O preço do jornalismo

Hoje, durante a sessão do Dialogue Café em que participámos, lembrei-me desta imagem:

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Isto porque no final da sessão, o grande tema em foco, já era um daqueles de raiz, uma daquelas questões de sempre, que tem acompanhado e definido o jornalismo desde a sua génese: será o jornalismo verdadeiramente livre e isento ou estará este sempre condicionado por interesses externos, em maior ou menor medida, devendo integrar essa realidade nas suas práticas? Quando se trata esta problemática, identifica-se amiúde o factor económico como um dos mais preponderantes nesta equação e fala-se, quase com uma certa reverência, da “sustentabilidade” do jornalismo. E ao dizer-mos que o jornalismo deve ser sustentável ou rentável, estamos inevitavelmente a colocá-lo à dimensão de um negócio. Estamos a admitir que ele (ou o seu output final) é um bem transaccionável e que por isso deve obedecer às velhas máximas que regem todas as trocas comerciais: deve ter uma contrapartida; deve gerar receitas; deve estar sujeito às leis da concorrência e do mercado.

Mas a que custo?

E aqui volto à imagem. São estes órgãos de comunicação a que conferimos credibilidade e que nos fazem chegar “factos” e “histórias” dos vários cantos do mundo, ajudando assim a moldar a nossa percepção subjectiva da realidade? Os tais, registados na ERC, que empregam jornalistas com carteira profissional (que supostamente regem o seu trabalho por um código deontológico que exige a isenção e proíbe associações a actividades comerciais), mas que pertencem a empresas cotadas em bolsa ou a entidades religiosas, políticas, ONGs…

Façamos o exercício conceptual: o jornalismo não deveria, na sua essência, estar para lá disto tudo? Deve ele de facto fazer caso da batalha das audiências na televisão e dos clicks na web? Se ele for reduzido a essa dimensão não será melhor apelidá-lo de infotainment, publicidade, entretenimento? Qualquer outra coisa? Pode ele sequer (co)existir com estas outras dimensões que fazem também parte do campo mais vasto dos média?

Muitas vezes a resposta surge quase com uma certa reverência: «é que o jornalismo tem de ser sustentável…». Isto é notório mesmo no discurso dos jovens jornalistas e estudantes de jornalismo, que parecem já ter integrado este paradigma. Claro, o jornalista tem de receber um salário digno pelo seu trabalho e deve ter direitos laborais como qualquer outro trabalhador. Mas a que custo? Se um jornalista faz uma capa ou escreve um artigo como o que vemos na imagem, pode considerar-se ainda jornalista?

Não sei se sei responder a esta questão. Mas cada vez mais tenho para comigo que um jornalismo a este preço, não é algo que eu queira fazer.

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