Faltou o básico: fazer jornalismo

A revista Rolling Stone divulgou neste mês (no dia 5 na edição online e no dia 8 na impressa) o resultado da investigação realizada pela Columbia University Graduate School of Journalism sobre a reportagem “A Rape on Campus: A Brutal Assault and Struggle for Justice at UVA”, que denunciava um suposto estupro sofrido por uma estudante da University of Virginia na casa de uma das fraternidades da universidade: ela teria sido violentada por sete homens.

A reportagem foi publicada em novembro de 2014. A suposta vítima, identificada como Jackie (diminutivo do seu verdadeiro nome), foi a fonte da matéria. A autora da reportagem, Sabrina Rubin Erdely, chegou até ela por meio de uma funcionária da University of Virginia, responsável por lidar com denúncias de estupro entre os alunos. Segundo a Columbia University, Jackie descreveu detalhadamente a violência sofrida e disse ter sido atraída à casa da fraternidade por um estudante da universidade. Ela se recusou a revelar o nome dele, alegando medo, e os editores da revista decidiram ir adiante com a história, sem procurar identificar o agressor e os demais envolvidos. Por telefone, a “checadora de fatos” da Rolling Stone reconfirmou a história com Jackie.

Em dezembro de 2014, a veracidade da reportagem foi questionada pelo Washington Post, que desconstruiu personagens, fatos e depoimentos apresentados pela Rolling Stone. Diante da repercussão do caso e das dúvidas que a própria repórter passou a ter sobre o depoimento de Jackie, a revista solicitou à Columbia University uma investigação sobre a matéria: a conclusão, publicada no início deste mês, é de que a história é falsa. Numa retratação oficial, a Rolling Stone pediu desculpas e publicou o relatório elaborado pela universidade sobre a reportagem, que aponta os erros cometidos pela revista e defende como poderiam ter sido evitados. Houve, segundo a Columbia, erros primários de apuração. E se etapas básicas da prática jornalística houvessem sido cumpridas, o problema provavelmente teria sido evitado.

Entre as falhas identificadas pela Columbia estão a falta de procedimentos elementares de verificação. Jackie disse ter sido amparada por três amigos após o suposto estupro, mas a repórter não conversou com nenhum deles. A estudante também afirmou que o jovem que havia coordenado o ataque tinha trabalhado como salva-vidas na universidade, mas a jornalista não solicitou ao centro aquático da universidade informações sobre os alunos que ali haviam trabalhado. Mais: Jackie afirmou que a fraternidade promoveu uma festa na noite em que foi agredida, mas a repórter não procurou confirmar esta informação e não há nenhuma indicação de que esse evento tenha acontecido.

“Havia várias formas de Erdely verificar e apurar melhor o que Jackie havia dito. Jackie afirmou que um dos estupradores fazia parte de um grupo de discussão na sua aula de antropologia. Erdely poderia ter tentado verificar se esse grupo realmente existia e identificar o jovem descrito por Jackie. Ela poderia ter buscado, por meio das mídias sociais da fraternidade, pessoas que pudessem ser entrevistadas sobre a denúncia e evidências de uma festa na fraternidade na noite indicada por Jackie. Ederly poderia ter procurado estudantes que trabalharam no centro aquático e buscado pistas que pudessem conduzir ao salva-vidas descrito por Jackie. Essas e outras práticas de reportagem poderiam levar a descobertas que talvez fizessem a Rolling Stone reconsiderar seus planos.” (trecho do relatório, tradução nossa)

A questão da verificação foi discutida recentemente na disciplina Questões Contemporâneas do Jornalismo a partir do artigo “Tweets and truth: journalism as a discipline of collaborative verification“, no qual Alfred Hermida analisa como as mídias sociais estão impactando a prática da verificação no jornalismo, particularmente como as organizações jornalísticas estão negociando as tensões associadas à transição para o ecossistema digital. Hermida destaca que a verificação está na essência da profissão, diferenciando o jornalismo de outras formas de comunicação. Com o boom das redes sociais e de ferramentas de compartilhamento de informação como o Twitter, o mercado jornalístico se depara com novos desafios e precisa desenvolver práticas colaborativas de verificação, envolvendo os cidadãos. A ironia é ver que, enquanto a preocupação dos profissionais e pesquisadores da área volta-se para os novos desafios trazidos pela sociedade em rede e a necessidade de atualizar as práticas de verificação adaptando-as às novas organizações e plataformas de compartilhamento de informação, as mais básicas e tradicionais práticas de apuração são deixadas de lado por um ícone da grande imprensa, como a Rolling Stone.

Em outro artigo relacionado ao tema, “Remediating #IRANELECTION. Journalistic strategies for positioning citizen-made snapshots and text bites from the 2009 Iranian post-election conflict”, Rune Saugmann Andersen analisa o papel do jornalismo e sua ligação com a grande imprensa. Uma das conclusões do trabalho é a de que os jornalistas cidadãos não costumam ter a credibilidade geralmente associada às tradicionais empresas jornalísticas, e muitas vezes só são citados por esses veículos quando são ligados a um site ou agência que funciona como um “selo” de qualidade para a informação produzida por esses indivíduos. Um episódio como o que foi protagonizado pela Rolling Stone é um duro golpe contra essa credibilidade ainda depositada na grande imprensa e em suas práticas de verificação, expondo a fragilidade não apenas das notícias produzidas fora das redações, uma das mais debatidas questões do jornalismo contemporâneo, mas por referências mundiais da comunicação jornalística, como a revista.

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