“Falsiê, mas sem farsas”

Entre os tantos efeitos da revolução digital no jornalismo está o compartilhamento de notícias falsas, produzidas por sites de humor com base em fatos reais veiculados na imprensa tradicional. O assunto foi alvo de matéria recente da revista brasileira Trip, que entrevistou os humoristas responsáveis por dois dos principais produtos do gênero no país: Renato Terra, do blog the i-piauí herald, vinculado à revista Piauí, e Raphael Tenório, do Diário Pernambucano (que tem como mantra o título deste texto: “falsiê, mas sem farsas”).

Um dos problemas abordados no vídeo produzido pela Trip é a queda de qualidade e credibilidade na imprensa. “Essa proliferação de sites que trabalham com sátira, ironia, piadas em geral com notícias falsas, digamos assim, deve-se, em primeiro lugar, ao descrédito da mídia ‘oficial'”, afirma Raphael Tenório. Outra questão levantada é a falta de espírito crítico entre os leitores. “O Herald é muito exagerado, é irônico, é sarcástico. Então, quando a pessoa compartilha um Herald achando que é real, alguma coisa está errada”, diz Renato Terra.

Um dos mais conhecidos casos de notícia falsa veiculada como real foi o texto escrito em 2013 pelo humorista Andy Borowitz, da coluna The Borowitz Report, atualmente veiculada na revista The New Yorker, sobre a compra do jornal The Washington Post por Jeff Bezos, da Amazon. Intitulado “Amazon founder says he clicked on Washington Post by mistake”, o artigo relata como Bezos telefonou para o serviço de atendimento ao consumidor do jornal para tentar desfazer a compra feita pela internet, alegando que clicou na opção “comprar” por engano e ficou surpreso quando viu a fatura do cartão de crédito. O texto foi reproduzido pela agência de notícias chinesa Xinhua como uma notícia real.

According to Mr. Bezos, “I keep telling them, I don’t know how it got in my cart. I don’t want it. It’s like they’re making it impossible to return it.”

Fatos como esse (em maior ou menor escala e repercussão) alertam para um debate recorrente no jornalismo contemporâneo sobre a reprodução de notícias veiculadas na internet sem que as informações sejam minimamente checadas. O erro da agência de notícias chinesa foi amplamente divulgado, na época, por vários jornais e revistas de grande porte  (incluindo o próprio The Washington Post) – e trata-se, realmente, de um absurdo. Mas esses mesmos veículos já publicaram primeiro para verificar depois: o que, ainda que não se trate de um caso extremo como o da Xinhua, também é muito grave.

Às vezes isso acontece por conta da pressa em noticiar algo que já pode ser encontrado nas redes sociais – e acaba sendo compartilhado sem procedimentos básicos de checagem de fatos. Também é um problema relacionado à política de cortar custos (e profissionais) adotada por muitas empresas jornalísticas na era digital, apostando na reprodução de conteúdo produzido por terceiros. O resultado, como mostra o exemplo acima, pode ser desastroso.

* As problemáticas da verificação e da reprodução de conteúdo produzido por terceiros foram analisadas ao longo da disciplina, particularmente em dois artigos:

Bakker, Piet (2012). Aggregation, Content farms and Huffinization. The Rise of low-pay and no-pay journalism.

Posetti, J. N. (2013). The ‘twitterisation’ of investigative journalism. In S. J.. Tanner & N. Richardson (Eds.), Journalism Research and Investigation in a Digital World

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