Noruega desliga o FM

Durante mais de cem anos, rádio foi apenas som. Ao entrar na web a rádio transformou-se de forma profunda, fundindo características dos dois meios. Ouve-se, mas também se vê e lê: é um novo meio, hipermédia e interactivo, tal como todos os outros, como os jornais e as televisões. O som entrou na rede no final do século XX com as primeiras experiências  sonoras na internet. Inicialmente a rádio encarou o novo meio de difusão não como uma  oportunidade, mas como uma ameaça. Muitos foram os que sentenciaram a morte do  velho meio e houve mesmo quem antecipasse a morte da rádio tradicional em AM e FM para o início do século XXI. Ainda assim, cedo se percebeu que a internet é mais do que um  mero suporte pois esta é, simultaneamente, um novo meio de difusão, de comunicação e de expressão. Estamos perante um novo medium e novas formas de comunicar, uma “quarta mídia” como lhe chama Khun (2002).

Com a entrada na internet, o meio rádio transforma-se, obrigando a repensar conceitos, funções, formatos e conteúdos, formas de produção, difusão e recepção,  formas de comunicar e interagir com um novo tipo de audiência. O novo paradigma repercute-se na rádio, gerando um novo modelo comunicativo radiofónico (Herreros, 1995). Cumprindo a teoria da Mediamorphosis de Fidler (1997) os novos media ainda usam códigos de linguagem dos velhos media mas a nova rádio, a que se vê, lê e escuta na internet, funde características dos dois meios e está a gerar uma nova linguagem (Prata, 2008) e uma nova narrativa. Da rádio tradicional auditiva, linear, sequencial, instantânea e imediata passamos  para uma rádio multimédia, multilinear, multisequencial e com conteúdos permanentes. A rádio como sempre a conhecemos não se vê, não se lê, não se toca, apenas se  ouve. Na web a rádio perde a exclusividade da audição e o som deixa de ser o único  elemento de contacto entre o emissor e o receptor. Agora é o ciberouvinte que constrói a sua própria sequência, e define o seu horário. O tempo presente do “aqui e agora” da  rádio hertziana é congelado. A rádio junta ao som novos recursos transformando-se num  produto hipermédia (Merayo Perez, 2000) que integra, além do som, a palavra escrita e a imagem.

Como pudemos perceber através da revisão de literatura feita para esta reflexão, o meio radiofónico está a passar por profundas alterações, sendo a internet uma das principais causas para esta transformação. Mais do que um “velho meio”, a rádio tem procurado adaptar-se à nova realidade e paradigma que rege o mercado dos media, procurando apostar cada vez mais numa rádio digital, que chegue de forma mais assertiva aos seus ouvintes. Indo ao encontro deste repto, a Noruega, segundo comunicado do Ministério da Cultura, vai desligar a frequência de Rádio FM no país a partir de 2017, tornando-se o primeiro país a tomar esta iniciativa. O anúncio, feito pelo site Radio. no, aponta o dia 11 de janeiro de 2017 como o princípio do fim da Frequência Modulada. “Esta decisão permite-nos concentrar os recursos no que é essencial, nomeadamente criar rádio diversificada e de alta qualidade para os ouvintes noruegueses.”, refere o diretor da Rádio Nacional da Noruega. De realçar que o fim das transmissões em FM vai começar pelo norte e alastrar progressivamente ao resto do país.

A rádio digital, conhecida pela sigla em inglês DAB (Digital Audio Broadcasting), permite mais quantidade e melhor qualidade da experiência radiofónica – já hoje a oferta norueguesa em DAB é bastante superior à do FM, com 22 canais contra 5 – para além da facilidade e qualidade superior proporcionadas pelo digital. De acordo com as estatísticas, atualmente 56% dos ouvintes de rádio já o fazem em rádio digital e 20% dos automóveis já estão equipados com rádio DAB. A Frequência Modulada foi patenteada em 1933 e registou para a posteridade todos os acontecimentos relevantes da humanidade. Caso a tendência se generalize, pode não chegar a fazer cem anos.

Artigos consultados:

– Fidler, Roger (1997) “Mediamorphosis: Understanding New Media”, Pine Forge Press, California

– Herreros, Mariano Cebrián (1995) “Información Radiofónica. Mediación técnica, tratamiento y programación”, Editorial Síntesis, Madrid

– Kuhn, Fernando (2002), “O rádio na Internet: rumo à quarta mídia” in Intercom http://www.intercom.org.br/papers/viii-sipec/gt01/31%20-%20Fernando%20Kuhn%20- %20trabalho%20final.html

– Merayo Perez, Arturo (2000) “ Formación, nuevos contenidos y creatividad sonora: apuestas para un tiempo de incertidumbre tecnológica” http://www.unav.es/fcom/jornadas2000/Comunicaciones/arturo14.htm

Links Consultados: 

http://observador.pt/2015/04/19/noruega-desliga-o-fm-em-2017/

http://www.viacomercial.com.br/2015/04/novas-tecnologias-noruega-sera-1o-pais-a-desligar-radio-fm-medida-sera-tomada-em-2017/

http://www.noticiasaominuto.com/tech/378026/este-e-o-primeiro-pais-a-desligar-para-sempre-a-radio-fm

http://www.tecnologia.com.pt/2015/04/noruega-vai-desligar-a-radio-fm/

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