sabemos que as mortes tinham que ver com a religião católica. Só quando chegamos a este tipo de informação é que percebemos que tinha mais que ver connosco, com o nosso modo de vida”, refere Paulo Baldaia, jornalista e diretor da TSF . Este problema não se cinge apenas aos media portugueses ou a África. António Granado dá o exemplo do assalto ao navio Santa Maria, “a notícia sobre Portugal que mais tempo esteve na primeira página do ‘New York Times’, porque havia lá americanos”. A comparação também pode ser feita com a queda do avião da Germanwings. “Em 2013 houve um atentado semelhante com um voo das Linhas Aéreas Moçambicanas [voo 470] e nessa altura não se discutiram as regras de segurança [quantas pessoas devem estar dentro da cabine]. Hoje discute-se isso porque houve um acidente na Europa”, diz Paulo Baldaia, diretor da TSF.

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