Sobre o que era mesmo a reportagem?

Apesar de vir sendo praticado desde o século 18, o novo jornalismo ou jornalismo literário (denominação que aqui adotaremos) consolidou-se como gênero a partir de Hiroshima (1946), de John Hersey, A sangue frio (1965), de Truman Capote, e o manifesto O nascimento do novo jornalismo (1972), publicado por Tom Wolfe na New York Magazine. Uma espécie de ponte entre a realidade observada e a subjetividade perspectiva, em reação à objetividade imposta pela técnica da pirâmide invertida e a ditadura do lead – como define Felipe Pena no livro Jornalismo literário (São Paulo: Contexto, 2006) –, as reportagens associadas a esse fazer jornalístico costumavam incorporar técnicas da literatura e estendiam seus interesses a situações e personagens não vistos tipicamente na grande imprensa: gente tão comum que costumava passar despercebida, mas nos textos desses autores era descrita com todas as suas minúcias e texturas.

Do manifesto de Wolfe até hoje, o jornalismo literário experimentou fases de intensa admiração, produção e proliferação e também de desprezo e retração. Depois de um período de contenção, consequência da crise financeira e conceitual que atingiu a indústria da comunicação na última década, o jornalismo literário experimenta um revival impulsionado por alguns dos mesmos fatores que, inicialmente, se apresentaram como uma ameaça.

Diante da revolução digital, do advento da sociedade em rede e da reconfiguração do mercado publicitário, associada à recessão econômica mundial que marcou este início de século, a grande imprensa reduziu equipes, cortou custos, eliminou alguns produtos e reduziu os investimentos em projetos especiais (como geralmente são consideradas as tentativas de produzir algo na linha do jornalismo literário).

Depois do susto inicial, no entanto, a democratização das possibilidades de produção e distribuição de reportagens viabilizadas pelo avanço tecnológico vêm abrindo espaço para uma nova onda de produtos do gênero, que apostam na contaminação de plataformas e linguagens para contar suas histórias, construindo narrativas que já não buscam referências apenas na literatura, mas também no cinema e na animação. Esses produtos vêm sendo chamados por algumas instituições, como o Columbia University’s Tow Center for Digital Journalism, de longform digital journalism.

Ícone supremo desse movimento é a reportagem Snow fall: the avalanche at Tunnel Creek, do New York Times, jornal que vêm apostando em sofisticadas traduções da cultura da convergência. Fora da imprensa tradicional, destacam-se como expoentes do novíssimo jornalismo literário multimédia organizações jornalísticas digitais criadas no contexto contemporâneo da comunicação, como Narratively, The Big Roundtable, The Atavist Magazine e Longreads. Em comum, matérias saborosas, bem acabadas e sem pressa, imersões no universo do ordinário (embora essa temática não seja regra) e a busca por uma gama mais abrangente e diversificada de pautas, como exemplifica o texto de apresentação do Narratively: “Nossa rede de talentosos e apaixonados storytellers e editores vasculham (…) as cidades em busca de personagens e narrativas que a grande imprensa não encontra (…) e que de outra forma cairiam no esquecimento” (tradução nossa).

Uma das perguntas frequentemente associadas ao longform digital journalism é: as pessoas realmente leem essas reportagens? Entre os argumento associados a essa discussão está (ainda!) o tamanho das matérias. Como o nome indica, tratam-se de reportagens longas, contrariando hipótese defendida nos primórdios do jornalismo online (e, surpreendentemente, ainda hoje, embora com menos ênfase) de que os produtos digitais devem ser mais curtos, objetivos, rápidos. Em seminário sobre digital longform journalism, o pesquisador Josh Schwartz, da Chartbeat, organização especializada em análise de dados que trabalha com milhares de publishers, derrubou essa argumentação, afirmando que esse tipo de reportagem “prende” o leitor cinco vezes mais do que uma matéria tradicional.

Outro ponto questionado (esse, sim, me parece bem mais relevante) é o risco de valorizar demais a experiência visual e interativa em detrimento da história que se quer contar – se perdendo na avalanche de extravagâncias multimédia agora disponíveis. Esse é um dos fatores analisados pela pesquisadora do Tow Center Anna Hiatt em estudo sobre o longform digital journalism – ela, inclusive, revelou, em uma entrevista, que “navegou” fascinada pela versão multimídia de Snow Fall, mas depois pegou a edição impressa e aí, sim, foi ler a reportagem.

Em matéria da revista Fast Company, Steve Duenes, managing editor no New York Times, falou sobre esse dilema entre forma e conteúdo e, também, sobre a dificuldade de custear iniciativas como “Snow Fall”. Segundo Duenes, “A game of shark and minnow”, projeto posterior do jornal, representa uma evolução dessa modalidade jornalística e aponta um caminho mais equilibrado e acessível tanto para o leitor (consumir e compreender a reportagem) como para a organização (conseguir custear produtos desse tipo).

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