“Podemos tirar, se achar melhor”

O editor se descuidou e a frase foi publicada. Trata-se de uma entrevista da agência de notícias Reuters com ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso (FHC), em que ele discute denúncias de corrupção nos governos do PT, particularmente o caso Petrobras. Num dos trechos da matéria, no entanto, há uma referência à corrupção ainda na gestão FHC: é citado o depoimento de um ex-gerente da Petrobras que revela ter começado a receber propinas quando Fernando Henrique era presidente. Entre parênteses, uma sugestão: “Podemos tirar, se achar melhor”. Ou seja, podemos deixar no texto apena as acusações contra o PT (partido do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma), sem mencionar as denúncias contra FHC e o PSDB.

Depois da repercussão na internet e da saraivada de críticas que recebeu, a agência retirou a frase do ar e emitiu um comunicado afirmando que havia sido publicada acidentalmente (seria, segundo a Reuters, um pergunta dos editores ao repórter que fez a matéria). O jornalista em questão é Brian Winter, que escreveu em parceria com o próprio FHC um livro de memórias do ex-presidente, como destaca a revista Carta Capital em matéria sobre o caso.

Esse episódio ocorreu no fim de março. Em abril, uma nova trapalhada envergonhou a imprensa brasileira. A emissora de rádio CBN publicou, em seu site, uma notícia sobre um caso de fraude fiscal conhecido como Máfia do ISS. A matéria denunciava o envolvimento do empresário Marco Aurélio Garcia e associava o acusado ao prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, do PT, logo no título da matéria: “Irmão de secretário de Haddad é denunciado na máfia do ISS em São Paulo”.

Acontece que Marco Aurélio Garcia, na verdade, é irmão do secretário estadual de habitação em São Paulo, Rodrigo Garcia, indicado pelo governador do estado, Geraldo Alckmin, do PSDB. Faz parte da equipe do governo do estado e não da prefeitura. Quando percebeu o erro, o que a CBN fez? Trocou o título e, agora que a acusação recairia sobre o PSDB, decidiu omitir qualquer referência aos laços familiares do acusado: “Sete são denunciados por lavagem na máfia do ISS em São Paulo” (leia reportagem sobre o caso no blog de Luís Nassif).

Alguns meses antes, a grande imprensa do Recife tornou-se ela própria notícia (negativa!) por se omitir diante dos massivos protestos realizados na cidade, com repercussão nacional e internacional, contra um empreendimento imobiliário comandado por um consórcio de construtoras (ainda entre os poucos grandes anunciantes nos jornais locais).

Esses três casos (entre tantos outros que marcam o cotidiano das redações no país) remetem diretamente a uma afirmação feita pelo jornalista Bob Fernandes no documentário O mercado de notícias (dirigido por Jorge Furtado): “Eu não conheço nenhum caso recente, nos últimos anos ou décadas, de censura do Estado, que tanto temem… E eu conheço, e qualquer jornalista conhece, centenas e centenas e centenas de casos de censura feita por quem? Pelo dono do meio de comunicação”.

No modelo de produção, veiculação e/ou distribuição de notícias consolidado pela indústria jornalística no século 20, fundamentado no oligopólio, o discurso midiático foi historicamente articulado (invisivelmente) de maneira a assegurar a capilaridade e perenidade dos grupos econômicos e políticos que detinham o poder. Nas três últimas décadas do século passado, apenas dez grupos familiares controlavam a quase totalidade dos meios de comunicação de massa no Brasil: Marinho (Globo), Abravanel (SBT), Bloch (Manchete), Civita (Abril), Frias (Folha de S. Paulo), Levy (Gazeta Mercantil), Mesquita (O Estado de S. Paulo), Nascimento Brito (Jornal do Brasil), Saad (Bandeirantes) e Sirotsky (Rede Brasil).

A lógica é simples: quanto mais controle sobre os meios de comunicação, mais poder. Principalmente na sociedade contemporânea, em que um inesgotável fluxo de conteúdos simbólicos é disponibilizado pelos meios de comunicação a um número cada vez maior de pessoas, num processo que acaba por conformar a realidade, as relações sociais e a subjetividade individual. “Se a mídia constrói a realidade, com valores, monta a agenda de discussão e constrói também a subjetividade humana, podemos, então, fazer uma ideia da importância que […] exerce numa sociedade, principalmente no que tange às questões políticas, democráticas e éticas”, afirma Pedrinho Guareschi no livro Psicologia social crítica: como prática de libertação (Edipucrs, 2004).

Essa concentração de poder é uma das razões apontadas por Ignacio Ramonet em A explosão do jornalismo – Das mídias de massa à massa das mídias (Publisher, 2012) para a queda de credibilidade entre a grande imprensa brasileira neste início de século: “Os cidadãos desconfiam de uma imprensa que pertence a um punhado de oligarcas, que já controlam amplamente o poder econômico e que, frequentemente, são coniventes com os poderes políticos”.

Infelizmente, esse cenário não se limita ao Brasil. A edição 2014 do relatório Freedom of the press (publicado anualmente pela Freedom House) destaca o determinante papel que o fator econômico exerce sobre a independência da mídia ao registrar que, em vários países, a liberdade de imprensa é ameaçada por donos de empresas de comunicação – especialmente aqueles com relações próximas com governos e partidos políticos na liderança –, que alteram diretrizes editoriais e/ou demitem profissionais com poder de decisão após adquirir organizações que atuavam, até então, de forma independente.

Situações como essas constituem uma afronta à própria democracia, questão abordada pela Freedom House em seu relatório sobre a liberdade de imprensa: “Uma mídia independente desempenha um papel decisivo no sentido de sustentar e monitorar uma democracia saudável, contribuindo para mais transparência, boas práticas de governo e desenvolvimento econômico”.

Com a popularização dos meios de produção e distribuição da informação trazida pelo avanço digital, o combate à concentração (e abuso) de poder na imprensa ganha um reforço, capitaneado por organizações que buscam a independência do jornalismo. No Brasil, é o caso de iniciativas como Agência Pública e Ponte, que buscam financiamento junto a organismos internacionais de apoio à comunicação (como Fundação Ford e Open Society), além de desenvolver projetos custeados por meio de crowdfunding. É uma tentativa de se desvencilhar das pressões exercidas por anunciantes (públicos e privados), retomando e revitalizando o papel essencial do jornalismo a serviço do interesse público.

 

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